Dentes quebrados e mentes destruídas – Avaliando o bem-estar das orcas em cativeiro

Dentes quebrados e mentes destruídas – Avaliando o bem-estar das orcas em cativeiro

Por Samantha Lipman / Tradução de Lilian Abi Rached

A vida em cativeiro  compromete o bem-estar das orcas. Esse fato é agora amplamente aceito, até mesmo pela maior franquia mundial de exibição de orcas, o SeaWorld Parks & Entertainment, Inc. nos EUA, que se comprometeu a por fim ao seu programa de reprodução de orcas e a eliminar gradualmente a exibição de orcas de cativeiro. Ainda assim, não se deve esquecer que as orcas hoje em cativeiro, no SeaWorld e em qualquer outro lugar, ainda estão sofrendo por causa do confinamento.

Apenas em abril, orca chamada Morgan foi filmada batendo sua cabeça freneticamente contra as barras de metal que a prendiam dentro do minúsculo tanque médico no Loro Parque, em Tenerife. Então, no último mês, testemunhas a viram  atirar-se para fora de seu tanque de concreto por um período de tempo perturbadoramente longo, assim como seu companheiro de tanque, Tekoa, a orca com mais arranhões em seu corpo mantida em cativeiro, já havia feito antes. Por quê? Essa pode ser a única maneira que eles têm para escapar de agressões severas por parte de outras orcas do tanque.

Agora, um relatório arrasador foi publicado pela Free Morgan Foundation (Fundação Liberte Morgan), com provas documentais de quão fraturados estão os dentes – e as mentes – de Morgan e das outras orcas no parque de diversões espanhol. Provas fotográficas no relatório mostram que esse dano aos dentes é uma automutilação causada por comportamentos repetitivos (estereotípicos) anormais: orcas mastigando concreto ou grades de metal, batendo com força os maxilares e golpeando suas cabeças contra concreto e metal. As estereotipias surgem quando as necessidades biológicas de um animal, as quais evoluíram ao longo de centenas e milhares de anos, não são atendidas. Ver tantas estereotipias nessas orcas de cativeiro mostra que elas estão entediadas, frustradas, e forçadas a dividir espaços pequenos com indivíduos com os quais elas não estão se dando bem. Elas estão sofrendo pra lidar com a vida atrás das grades.

O SeaWorld vai banir a reprodução em cativeiro – por que não os outros?

Por que motivo, então, o Loro Parque, assim como todos os outros parques de diversões mundo afora que hoje mantêm ou pretendem manter orcas em cativeiro, incluindo o Marineland Antibes, na França, não estão fazendo como o SeaWorld?

Apesar do fato de  quatro das orcas do Loro Parque terem nascido em parques do SeaWorld, e de todas as cinco (incluindo a mais jovem, nascida no parque espanhol) estão somente emprestadas ao Loro Parque e estão incluídas na extinção da reprodução em cativeiro do SeaWorld, o Loro Parque está lutando contra a decisão. Pior ainda, continua permitindo que os machos ativos do SeaWorld persigam as fêmeas em ovulação pelos pequenos tanques, especialmente Morgan, a sexta orca confinada no Loro Parque, que foi capturada da natureza em 2010 (sim, ela foi resgatada, mas deveria ter sido retornada ao mar ou, ao menos, uma tentativa deveria ter sido feita). O SeaWorld reivindicou Morgan como sua propriedade e por isso ela está incluída no fim da reprodução em cativeiro, embora não pareça haver nenhuma base legal para a reivindicação do SeaWorld (o que alguns chamariam de roubo!).

Preocupações com o bem-estar animal

O Loro Parque afirmou que “gostaria de destacar a importância de se basear em provas científicas para se fazer afirmações sobre o bem-estar animal”, argumentando que “para se chegar a qualquer conclusão correta [sobre o bem-estar das orcas em cativeiro], é fundamental que veterinários profissionais e especialistas renomados trabalhem intensivamente por um longo período de tempo, conduzindo observações” [ênfase adicionada]. Esses comentários foram feitos em resposta ao vídeo de Morgan ficando fora do tanque sob o intenso sol da Espanha, o que ela foi filmada fazendo duas vezes, uma delas com o que parecia ser sangue escorrendo de seu queixo.

