Desde o início do século XX se pede que fechem o Zoológico de Buenos Aires, diz escritora

Desde o início do século XX se pede que fechem o Zoológico de Buenos Aires, diz escritora

Disse Silvia Urich, autora do livro “cachorrinhos bandidos”, livro que percorre a história da proteção animal na Argentina. De Sarmiento, Perón, até as associações que hoje colocam alguns limites aos maus-tratos.

Tradução de Nelson Paim

“Temos uma história bastante extensa em relação a proteção dos animais”, disse Silvia Urich ao iniciar o levantamento de mais de 100 anos em que a Argentina tenta proteger algumas espécies da violência.

Tomando como início a linha do tempo compreendida entre a fundação da primeira sociedade protetora, presidida por Domingo Fautismo Sarmiento, passando pela intervenção de Juan Perón até os primeiros anos do presente século, a autora analisa a atividade institucional e individual dos protetores mediante um exaustivo levantamento destes anos no livro “Los Perritos Bandidos: La Protección de los Animales de La Ley Sarmiento a Ley Perón”, ilustrando a capa com o casal Juan Domingo e Eva Duarte junto a seus cães, a quem o ex-presidente, carinhosamente, se referia como bandidos.

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“A ideia é traçar este percurso e ver de que modo as pessoas se organizaram através de instituições para a proteção dos animais. Se iniciou com os maus-tratos de cavalos e logo os temas começaram a se diversificar”, disse em referência aos primeiros passos que deu a sociedade. A diversificação a que a autora se refere abarca as aves, que eram vitimas do tiro ao pombo e da caça esportiva, tanto por pessoas ricas quanto por crianças com seus estilingues.

Sarmiento e Perón: os primeiros protecionistas argentinos, referência dos primeiros anos de proteção aos animais

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Em 1880 se iniciou a linha do tempo daqueles que decidiram pedir pelo reconhecimento dos direitos de alguns animais para não serem maltratados, encarcerados ou explorados. Em retrospectiva, é chamativo que aquelas inquietudes e compromissos nascidos quando terminava o século XIX e que lograram mobilizar a sociedade e sancionar uma lei não tenham tido uma continuidade e um avanço de acordo com os tempos em que vivemos, se considerarmos que ainda perduram entre nós muitas práticas repudiáveis.

“A sociedade argentina para a proteção dos animais reclamava com urgência alguém mais pé no chão e experimentado na concretização de sonhos, foi então que a presidência da associação passou para as mãos de Domingo Faustino Sarmiento. A designação não foi um episódio menor, encerrou uma balbuciante etapa preliminar e deu início a decolagem de uma atividade que, longe de limitar-se a Buenos Aires, se irradiou por todo o país, um país muito especial, pois, junto a Cuba, era o único da América Latina que contava com uma sociedade protetora dos animais. O notável do caso é que, ainda que as condições políticas tenham levado a Argentina ao top 10 mundial, o movimento protecionista continuou vigoroso e vanguardista”, escreveu Utrich em “Perritos Bandidos” sobre o cargo que o ex-presidente ocupou por quatro anos, este sendo um dos indiscutíveis referenciais ao protecionismo, ainda que não o único.

“Em diferentes épocas existiram referências mais além de Sarmiento, que foi presidente da sociedade protetora dos animais após ser presidente da Argentina. Sarmiento começou como membro, mas foi quem mostrou como deveria atuar uma sociedade protetora. Ele a concebeu como um pequeno país e impulsionou a criação de leis, garantindo que as pessoas fossem informadas. Neste sentido, Sarmiento foi uma grande referência”, assinalou Urich ao falar sobre o nome máximo da proteção animal na Argentina. “O outro foi Perón, que tinha particular interesse pelos animais, a lei 14.346 surgiu por sua iniciativa”, completou.

Domingo Faustino Sarmiento e Juan Domingo Perón, ambos amantes confessos dos cães, foram os responsáveis para que a violação dos direitos dos animais seja considerada uma transgressão penal a nível nacional. A lei conhecida como “Lei Sarmiento”, sancionada e promulgada em outubro de 1954, determina “penas para as pessoas que maltratem ou façam vítimas de atos de crueldade aos animais”.

