Defender os animais não é desprezo pelos humanos

Por Sônia T. Felipe

Eu atuava no Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis, entre 1999 e 2001 e também já atuava academicamente em defesa dos direitos animais. Não separo uma atividade da outra.

Então, nos debates, sempre tinha um sentadão a perguntar por que eu não dirigia minha força, inteligência e poder de persuasão para ajudar as criancinhas, os velhinhos etc. O basbaque não sabia que eu fazia tais coisas.

Eu retrucava: para qual ONG de proteção das crianças e velhinhos você trabalha voluntariamente? Resposta tão vivaz quanto um sepulcro… silêncio no auditório.

Minha pergunta calava, porque toda gente que estava ali pensando o mesmo se via desnudada frente ao espelho.

Não há defesa dos direitos animais que não seja defesa dos direitos humanos… dos animais, pois eles são tão sencientes e capazes de sofrimento quanto nós o somos.

E não há defesa dos direitos humanos que não seja defesa dos direitos animais dos humanos: à vida, à liberdade, ao bem próprio de sua espécie, à expressão espiritual de sua espécie, à individualidade, à singularidade e a não ser violentado em sua vulnerabilidade.

Essa de ficar jogando na cara da gente as lutas que a gente não faz e não fazer luta alguma por ninguém é velha e batida! Ouço isso há mais de vinte anos, desde que me dedico à causa animal.

Por milênios a civilização ocidental, antropocêntrica e especista, ficou patinando, achando que primeiro tínhamos que aprender a tratar bem de humanos, para depois, se sobrassem forças e afetos, passar a tratar bem os animais.

Somos a primeira geração, a dos veganos, que se dá conta de que o inverso é que traz resultados: no dia em que nenhum animal de outra espécie for humilhado, explorado, torturado e morto para atender propósitos humanos, nenhum humano se sentirá autorizado a fazer isso a outro humano também. Pois, afinal de contas, todos somos animais capazes de sentir dor, de sofrer e de ter a vida atribulada pela demanda ególatra dos outros.

Ser ético é ter a capacidade de superar os dogmas morais que nos impuseram, discriminadores da vida alheia, e aplicar em benefício dos animais o mesmo princípio de respeito que desejamos ver aplicado em nosso favor. Simples assim. Mas dá algum trabalho!


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