Defensores dos direitos dos animais denunciam apedrejamento de crocodilo na Tunísia

Defensores dos direitos dos animais denunciam apedrejamento de crocodilo na Tunísia
Manifestantes condenam a morte de um crocodilo do lado de fora do Zoológico Belvedere em Túnis, na Tunísia. Postado no dia 5 de março de 2017 (Foto: Twiter / Adelazouni)

Uma multidão com cerca de 100 manifestantes reuniram-se do lado de fora do Zoológico Belvedere, em Túnis, no dia 5 de março. Uma mulher usando chapéu de beisebol com pequenas orelhas pretas de gato que estava na frente do grupo, gritava repetidamente, “Parem de maltratar os animais na Tunísia!” Uma imagem do rosto de um panda estampava seu moletom. Atrás dela, um homem tinha ao redor do corpo a uma boia de piscina em forma de crocodilo, um brinquedo inflável como homenagem a um crocodilo que foi apedrejado até a morte no zoológico no dia de 28 de fevereiro.

“Um grupo de visitantes do zoológico atirou pedras na cabeça de um crocodilo, causando uma hemorragia interna que o matou,” anunciou o município tunisiano em sua página do Facebook naquele dia. Uma foto do crocodilo com a cabeça agredida e ensanguentada acompanhava o texto.

O Zoológico Belvedere, que abriga mais de 150 espécies de animais, tinha sido acusado de má gestão e maus-tratos no passado. No dia 1º de março, crianças foram filmadas montando nas costas de um rinoceronte. Embora tenham sido instalados cestos de lixo por todo o parque, o jardim zoológico está repleto de resíduos descartados pelo caminho, nas jaulas dos animais e nas fontes de água. Em janeiro, um grupo de cidadãos incomodados enviou uma petição ao governo tunisiano sobre os leões do zoológico, a qual acusava “estarem em estado lamentável, com fome, esqueléticos e doentes.” A morte sangrenta do crocodilo, no entanto, criou um clamor público febril.

“Ficamos chocados quando vimos as fotos,” disse Noor, um estudante de 18 anos que participava do protesto apoiado por organizações não-governamentais locais, inclusive a Association for the Protection of Animals in Tunisia (Associação de Proteção aos Animais na Tunísia (PAT), a Civil Association of Tunisia (Associação Civil da Tunisia) e Winou Etrottoir? (Onde é o Passeio?).

Seguiu-se uma enxurrada de atenção da mídia estrangeira, forçando o governo a responder. No dia 3 de março, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que o zoológico seria fechado por um período prolongado, começando em 6 de março, para “limpeza de emergência e trabalhos de manutenção e para estabelecer medidas a fim de gerenciar a entrada e a saída de visitantes.” Estas medidas incluem a disponibilização de novos guardas e da polícia ambiental. Por ora, no entanto, a nova força policial acrescentará três oficiais. É necessário muito mais, argumentou Kamel Janoobi, um geólogo e ativista que veio expressar sua frustração durante o protesto do dia 5 de março.

“Precisamos de 10 a 12 veterinários especializados”, disse Janoobi, acrescentando que seria necessário um guarda para vigiar cada grupo de animais e que somente fornecedores autorizados deveriam vender mercadorias dentro do parque. Janoobi também acredita que os ingressos do parque, em torno de US $ 0,40 para adultos, deveriam ser aumentados para desencorajar as pessoas de usarem o jardim zoológico como um lugar barato para sair, em vez de como uma experiência educacional.

O Diretor do zoológico, Omar Ennaifer, disse à mídia tunisiana que as condições no parque eram devido ao “comportamento deplorável” de visitantes. Dito isto, o zoológico tem a responsabilidade de controlar as pessoas que entram e repreender aqueles que quebram as regras. A administração do parque não parece, contudo, estar fazendo isso. Na página do Facebook do Zoológico Belvedere, o parque é rotulado incorretamente como um mini zoológico, e apesar dos manifestantes do lado de fora dos portões do parque, dentro é comércio, como sempre.

Guardas disseram ao site Al-Monitor durante uma visita 5 de março que eles não tinham ideia se o parque seria fechado para manutenção, e no zoológico nada estava sendo feito para controlar os visitantes. As pessoas jogavam pipoca e pedaços de pão para os macacos e os flamingos. Os animais sabem que os visitantes têm comida, assim um macaco de traseiro vermelho ficou pendurado por um braço fino e peludo, por duas das barras de ferro da jaula para alcançar grãos de milho de pipoca. Um pai ajudou seu filho pular uma barreira para obter um olhar mais atento ao pássaro nas gaiolas. Um grupo de seis mulheres fez piquenique no chão próximo à jaula de um animal, um monte de comida caseira espalhada em cima de duas toalhas de mesa. Não há nenhuma área de alimentação designada para os visitantes. Apenas um guarda foi visto durante a visita de uma hora, e ele estava sentado num banco, ignorando os visitantes.

Alguns críticos argumentam que, tendo em conta a situação política e econômica do país, a Tunísia não tem recursos para manter o bem-estar dos animais. O presidente do PAT, Nowel Lakech, que participou do protesto do dia 5 de março ostentando uma camisa com uma foto do olho de um crocodilo, sendo que, no lugar da pupila, tinha um mapa da Tunísia, discorda com veemência. “Somos responsáveis por animais como se eles fossem nossos filhos”, disse ao Al-Monitor.

Os direitos dos animais são também parte da maior questão do ambiente. A Tunísia sofreu críticas devido à poluição industrial na cidade de Gabes, onde fábricas de fosfato poluíram a costa com fosfogesso tóxico e radioativo. Lixo e resíduos tornaram-se cada vez mais problemáticos, principalmente depois de 2011, com lixo espalhado por localidades em todo o país.

“O município não limpa e as pessoas aceitam viver assim,” disse Lakech. “Bem, rejeitamos isso! Nós queremos que nossos filhos tenham um país limpo.”

Apesar dos desafios, os manifestantes estavam otimistas de que a mudança está à vista. “Hoje é a prova!” proclamou Lakech.

Por Sarah Souli / Tradução de Elisângela Gomes da Silva

Fonte: Al Monitor

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.