Cuidando bem do animal que é seu

Por Leonardo Maciel

A presença dos animais em nossa vida remonta a tempos imemoriais. Primeiro deve ter sido como alimento, depois como força de trabalho e companhia. Estamos unidos aos outros seres da planeta tão intimamente que não há como imaginar nossa civilização sem eles.

Uma parte destes seres mantemos em nossa companhia muito próxima, dentro de nossas casas. São cães, gatos, papagaios, canários, periquitos, hamsters, porquinhos-da-índia, coelhos, ratos, gerbis, jabutis, peixes, cabras, cobras, rãs, gekos, furões, iguanas e mais uma infinidade de silvestres. Nós os amamos, cuidamos, alimentamos com o que gostamos de comer também e tentamos fazer o melhor. Ou o que achamos ser o melhor. São “nossos “, nominados, fotografados e vestidos. Fazemos muitas vezes casinhas bonitinhas para agradá-los ou compor o ambiente. Às vezes gastamos muito dinheiro com eles.

Em meu consultório, recebo muitos “proprietários” que realmente se importam com seus animais e ficam chocados quando descobrem que seu papagaio foi alimentado anos com girassol e por causa disto está com pressão alta, aterosclerose, insuficiência hepática e que por isto tem poucas chances de vida longa. A falta de informação foi o crime. Vejo também furões que são carnívoros estritos e foram alimentados com frutas e guloseimas e agora estão condenados.

Acredito que muitas pessoas são sinceras e achavam que estavam fazendo o melhor, e que realmente amam seus pets. As pessoas acreditam que estão cuidando bem deles, quando na verdade estavam adotando seus próprios parâmetros de bem estar, ou seja , acham que o melhor para elas seria o melhor para os animais.

Em primeiro lugar, acredito que nos equivocamos ao acharmos que somos os “proprietários” deles. Ninguém é dono da vida de ninguém. Como já foi dito, as mulheres não foram feitas para os homens, nem os negros para os brancos, nem os animais para os humanos. A vida é preciosa demais para ficar enclausurada, domesticada, talhada ao nosso prazer, moldada para nos satisfazer e preencher nosso infinito interno. O animal não “serve” a nos ajudar psicologicamente. Quem tem algo a resolver que procure um psicólogo, psiquiatra ou um tarja preta; mais honesto que jogar suas insatisfações em um ser indefeso e que não teve escolha.

Se o outro está sob nossa responsabilidade (irresponsabilidade) é muita pretensão achar que estamos cuidando bem dele, porque só pelo fato de estar preso já não há como cuidar bem. Ninguém é feliz ou completo sem liberdade. Não há nenhum cuidado de nossa parte que possa compensar a falta de liberdade. As gracinhas que ensinamos aos nossos pets são na verdade uma humilhante distorção da nossa esquizofrênica distorção da realidade alheia.

Sei de um papagaio que passou 23 anos numa gaiola cantando ilariê. Prazer equivocado para o que se achava o dono e não para a ave. Foi resgatado, passou mais de um ano em reabilitação e foi libertado. Foi difícil pois o coitado nem sabia o que era um papagaio porque foi abduzido do seu ambiente muito jovem.Uma vez libertado , se acasalou com um fêmea de vida livre e teve filhos. Seus filhos livres cantavam ilariê também. Que triste!

Os animais têm comunicação entre as espécies. É maravilhoso. Quando uma ave emite um som, todos os animais das outras espécies sabem o que significa, ou seja, uns entendem a linguagem dos outros, e sabem se há perigo, predador, chuva, fogo. O que será que os outros animais devem ter “imaginado” vendo um papagaio cantando ilariê no meio da mata? As marcas que deixamos são indeléveis e têm um efeito em cadeia .

Um animal em nossa companhia, é uma responsabilidade imensa. Uma vida preciosa, insubstituível, única, e que tem anseios, necessidades com as quais nem sonhamos porque olhamos apenas para o nosso umbigo. Nossas necessidades não são mais importantes que as necessidades deles. Ninguém é proprietário da sua vida como você não é proprietário da vida alheia. Não interessa se esta vida tem penas, pelos, escamas, se pia, grasna, muge ou se não emite sons audíveis.Informe-se sobre quem está ao seu lado sem escolher e procure fazer o melhor para ele, lembrado que a liberdade é tão importante para ele quanto para você.


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