Suzanne Rogers é uma consultora especialista em bem-estar animal que aconselha veterinários, práticas veterinárias, organizações sem fins lucrativos e alianças sobre bem-estar animal. Em uma entrevista, ela disse ao One Green Planet, “É um equívoco comum pensar que veterinários são treinados em bem-estar animal. Ser veterinário não é a mesma coisa que ser especialista em bem-estar animal. É por isso que sinais de escasso bem-estar são frequentemente despercebidos quando os estabelecimentos contam apenas com veterinários sem treinamento formal na ciência do bem-estar animal”.

Outra questão perigosa que Rogers enfatizou é o fato de esses veterinários com frequência não terem experiência com cetáceos em liberdade (baleias, golfinhos e botos), ou especificamente com orcas. “Mesmo em cativeiro, os cetáceos são animais selvagens; eles não são domesticados,” explica Rogers. “Portanto, para avaliar seu bem-estar, é necessário alguém que seja especialista no comportamento de cada espécie individual, tanto no cativeiro quanto em liberdade na natureza. Se um veterinário está avaliando uma orca em cativeiro, ele precisa estar familiarizado com o comportamento selvagem das orcas, como referencial do que é o comportamento normal. Muitos veterinários não têm essa experiência, então não são capazes de dizer a diferença, nem de discernir quando um comportamento anormal aparece.”

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Como parte de seu trabalho para melhor educar veterinários e outros especialistas, (talvez como os “renomados” que o Loro Parque cita vagamente em sua declaração), Rogers está organizando a primeira conferência internacional do mundo sobre Mudança de Comportamento Humano para o Bem-estar Animal, em parceria com a Royal School of Veterinary Sciences, da Universidade de Edinburgo, e com seu Centro Internacional para Educação sobre o Bem-estar Animal. Uma das palestras listadas no programa da conferência, que será ministrada por Nancy Clarke, da The Animal Welfare Science, Ethics & Law Veterinary Association, será sobre “criar uma cultura dentro da educação veterinária para alcançar um comportamento humanitário e o bem-estar animal adequado.”

Além de afirmar que busca orientação de veterinários sobre o bem-estar de suas orcas, o Loro Parque disse em seu blog que as “opiniões de organizações que evidentemente só buscam seus ideais anti-zoo” não podem ser levadas em consideração. O parque não parece ter considerado que talvez algumas dessas organizações, como a Free Morgan Foundation, são compostas por especialistas tanto em orcas em liberdade como em cativeiro. Tais especialistas são capazes de reconhecer o que é um comportamento normal, o que é nocivo para a saúde de uma orca e, principalmente, por quê.

Avaliando as necessidades de orcas em cativeiro

A Dra. Ingrid Visser, fundadora da Orca Research Trust e co-fundadora da Free Morgan Foundation, passou décadas estudando orcas em liberdade em diversas localidades em todo o mundo. Ela também passou os últimos anos observando orcas em cativeiro e documentando seu comportamento. Junto com Rosina Lisker, uma assistente jurídica sediada na Alemanha, Visser também está na direção da Free Morgan Foundation. Lisker observou orcas em liberdade na Argentina, Nova Zelândia, Canadá e Estados Unidos, e observou orcas em cativeiro na Espanha e na França. Ambas escreveram o relatório de 2016 que utiliza indicadores de bem-estar animal globalmente aceitos, como a exibição de comportamentos estereotípicos e danos físicos, para comprovar o quanto é trágica a vida das orcas do Loro Parque.

