Contra o sofrimento animal: saiba o que é veganismo e como vivem seus adeptos

Contra o sofrimento animal: saiba o que é veganismo e como vivem seus adeptos

O movimento vegano, que renega o consumo de carne, derivados e produtos de origem animal, está ganhando cada vez mais adeptos.

Por Taynã Feitosa

O veganismo soa como dieta “cool” para uns, mania de hippies “naturebas” para outros e como esquisitice para desinformados que defendem teorias como “o alface também sofre” e “os animais existem para nos servir, porque somos humanos, os soberanos”. Mas, para quem escolhe não comer ou usar nenhum produto que tenha como origem o sofrimento animal, o veganismo é conduta ética. E o mais bacana é saber que esse movimento, tão rico em vertentes, está ganhando cada vez mais adeptos, tanto jovens cabeças pensantes quanto gente que procura garantir qualidade de vida.

Não basta só excluir carne da alimentação. Lembre-se também de deixar de lado embutidos, ovos, leite, mel, lã, couro, produtos testados em bichos e também festas de rodeio, circos e exposições de animais. Qualquer atividade que envolva o sofrimento de animais está longe da vida de quem levanta a bandeira vegana. Para eles, o veganismo é uma postura política tão importante que deve ser mostrada às empresas – e ao mundo, através de boicote a produtos e serviços obtidos com sofrimento de animais.

 

E quem aí pensa que veganos são politicamente corretos e chatos, se engana. “Convivo com pessoas que têm todo tipo de alimentação possível e não tento ‘catequizar’ ninguém”, brinca o grafiteiro Giu Dias, de 27 anos. Adepto do estilo de vida sem crueldade há mais de 10 anos, ele conta que tudo começou por influência de amigos que, além de veganos, eram Straight Edge (movimento de contracultura com origem no punk/hardcore que defende o não uso de bebidas, drogas lícitas e ilícitas, tabaco e por vezes se identifica com o veganismo). “Já me sentia atraído por essa cultura do não uso do que faz mal para o nosso corpo. Através desses amigos, fui estudando e decidi parar de comer carne, e, um tempo depois, larguei qualquer produto que envolva sofrimento animal”, explica o artista, que foi vegetariano por um ano, antes de aderir ao veganismo.

A transição de Giu de onívoro para vegano foi tranquila. O jovem, que não tinha lá muita desenvoltura na cozinha, teve que aprender a cozinhar. E fez da necessidade uma paixão. Enquanto morava com os pais, ele vivia de “arroz, feijão, salada e o que mais a mãe pudesse fazer”. E diz que não enjoa, tudo é questão de força de vontade. “Saio com amigos que bebem, comem carne, fazem churrascos. Não deixei de ser sociável por conta disso. Faço o que quero. Cada um faz e acredita no que quer”, conta ele, que precisou lidar com as brincadeiras dos amigos no começo, mas, hoje em dia, é o maior piadista do grupo. “Falo mesmo sobre a ‘supremacia vegana’ e faço brincadeirinhas e piadas manjadas. Tudo no maior bom humor”, conta.

Quanto a problemas de saúde, como anemia ou outra deficiência de vitaminas e proteínas, Giu esclarece que nunca teve problema, justamente por ficar de olho. “Faço check ups com frequência e acho isso muito importante. Fica o alerta para todo mundo, não só para veganos”.

Negócio sem crueldade

Já o caso do empresário Thiago Pimentel foi de filosofia de vida para os negócios. Tudo porque ele, ao lado do sócio Gustavo Cometti, que é vegano há 8 anos, resolveu arregaçar as mangas e facilitar a vida de adeptos desse estilo de vida na Grande Vitória ao abrir o Empório Veganza. Thiago, que se diz “vegetariano em fase de transição”, conta que a ideia da loja já existe há anos, justamente por saber da falta de alternativas veganas no Estado. “Além de filosofia de vida, o vegetarianismo, o veganismo e a alimentação a base de alimentos orgânicos são tendência para o futuro. Por isso, o mercado precisa se adequar a esse tipo de alimentação mais saudável”, esclarece.

Se você ainda acha que vegetarianos e veganos vivem a base de alface, é bom saber que existe, sim, bacon vegano, feito a base de soja e defumado. E também bife de hambúrguer. “Temos todo tipo de junkie food e comida gourmet, podemos garantir”, brinca o empresário. As variações dos conhecidos “podrões”, com selo ético “sem crueldade” faz a cabeça de veganos que curtem mesmo comida tipo fast food. “As pessoas se descontrolam. Elas chegam a loja e veem tantas opções que saem carregando sacolas, com sorrisos enormes”, explica Thiago, apontando a variada opções de alimentos de polos vizinhos, como Rio, São Paulo e Minas, como as maiores referências na hora de adquirir alimentos saudáveis.

