De sangue e de indignação

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

Pareceu estranho, na postagem anterior [A religião do prato] considerar que leite é sangue? Então explico um pouco mais. A carne é formada por sangue. Quem come carnes come sangues. Todos os componentes que estão no leite materno estavam no sangue que passava do corpo da mãe animal para o cordão umbilical enquanto o feto estava no útero e suas carnes se formavam.

Uma vez saído do útero e conseguindo respirar por conta própria, o mamífero recém-nascido ainda precisa do sangue de sua progenitora, mas não mais de todos os seus elementos, por exemplo, não precisa mais do oxigênio, pois já o obtém pela própria respiração, por isso o sangue muda apenas de cor — deixa de ser vermelho, por não conter mais a hemoglobina– e passa a ser branco.

O canal de fornecimento desse sangue branco também muda. Ele passa a ser fornecido pela mama e tem que ser sugado pela boca do bebê, o primeiro treino para o exercício digestório que acompanhará esse animal mamífero até seu último dia de vida, pois, para o resto de sua vida, os nutrientes que ingere serão transformados em sangue que seguirá formando e oxigenando suas carnes. Quando o sangue para de circular, o animal morre.

Leite da mãe é sangue dela. O sangue de uma fêmea forma seu leite, suas carnes, seus ovos e todos os demais tecidos. Sem sangue as carnes do bebê mamífero não podem formar-se.

O mesmo vale para todos os animais que matamos para comer as carnes, ou que escravizamos para extrair os leites. Tudo o que comemos de animais é feito com seu sangue.

É nisso que gostaria que as pessoas pensassem, antes de ficar malhando quem se alimenta de sangue, no caso, as entidades que se servem das oferendas dos terreiros nos ritos quimbandas. Todo mundo que come carne come sangue. Todo mundo que come laticínios come sangue. Todo mundo que come ovos come sangue. Continua sendo verdade que alimentar-se do sangue alheio não é coisa boa para qualquer das partes envolvidas na ação, os animais, o planeta e o comedor.

Fica difícil convencer os outros a pararem de tomar o sangue alheio, quando a gente não para de fazer isso a cada refeição. Os animais dependem de nós para que seja abolida a tradição de matança deles para nos saciar com matérias feitas de seus sangues. Infelizmente, a luta pelos direitos dos animais só tem força e coerência se quem luta já entendeu essas coisas e aboliu o consumo delas.

Não se pode lutar honestamente por direitos animais, quando se é testemunha viva e cúmplice da matança deles. Lembro aqui o trocadilho usado por um ativista do Veddas, nas intervenções da Paulista e da República. Questionado se os veganos não seriam iguais aos testemunhas de jeová, respondeu: sim, somos o testemunho “geovegano” (defendemos a vida dos animais, do planeta e dos humanos), com a diferença de que não invadimos a privacidade das pessoas para que nos ouçam, falamos em nosso espaço, aqui na rua, e as pessoas param e vêm ouvir e conversar sobre a defesa dos direitos dos animais. Esse é o testemunho dos geoveganos.

Veganos não se alimentam com alimentos hematogênicos (produzidos pelo sangue). Essa é a diferença! O resto é inconsciência cultural e moral, ou kakothymía (deficiência moral).

E porque escrevemos as coisas devidamente, sem rodeios, floreios, volteios ou roseios, há queixas de onívoros e de ovo-galactômanos de que ao escrever com todas as letras sobre essas questões silenciadas pela grande mídia, estaríamos sendo hostis aos onívoros. Não é verdade. Não temos repúdio por qualquer pessoa onívora, repudiamos as ideias que sustentam a matança.

Em primeiro lugar, repudiamos os argumentos furados, que algumas pessoas onívoras, agarradas aos nacos de carnes e fatias de queijos em seus pratos, cegamente, ainda insistem em apresentar, de que “precisamos de proteínas (entendendo a palavra proteína como sinônimo de carnes, leites e ovos)”, de que “somos feitos para comer animais”, de que “temos caninos (sem olhar-se ao espelho para ver qual dos dentes ali poderia rasgar o couro de um boi para lhe arrancar a carne)”, de que “somos o ápice da criação e por isso temos direito de matar os animais”, e, finalmente, de que “a alface também sente dor!”. É de doer mesmo, não na alface.

Refuto, sim, os pseudo-argumentos carnistas, pois eles contrariam a defesa ética dos direitos animais, além de esconderem para debaixo do tapete a verdade dietética já reconhecida pela OMS, pela ONU, pelas Associações Médicas Americanas mais importantes, como a do Coração, a do Diabetes, a do Câncer e o Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável PCRM, que creditam à dieta vegana não apenas maior saúde mas também a cura de praticamente todos os males que abarrotam os hospitais da medicina onívora. Então, não há mais razão alguma para se continuar a comer matérias hematogênicas (produzidas à custa de sangue), com o pretexto de que nos garante a saúde ou seja lá o que for.

Em segundo lugar, repudiamos quem grita contra os outros, que derramam sangue animal, e está, no momento mesmo em que esbraveja contra os costumes alheios, com seu estômago cheio de restos de comida produzida pelo sangue do animal que foi sangrado no abatedouro. Gandhi disse uma frase muito simples: seja você primeiro a mudança que quer ver nos outros. Ou algo assim, com outras palavras.

O que repudio é a incoerência, a inconsistência moral, o ar de domínio de quem segue a dieta padrão, engolindo tudo o que o agronegócio pesticida, biocida e zoocida enfia goela abaixo, sem questionar o mal que está fazendo aos 70 bilhões de animais chacinados por ano, fora os das águas que são incontáveis, ao planeta e a si mesmo.

Não temos mais tempo para “tolerar” silenciosamente esse erro, porque a vida está ameaçada por essa dieta sangrenta insana. Toda a água do planeta está sendo canalizada para irrigar comida para 70 bilhões de animais fabricados para o abate, e para as indústrias que processam os derivados ou matérias forjadas pelo sangue desses animais: carnes, leites e ovos.

E quando faltar toda a água teremos matado todas as milhões de espécies, de sede e fome. Tamanha é a responsabilidade humana pela vida dos animais neste planeta que devastamos por sermos viciados em sangue, sem sermos morcegos hematófagos ou vampiros. E somos seres moralmente superiores?

Minha expressão é de indignação por tanta ideia errada. Não tenho hostilidade a não ser pelos argumentos furados que jogam na nossa cara, argumentos que caducaram há mais de um século, mas as pessoas continuam a reproduzi-los, como se suas ideias obsoletas fossem sustentáculos morais capazes de sustentar sua dieta animalizada indefinidamente. Não são. Não servem para mais nada. É hora de descartá-las. De desassinar o contrato sanguinolento. Hora de poupar a vida dos animais. Não apenas dos degolados nos terreiros da quimbanda. E essa hora também é chegada para todos os sacerdotes dela, comedores contumazes de sangue em seus formatos derivados. A falta de perdão é geral. Sem discriminação de raça, etnia, religião, sexo, ideologia ou classe. Porque a responsabilidade pela matança também é geral.


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