“A Five Freedoms (Cinco Liberdades) é uma abordagem de bem-estar animal desenvolvida para avaliar as necessidades básicas absolutas dos animais com o propósito de melhorar o bem-estar animal,”, descreveu Visser, referindo-se a uma política que o Loro Parque afirma seguir, em um quadro de informações no parque. “Essa versão, os ‘cinco princípios’,” Visser explicou, “está distante da mais atual abordagem em bem-estar animal. O degrau seguinte é a Five Domains e é um modelo mais abrangente para avaliar o bem-estar.” A World Association of Zoos and Aquariums na verdade recomenda que “zoológicos e aquários [apliquem] a ‘Five Domains’.”

No entanto, o relatório apresentou fortes evidências de que o Loro Parque não parece estar cumprindo nem mesmo o mínimo da Five Freedoms para as orcas do SeaWorld. De acordo com o relatório de Visser e Lisker, o Loro Parque descumpriu pelo menos quatro das cinco liberdades de bem-estar que ele afirma atender: A liberdade de expressar comportamento normal, a liberdade de desconforto físico (incluindo o térmico), a liberdade do medo e da agitação, assim como a liberdade da dor. A liberdade de ferimentos (ou de doenças) nem sequer aparece na lista modificada pelo parque e, com base no relatório, eles não poderiam cumpri-la mesmo que ela aparecesse.

A última liberdade é a da fome e sede, (sendo que as orcas obtém água da comida que ingerem). Embora não possa ser determinado no momento se uma orca está com fome ou sede, Morgan arremeter-se para fora da água no momento da alimentação, como detalhado no relatório, assim como o comportamento suplicante com a boca aberta apresentado por algumas orcas, pode sugerir que estejam famintas.

“As orcas não têm espaço para exibir posturas e comportamentos corporais que são normais em indivíduos em liberdade, como ficar em posição vertical, ou nadar em altas velocidades,” observou Visser, citando especificamente o tanque médico. Ela esclareceu que ele deveria ser usado apenas como um tanque temporário para procedimentos médicos, mas que ela viu as orcas amontoadas dentro dele, às vezes juntas, por períodos de tempo imoralmente longos. “Os agrupamentos sociais inapropriados, mesmo nos outros tanques um pouco maiores, também podem afetar os comportamentos naturais e levar à agressão excessiva. Além disso, não há sombra para proteger sua pele delicada. Tudo isso pode levar (e leva) a dor, medo e angústia; desde estar trancada nos tanques, ser atacada por outra orca, e pelas feridas que surgem do encarceramento, como os danos aos dentes e a automutilação.”

O impacto dos danos aos dentes

O desconforto físico e a dor causados pelos problemas dentários é de preocupação particular; na verdade, os danos dentários apresentados pelas orcas por automutilação estereotípica e o tratamento resultante é o tópico central do relatório. Lisker leva em conta a comparação entre os problemas orais de orcas e humanos, “Imagine como é como humano ter uma dor de dente. Se forte o suficiente, pode dar a sensação de que toda a sua cabeça está explodindo e pode afetar tanto seu estado mental quanto emocional. Só podemos concluir que as orcas sentem dor parecida quando seus dentes são danificados. Elas têm que suportar todas essas dores, assim como as perfurações com broca e os tratamentos de canal, aparentemente sem medicação”.

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As duas autoras ficaram seriamente preocupadas ao descobrir que mais de 40 por cento de todos os dentes das orcas do Loro Parque estão danificados, com os de Morgan sendo os que estão piores – os dentes do lado direito de sua boca mostram 70 por cento de dano. “Apesar das garantias contínuas do Loro Parque de que ‘ tudo está bem’ para a orca do SeaWorld e para a orca selvagem Morgan”, o relatório afirma, “os dados aqui apresentados são indicativos, mais uma vez, de que há questões implícitas e fundamentais comprometendo o bem-estar dessas orcas. Os mesmos indicadores de bem-estar identificados pela indústria do cativeiro, como marcadores de bem-estar comprometido, são predominantes e excessivos no Loro Parque…”

Assim como trazer provas de que o Loro Parque não está atendendo pelo menos quatro das Five Freedoms, o relatório também apresenta evidências de que o parque violou ao menos 23 medidas específicas de bem-estar dos golfinhos-nariz-de-garrafa. Essas medidas foram tiradas da única avaliação formal de bem-estar que existe para qualquer espécie de cetáceo em cativeiro. De acordo com o relatório, embora orcas não sejam golfinhos-nariz-de-garrafa, eles são da mesma família e, portanto, as medidas podem ser aplicadas para ambas as espécies.