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Tanto por influência do novo negócio quanto pelo amor aos animais, que influenciaram com peso maior a decisão de Thiago para a alimentação livre de crueldade, ele conta que o veganismo vai voltar para sua vida em breve. “Não é pela loja, é pela ideologia. Me sinto melhor vegano, porque fui por cinco anos. Voltei a ingerir ovos e leite por falta de opção no mercado. Mas agora não tenho mais essa desculpa”, justifica.

Bons de prato

Por conta da dieta restritiva e também da dificuldade para encontrar alimentos 100% veganos, novos adeptos têm dúvidas constantes em relação as necessidades do corpo, tanto de vitaminas, quanto de nutrientes, principalmente a vitamina B12, encontrada em carnes de animais e derivados, como ovos e leite.

Vegana há dois anos e meio e também nutricionista, Aline Seidel conta que tudo é questão de balanceamento e informação. Ela, que não faz distinção entre pacientes e atende adeptos de todas as dietas, conta que os veganos que chegam ao seu consultório carregam a suplementação como maior dúvida. “Você precisa garantir que sua alimentação diária conte com leguminosas, folhas verde-escuro e vitamina C nas principais refeições, proteínas variadas, frutas e verduras diariamente e não esquecer das oleaginosas e do ômega 3, presente, por exemplo, na chia”, explica a nutricionista, lembrando também que na maior parte dos casos, a suplementação é realmente necessária. “O que determina a quantidade de vitamina suplementada é o organismo. Por isso, como qualquer outra pessoa, veganos precisam fazer exames periodicamente”, esclarece a especialista.

Aline é apaixonada por animais, e por viver rodeada de bichos, viu que a escolha pelo veganismo era mesmo necessária. “Com o tempo, vi que não existe diferença entre meus gatos e cachorros e bois e galinhas. E claro, pesquisei bastante. Saí da faculdade vegana, porque vi que o vegetarianismo não bastava”, esclarece.

Tanto por ser vegana quanto especialista em nutrição, Aline defende que a adaptação à dieta é relativa e cada pessoa funciona de maneira diferente. Ela nunca conheceu alguém que teve algum problema de saúde relacionado à falta de vitamina B12 que não tenha sido solucionado com a suplementação correta, mas alerta para pacientes que tiveram problemas de saúde por descuido. “Quem escolhe esse estilo de vida não pode abrir mão de cuidados com o que come. Conheço relatos de pessoas que tentaram suplementar as vitaminas, mas não obtiveram bons resultados. Vale a pena conhecer seu corpo e fazer acompanhamento sempre”, explica, afirmando também não ter nenhum problema de saúde por causa da dieta. “Ao contrário, sou muito mais saudável hoje”.

BR veganismo evelizerevistaaaa min cecc-1422410Vigilância, aliás, também é a palavra-chave para os nutrólogos Marcos e Virgínia Dantas. A primeira recomendação a um novo vegano, segundo o especialista, é a informação em relação ao que pode ou não ser ingerido e, como ponto mais importante, o que não pode faltar no cardápio. “O vegano pode ter problemas sérios com a falta de vitamina B12 e creatina. É uma opção do paciente, e eu, como médico, tenho que repor o que falta”, aponta. Marcos ainda fala que a suplementação, vista muitas vezes como um gasto a mais, não é cara e também é fácil de ser feita.

Responsável por grande parte das dietas e acompanhamentos veganos da clínica, Virgínia explica que para uma elaboração correta de um cardápio nutricional – seja ele vegano ou não –, o médico deve observar, primeiramente, os hábitos alimentares do paciente. “No caso do vegano, observo o que pode vir a ter carência e sugiro os alimentos que a pessoa deve comer”, sugere a médica. Ela afirma que a maior parte dos casos de doenças nutricionais, como anemias e falta de vitaminas, deve-se a má alimentação. “É por isso que precisamos trabalhar com nutricionistas e garantir a saúde do paciente independente do estilo de vida escolhido por ele”, finaliza.

Fonte: Gazeta Online

Nota do Olhar Animal: Quando se fala nos “tipos chatos”, que querem “catequizar os outros”, há que se fazer uma analogia e ponderar. Imagine uma situação envolvendo um torturador e/ou assassino de humanos, um estuprador. Imagine também ninguém intercedendo em favor das vítimas dele, ninguém objetando, ninguém apontando o quanto isto está errado, para evitar ser “chato”, ser um “catequizador”. Assumir que no caso dos humanos a omissão não é correta e que no casos dos animais não humanos a omissão é correta significa partir do princípio de que as vítimas não humanas merecem menos consideração moral. E não há diferença RELEVANTE entre animais humanos e não humanos que justifique isto. A senciência é critério obrigatório no sentido de que esta consideração em relação à violência, aos maus-tratos e abusos, ao direito à vida, seja igual.

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