Controle de capivaras na Pampulha depende de decisão judicial, diz PBH em Belo Horizonte, MG

Controle de capivaras na Pampulha depende de decisão judicial, diz PBH em Belo Horizonte, MG

Animais, atualmente soltos, são motivo de impasse entre Prefeitura e Ibama. Confirmação de morte por febre maculosa reacende preocupação.

Por Flávia Cristini

Um dos animais hospedeiros do transmissor da febre maculosa, as capivaras que vivem no entorno da Lagoa da Pampulha atualmente não são monitoradas. A Prefeitura de Belo Horizonte recorre contra ordem judicial que, em janeiro deste ano, determinou a liberação dos animais mantidos em cativeiro. O processo está no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. A confirmação de uma morte por febre maculosa em Belo Horizonte reacendeu a preocupação.

Nesta terça-feira (13), um dia após a confirmação do óbito de Thales Martins Cruz, de 10 anos, o processo foi distribuído ao desembargador federal Souza Prudente da 5ª Turma. A Justiça não deu informações sobre prazos.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) atribui à Prefeitura a responsabilidade sobre os animais e informou que também não realiza nenhum tipo de controle. Nos últimos dois anos, a situação dos animais é motivo de impasse entre os órgãos. A situação das capivaras vai ser pauta de uma reunião neste sexta-feira (16) entre represetantes do Ibama e da Prefeitura. O encontro será na sede do instituto em Belo Horizonte.

A devolução dos animais à região da Pampulha ocorreu após período de confinamento. Em setembro de 2014, a Prefeitura capturou 52 capivaras. Exames apontaram a contaminação de parte com a bactéria Rickettsia rickettsii, transmissora da febre maculosa. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, as capivaras foram instaladas no Parque Ecológico da Pampulha, onde receberam vermifugação, atendimento veterinário, alimentação de boa qualidade e recintos e comedouros higienizados diariamente.

Trinta e oito vieram a falecer por possível estresse crônico que sofreram em cativeiro e, à época da soltura, eram em número de 14 e não apresentavam carrapato portador da bactéria de febre maculosa. Em março de 2015, o Ibama notificou a Prefeitura para que os animais fossem soltos, alegando que o prazo para manutenção em cativeiro havia expirado, que não havia um plano de manejo elaborado e que os animais recolhidos sofriam maus-tratos. Por decisão da Justiça Federal em Belo Horizonte, as capivaras foram soltas.

Na sentença, à època, o juiz Itelmar Raydan Evangelista ressaltou que “a captura e a manutenção desses animais em cativeiro, sem um plano de manejo adequado, representa ofensa a um bem protegido por Lei. (…) antes de representar uma solução para um problema ambiental antigo, revela-se desencadeador de outro mais grave e imediato”. (…)

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Contudo, sem algum responsável pelo controle, atualmente, não há informações sobre a saúde dos animais. Após a confirmação do óbito do garoto Thales, a Secretaria Municipal de Saúde informou que ações de prevenção estão sendo intensificada na região da Pampulha, sobretudo no Parque Ecológico.

Apesar do risco oferecido, outro hospedeiro também presente na Pampulha gera mais preocupação, segundo a Prefeitura. “Chamamos atenção que o principal hospedeiro [do carrapato-estrela] ele é o cavalo”, disse a gerente de Vigilância em Saúde, Maria Tereza da Costa, em entrevista ao MGTV 1ª edição. A Prefeitura pede ainda que todos os moradores da região que têm cães passem remédio nos animais e que a população que frequenta a orla se previna. Aves também são hospedeiras do carrapato.

“Toda a vegetação é podada, mantendo-a, no caso de gramínea, rasteira, para facilitar a penetração dos raios solares, que não são favoráveis aos carrapatos, e é feita irrigação de toda a área de visitação do parque, principalmente na época da seca, quando ocorre a maior proliferação de carrapatos no Brasil”, diz trecho de nota da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte, responsável pelo Parque Ecológico.

O espaço vai continuar aberto ao público. Nesta manhã, a fundação havia informado ao G1 que, em caso de necessidade, áreas poderiam ser cercadas no parque. Contudo, após a publicação desta reportagem, informou que o Parquinho 2 e o Memorial Japonês, limítrofes a uma reserva ambiental nos fundos do parque já haviam sido isolados para aplicação de carrapaticida. A medida segue até esta sexta-feira (16).

Segundo a Prefeitura, desde junho de 2013, animais hospedeiros não circulam na área de visitação, que contém placas informativas. Além disso, a Gerência Regional de Controle de Zoonoses – Pampulha realiza busca ativa do carrapato-estrela. e, em caso de necessidade, áreas poderão ser cercadas.

Em 8 de setembro, o prefeito Márcio Lacerda já havia recomendado à população a evitar contato com a vegetação do parque da Pampulha e afimou que as capivaras estavam com “habeas corpus”. “O assunto das capivaras precisa de uma solução definitiva. Elas estão hoje, incrivelmente, sob habeas corpus, né? Elas estavam presas e foram liberadas por uma decisão da Justiça da qual nós recorremos”, disse.

Ao se justificar na ação, a prefeitura afirmou que a população de capivaras gerava problemas como presença nas ruas próximas da orla e possíveis acidentes de trânsito, presença na pista do aeroporto da Pampulha e deteriorização dos jardins do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, além da questão de saúde pública: “e por fim o principal problema trazido pelas capivaras referente ao risco que trazem por serem propagadoras da febre maculosa”, disse.

Morte confirmada

Belo Horizonte tem quatro casos confirmados de febre maculosa em residentes, segundo a secretária Municipal de Saúde. A última foi no dia 2 de setembro. Thales Thales Martins Cruz, de 10 anos era lobinho e participava das atividades dos Escoteiros do Brasil, seção Minas Gerais, há sete anos. Uma delas aconteceu no dia 20 de agosto, no Parque Ecológico da Pampulha. A causa da morte foi confirmada nesta segunda-feira (12) por exames na Fundação Ezequiel Dias (Funed).

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Com a confirmação, a Secretaria Municipal de Saúde informou que realizará, nesta quinta-feira (15) , videoconferência com médicos e enfermeiros de sua rede, para fortalecer os protocolos visando ao rápido diagnóstico e tratamento da doença.

A doença

A febre maculosa é transmitida pelo chamado “carrapato-estrela”. Esse animal tem como hospedeiros principais os cães, cavalos, as aves e capivaras. A doença se manifesta repentinamente acompanhada de vários sintomas, como febre alta, dor de cabeça, dores no corpo, náuseas e vômitos.

A doença tem um ciclo de incubação que dura de cinco a dez dias, até se manifestar. Um dos maiores problemas apontados pelos médicos é o fato de que os sintomas se parecem com os de outras doenças, como a dengue. A demora no diagnóstico pode levar à morte.

Fonte: G1


Nota do Olhar Animal: O poder público, invariavelmente especista, não demonstra competência e/ou vontade política para lidar com a questão preservando a vida de capivaras e de humanos. Ao contrário, anseia seguir a anacrônica e nada ética lógica da matança. A falta de um encaminhamento ético e ágil poderá fazer outras vítimas, inclusive entre humanos. E a culpa não será das capivaras, que querem condenar à morte, seja pelo extermínio direto, seja pelo confinamento, que já se mostrou letal para elas.

 

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