Uma “análise de saúde e bem-estar” do Dr. Andrew Greenwood, um veterinário contratado pelo Loro Parque, também discutiu os dentes das orcas. Suas descobertas de Setembro de 2015, entretanto, têm discrepâncias profundas quando comparadas às evidências fotográficas incluídas no relatório da Free Morgan Foundation. Greenwood parece não ter avaliado os danos aos dentes no contexto do comportamento das orcas ou seus arredores. Como resultado, e diferente do relatório de Visser e Lisker, não há explicação dele sobre por que o dano dentário pode se apresentar e nem há nenhuma análise sobre suas implicações para o bem-estar das orcas.

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A indústria do cativeiro tem alegado que danos dentários em orcas é perfeitamente normal, já que dentes gastos tem sido observados em algumas populações em liberdade. Essas ocorrências foram atribuídas ao modo como as orcas se alimentam na natureza e o tipo de presa das quais se alimentam, tal como sugar os peixes para dentro da boca, com as escamas atuando como lixa contra os dentes. Entretanto, as orcas no Loro Parque descendem de populações em que dentes gastos são incomuns e, como descrito no relatório da Free Morgan Foundation, “O dano extremo observado nos dentes de todas as orcas em cativeiro não pode ser causado pela alimentação… porque os treinadores as alimentam jogando punhados de peixe diretamente no fundo de suas bocas.” Em vez disso, dentes quebrados em orcas de cativeiro são consequência do comportamento estereotípico de mastigação que resulta de necessidades frustradas e bem-estar escasso.

Exigindo ação pelas orcas

Visser e Lisker submeteram seu relatório ao governo americano, já que o SeaWorld é responsável pelas orcas do Loro Parque, o que torna o governo americano responsável por proteger o bem-estar das orcas. A Free Morgan Foundation também enviou uma carta aberta a Joel Manby, CEO do SeaWorld, para mais uma vez solicitar uma reunião para dialogar com o SeaWorld sobre suas orcas. A mesma carta foi também endereçada a Wayne Pacelle, CEO da Humane Society of the United States (HSUS) (Sociedade Humanitária dos Estados Unidos), cuja organização fez parceria com o SeaWorld, por decisão do parque, para por fim ao cativeiro das orcas. Espera-se que membros da HSUS falem pelas orcas do Loro Parque também.

Obviamente, todos os cidadãos podem se manifestar e Lisker quer continuar lembrando as pessoas: “Por favor, não compre ingressos para lugares que mantêm baleias e golfinhos em cativeiro. Embora nosso relatório seja focado nas orcas, você vai encontrar problemas parecidos em todos os outros cetáceos cativos, em todas as localidades do mundo”.

Existe uma alternativa para as orcas atualmente em cativeiro, também. Foi altamente recomendado no relatório que o Loro Parque colocasse suas orcas “num santuário marinho, onde podem continuar recebendo os cuidados médicos que precisem…. experimentar o oceano natural, grandes espaços, estresse reduzido e, naturalmente, seu bem-estar será melhorado.” A Free Morgan Foundation ofereceu inclusive seu apoio ao SeaWorld e ao Loro Parque caso decidam que esse é o melhor caminho a tomar. E tanto Visser como Lisker acreditam que é. “Fazer diferente disso,” escreveram, “seria apenas ver que são desonestas e hipócritas as alegações do SeaWorld e do Loro Parque de que estão fazendo o melhor por esses animais e de que são companhias que priorizam o bem-estar animal.”

Visite o site da The Free Morgan Foundation para saber mais sobre Morgan, as outras orcas no Loro Parque e como você pode apoiar os esforços da Free Morgan Foundation para melhorar a vida dessas orcas.

Fonte: One Green Planet

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