Denúncias contra zoo de Salvador revelam descuidos e maus-tratos

Denúncias contra zoo de Salvador revelam descuidos e maus-tratos

Por Chayenne Guerreiro

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Quem visita o zoológico de Salvador pela primeira vez, se encanta com o visual do ambiente. Aves voam sem parar, macacos brincam nos troncos das árvores,  ursos dormem preguiçosos nas redes. Um mundo praticamente encantado é mostrado diariamente à população, mas a realidade vai muito além do que os olhos conseguem ver.

Tribuna da Bahia teve acesso exclusivo a fontes que contam o que acontece por lá, quando os portões se fecham: um curso de técnicas de manejo de repteis exóticos e silvestres, ministrado dentro do Zoológico, pelo próprio coordenador do local. A taxa de inscrição é de R$ 400 reais. O grande problema é que o curso é realizado por uma empresa particular, do próprio coordenador, e não tem ligação nenhuma com o zoo.

 “Quando você usa material do estado, você tem que ter autorização. É uso da máquina pública para beneficio próprio. Foram cobrados R$ 400 reais de inscrição nesse curso, e esse dinheiro não foi repassado em forma de beneficio ao zoológico. Os estudantes usaram os animais para estudo, sem nenhuma autorização do Inema ou do Ibama, isso causou um estresse tremendo aos animais,” contou uma das fontes.

O artigo 312 do Código Penal chama de peculato e considera crime a “apropriação por parte do funcionário público, de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou privado, de que tenha a posse em razão do cargo, ou desviá-lo em proveito próprio ou alheio. Além de aplicar ao objeto material destino diverso que lhe foi determinado em benefício próprio ou de outras pessoas”.

No Brasil, de acordo com o artigo 312 do Código Penal Brasileiro, na forma dolosa, o peculato resulta em reclusão de dois a doze anos e multa. Em sua forma culposa, detenção, de três meses a um ano.

Outra fonte informa que é comum que os animais fujam dos recintos, pela falta de manutenção das grades de proteção. “A onça preta (Panthera onça)se soltou no carnaval do ano passado. Ela saiu por um buraco que tinha na jaula e a sorte foi que ela não foi longe, ficou em cima da casa. A lontra (Lontra longicaudis) sumiu há 4 ou 5 meses. Até hoje ninguém sabe por que fugiu, por que nunca foi encontrada, e se o Ibama foi informado. Os Micos Leão da Cara Dourada (Leontopithecuschrysomela), fugiram do recinto. Eles eram cinco, agora só são quatro. Um fugiu por falta de manutenção e a  fuga ocorreu  por um buraco na grade. A irara(Eyra Barbara) fugiu duas vezes já, a última perto do Dia das Crianças. Até o governador Wagner viu a irara, que foi encontrada na frente da casa dele. Ela é um animal pequeno, mas extremamente violento e ataca. Todos esses animais são  completamente dependentes do zoológico, recebem alimentos cortados, não estão adaptados para a caça e, se fugirem, vão morrer“, afirmou uma das pessoas que vivencia o drama do local.

Cemitério improvisado

Em junho o Zoo de Salvador anunciou o nascimento de dois filhotes de Gavião Real, conhecidos como Harpia (Harpia harpyja). O animal é a maior ave de rapina do Brasil. A última informação divulgada pelo órgão é que, para aumentar as chances de sobrevivência, o bicho estava sendo criado na mão, era alimentado cinco vezes ao dia e monitorado o tempo todo. Os dois filhotes estavam se desenvolvendo normalmente. O que muita gente não sabe é que os filhotes morreram.

“Quando eles nasceram toda a mídia foi chamada para comemorar o feito. O que ninguém sabe é que os dois morreram. A sociedade sabe que eles nasceram, mas não sabe que morreram. Eles só contaram que houve o falecimento depois de muita insistência, e falaram que a causa foi atrofia muscular, mas ninguém nunca teve acesso ao relatório que comprova a causa da morte,” disse um segundo denunciante.

Dias antes da denúncia mais uma morte a anta que habita o local abortou. “A Anta (Papirus terrestre) estava prenha, não sabemos por que ela teve um filhote prematuro, dentro da água, e ele veio morrer afogado. Ela estava grávida e continuou exposta no recinto, sem nenhum tipo de contenção, como se nada estivesse acontecendo,” contou a fonte.

E se morrem animais por lá, não falta local para enterrar. Segundo a testemunha que procurou nossa equipe, os animais são enterrados em um tipo de cemitério, sem nenhum cuidado. “Há muito tempo todo, os cemitérios existentes na cidade, sejam eles de animais ou de humanos, têm que seguir algumas normas, por conta do necrochorume, uma substância que sai dos corpos em decomposição e prejudica os lençóis freáticos, trazendo inúmeras doenças para as pessoas. Mas esse que existe no zoo é totalmente clandestino, não existe nenhum tipo de regulamentação ou documento que aprove o enterro de animais na área,” revelou.

