Corrida de galgos: uma prática clandestina que move apostas milionárias na Argentina

Corrida de galgos: uma prática clandestina que move apostas milionárias na Argentina

Entidades protetoras denunciam que os animais são maltratados e abandonados quando não podem mais correr.

Por Agustina Mussio / Tradução de Alice Wehrle Gomide

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Lola era usada para caçar. É uma cadela galgo que precisa ser operada. Ela foi lançada de uma caminhonete na rodovia 36 porque uma de suas patas dianteiras estava quebrada, não foi atendida a tempo e os ossos cicatrizaram de forma errada. Agora ela não pode caminhar normalmente e existe um alto risco de que com uma pisada mais forte a pele se rompa e a fratura fique exposta, de acordo com a Gestión Prodea, organização protetora de animais que a resgatou.

Assim como aconteceu com Lola, a destreza dos galgos acaba se transformando na condenação de muitos. As aptidões para caçar e correr, que os destacam entre outras raças, podem significar a fonte do seu tormento. Grupos ativistas garantem que estes cães frequentemente são explorados, drogados, maltratados e abandonados.

“Os cães são injetados com cocaína líquida, arsênico, viagra, anfetaminas, esteroides, cafeína, entre outras substâncias, para melhorar seu rendimento”

“Existem 196 pistas de corridas para cães no país e mais de um milhão de galgueiros (pessoas envolvidas na caça ou em apostas de corridas de galgos)”, afirma Raúl Maderna, presidente e fundador da Asociación Galguera Platense, que pretende legalizar a caça com cães e as corridas. Somente na província de Buenos Aires, essas práticas estariam movimentando cerca de 500 milhões de pesos em apostas, de acordo com estimativas da associação.

As corridas de cães estão proibidas pela Lei provincial 12.449, “com exceção das que são realizadas em pistas habilitadas”. A única habilitada no país funcionava em Villa Gesell, mas fechou há 18 anos. A caça com cães também

está proibida pelo artigo 273 do código rural, entretanto, as duas atividades são praticadas com regularidade.

“A caça com galgos é cultural. Um costume que vem do campo e que temos que banir”, diz Juan Fancio, diretor provincial de Fiscalização e Uso Agropecuário dos Recursos Naturais. Esse método de captura está proibido e há penalidade de multas a quem infringir a norma. O valor da multa varia de acordo com o caso. “A ideia é que os cães não sejam utilizados como ferramenta, mas sim como mascote”, argumenta.

Organizações protetoras de animais denunciam os maus-tratos aos quais, certamente, esses cães são submetidos. “O galgo começa a caçar com sete meses de idade e tem dois anos de vida útil. Muitos acabam quebrando as patas dianteiras ou se machucam quando enfrentam animais maiores. Quando não servem mais, os galgueiros os abandonam, porque eles não se importam com o animal”, diz uma representante da ONG Gestión Prodea da cidade de Berisso(Proteção e Defesa Animal), e afirma que, além das lebres, os cães são utilizados para caçar veados e avestruzes, entre outras espécies.

“Os galgueiros não matam para comer. As presas são troféus para mostrar as habilidades de seu cão”, disse a representante de Prodea que pediu para não ser identificada. Essas conclusões, de acordo com ela, surgem a partir de investigações nas contas dos galgueiros no Facebook.

De fato, no dia 28 de outubro de 2014, apresentaram uma denúncia na delegacia de Berisso contra uma conta do Facebook onde é mostrado, mediante fotos, como dois galgos são forçados a cruzar. O dono da fêmea dizia na rede social que sua cachorra estava “quebrada”, mas tinha que servir para alguma coisa, por isso a obrigou a reproduzir. O homem, que se auto define galgueiro, moraria em Melchor Romero.

Maderna afirma que não se pode generalizar a partir de casos individuais e “condenar todos os galgueiros” e afirma que existe uma “perseguição” contra eles. “Os que caçam com cães saem sem armas. E o galgo captura duas de cada dez lebres que persegue. Não se pode falar de uma matança”, disse.

As corridas

Somente na província de Buenos Aires e em Santa Fe as corridas estão proibidas por lei. No resto do país não existe regulamentação sobre o tema. A

organização Proyecto Galgo Argentina pretende que a atividade seja proibida em todo território nacional.

Inés, que não quer que publiquem seu sobrenome por “questões de segurança”, argumenta que é contra a exploração de todos os animais. No caso particular das corridas de galgos, ela afirma: “Os cães são injetados com cocaína líquida, arsênico, viagra, anfetaminas, esteroides e cafeína, entre outras substâncias, para melhorar seu rendimento. Para treiná-los, todos os dias eles são amarrados a carros ou motos e os obrigam a correr ou caminhar uns cinco quilômetros. Um único cão é obrigado a correr cinco corridas. Se se machucam, são injetados com algo para que não sintam nada e continuem. Por isso que duram pouco”, disse. O grupo apresentou duas denúncias, mas não houve progresso.

“O transporte também é completamente errado. Os cães são colocados no porta-malas de carros para que não sejam vistos e muitos morrem asfixiados”, disse a representante da Prodea, e acrescenta: “o cachorro é um animal de companhia, não um atleta”.

As organizações protetoras de animais consultadas afirmam que quando os cães não servem mais para caçar ou correr são usados para reprodução ou abandonados nas rodovias.

Para Maderna são acusações injustas: “a maioria dos galgos morrem velhos em suas casas, de todos os cachorros abandonados que vemos nas ruas, a grande minoria é desta raça”.

O presidente da Associação de Galgueiros – que conta com 3.000 membros em todo o país – admite que em alguns casos possa existir abusos contra os animais, mas afirma que isso ocorre devido a falta de regulamentação: “com intervenção do Estado poderiam ser realizadas mais fiscalizações, como o antidoping. O problema é a falta de regulamentação e a proibição, porque a gente recorre à clandestinidade”. Em relação às apostas, ele diz que poderiam canalizar por uma via legal, como ocorre com os cavalos.

Para os ativistas animais, isso é uma crueldade que deve ser proibida em todo território nacional.

Fonte: El Dia

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