Nas resoluções 335/03 e 368/06 que fazem parte das normas ambientais regulamentadas pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) a legislação dispõe sobre o planejamento e licenciamento ambiental de cemitérios. Entre as determinações está a distância mínima de residências, proibição destas construções em área de preservação, localização de sepulturas, projetos de proteção dos lençóis freáticos e sistema de drenagem para necrochorume.

O necrochorume é um fluido formado 60% água, 30% sais minerais e 10% substâncias degradáveis propícias a bactérias e vírus. Cada quilo de massa corpórea do cadáver gera 0,6 litro da substância. No contato com o humano causa doenças como tétano, febre tifoide, gangrena gasosa, disenteria, hepatite, entre outras.

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Quarentena

Chamada de “Quarentena”, o zoológico tem uma área destinada a animais doentes que devem permanecer isolados de outros. Mas se o objetivo do local é manter afastados animais com doenças contagiosas, a regra não foi seguida. De acordo com outra fonte denunciante no local, ficam animais não só doentes, mas também outros que estariam aptos à soltura, ou que estão sem recinto.

“Lá temos uma situação complicada. A quarentena é a caixa preta do zoo e ninguém pode entrar. O motivo é que lá tem animais sadios em uma zona onde doentes estão também. Os bichos estão em gaiolas, enclausurados. Para se ter uma ideia tem mico leão dourado em gaiola de passarinho e jacaré do papo amarelo em um tanque de mil litros, com apenas 30 cm de água cobrindo seu corpo, que não toma sol, fica eternamente na mesma posição, isso já tem meses,” relata o denunciante.

De acordo com o biólogo, Ademilton Costa, animais em cativeiro devem conviver com ambientes mais próximos possíveis da  natureza. “A criação de animais em cativeiro deve estar na medida do possível, o mais próximo do seu ambiente natural. Além disso, sempre que os animais são colocados em jaulas ou ambientes pequenos, isso deve ser temporário, por que pode prejudicá-los,” explica.

No caso dos dois animais mico leão dourado, e o jacaré do papo amarelo, Costa explica quais os prejuízos para bichos vivendo nessas condições: “No caso de um mico leão dourado, que esteja vivendo em uma gaiola de passarinho, ele pode ter atrofia dos músculos e  perder habilidades que vão ser importantes pra ele no caso de uma futura reintrodução ao seu ambiente natural. Então, se você coloca ele em um ambiente restrito, ele pode com o tempo perder habilidades de caça de pequenos insetos, de frutas, pode não conseguir mais se socializar com outros animais, que é uma coisa muito importante pros primatas. No caso de um jacaré do papo amarelo,que esteja vivendo em um local como o citado, é importante primeiro que ele esteja tendo acesso a luz solar, por que ele é um animal ectotérmico, já que a temperatura dele não é controlada internamente. Se ele está em cativeiro de sombra muito longa, sem capacidade de caçar, isso pode trazer prejuízos eternos ao animal”, alerta o biólogo.

Tribuna  contactou o Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, órgão responsável pela administração do zoológico, que informou a respeito do curso . Comunicou que diversas empresas entram em contato diariamente para realização de cursos com o apoio do Zoológico, e, na ocasião, esta especificamente solicitou, via ofício, o espaço para dois dias de atividades. Perante a denúncia foi aberto processo administrativo para averiguação, que continua em andamento.Sobre os animais que fugiram o órgão informou que eles foram recuperados.

 “Para diminuir esses riscos já estão sendo tomadas algumas providências, como reformas em alguns recintos e revisão de procedimentos, fazendo com que esses fatos não voltem a acontecer. Quanto ao IBAMA, todo o plantel do Zoológico é anualmente recadastrado, além de manter o Livro de Registro de Plantel aberto pelo IBAMA, escrito a punho e onde são registrados todos os nascimentos,  falecimentos e permutas com outros zoológicos,” disse.

A morte das harpias foi justificada como má formação na estrutura do externo (osso do peito) que dificultou a respiração dos animais, um com dois meses e outro com três meses de vida, ocasionando assim a morte. Sobre o cemitério, o Inema informou que o último animal enterrado foi no ano de 2008. Que hoje, os animais que morrem são processados em taxidermia e em esqueletos para o Museu de História Natural do Zoo, que será reinaugurado.

Por fim, o órgão explicou que na Quarentena não existe mico-leão-dourado e o jacaré está em tratamento imerso em água com antibiótico. O Inema ressaltou ainda  existir projeto para a reforma e melhoria. Entretanto, não apresentou nenhum documento que comprove as informações dadas.

Fonte: Tribuna da Bahia

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