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Outro mentor foi Ignacio Albarracín, a quem se deve a instauração do Dia do Animal. A ideia de fechar o zoológico e proibir exibir cenas de crueldade com os animais nos cinemas foi dele, que também propôs que os circos não utilizassem animais.

Desde 1904 até o início da década de 20 se debatia na imprensa a violência animal, foi fundado o jornal El Zoófilo, dedicado integralmente a promover os direitos dos animais. “[O jornal] durou 25 anos e tinha como slogan ‘Justiça até para os animais’, de Bartolomé Mitre, membro da SAPA”. El Boletín foi outra publicação surgida em 1910 que durou por mais de 30 anos.

Até este momento, o protecionismo “era coisa de homens”, mas isso durou somente até a aparição de Rosa de Pierángeli, a primeira mulher dirigente de uma sociedade protetora dos animais. Pierángelo fundou a Liga Argentina Contra la Vivisección em 1930, a qual lançou a publicação “El Grito de los Inocentes”, na qual contava o padecimento dos animais nos laboratórios.

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Para chegar a isto houve um grande processo social e político. Assim nos conta Silvia Urich: “o projeto de lei que a SAPA apresentou ao Senado em agosto de 1884 era breve, ainda que sensível. Ele declarava punível os maus-tratos aos animais e impunha penas a seus autores, castigando aqueles que não proporcionavam alimentos ou água aos animais transportados, estabelecendo a cooperação da polícia com a sociedade protetora dos animais para o cumprimento das disposições legais e dispondo que as municipalidades regulamentassem a lei. O projeto foi levado de imediato à comissão da legislação, mas somente com as reiteradas reclamações de Sarmiento e com a marcha da Plaza de Mayo foi possível chamar a atenção do Senado, na sessão de 19 de setembro de 1885. O senador Mendocino Zapata elevou a voz e começou lançando munição pesada sobre o caráter inconstitucional da iniciativa”. Uma protetora doou dinheiro para que se construíssem câmaras de gás para eliminar os animais das ruas. A autora assinalou que este foi um de tantos atos que travaram a aplicação plena da lei.

Logo após escutar Zapata, a norma passou a ser nacional e penal. Some-se a isto o fato de que a sociedade não estava ausente e quem exercia o jornalismo, sobretudo em Rosário, não deixava de denunciar quanto havia maus-tratos: o jornal La Capital publicou no domingo, 30 de julho de 1871, ”a abundância e confusão dos animais bovinos e equinos parece que autoriza a todos o abuso de uma maneira tão cruel e bárbara que causa espanto. Não há dia que não presenciemos nas ruas carroceiros atingindo brutalmente o cavalo que não obedece com um pau, fazendo-se assim mais besta ao castigador que ao castigado. Para evitar isso, assim como o uso de bois e cavalos doentes, nos parece boa a ideia de fundar uma sociedade protetora dos animais. Mas esta sociedade não poderá existir sem o apoio das autoridades, que devem aplicar o castigo aos tutores dos animais, privando-os de exercer o ofício de carroceiros por fatos que provam os maus-tratos dos animais que manejam”.

Contudo, depois de 145 anos, as coisas não mudaram muito.

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Outro impedimento foi a troca de paradigma e olhar sobre os direitos dos animais. A nova protetora portenha, constituída por mulheres alemãs de pensamento de extrema-direita, cunhou o slogan “Seja compassivo com os animais” e também fundou um hospital veterinário particular. Já não se falava em público e tudo foi reduzido aos “particulares que desejem e possam ajudar aos animais porque tem recursos”. “Essas ideias se prolongam pelo século XX e se naturalizam ao extremo de aprovar a ideia de matar os animais domésticos para que estes não sofressem nas ruas. Nos anos 80 quase todos os centros de zoonoses começaram a capturar animais com raiva, que nunca foi propriamente controlada, e terminavam matando animais abandonados. Entre estas novas protetoras “houve uma que doou recursos para construir câmara de gás”, lamentou a autora, que disse que na província de Buenos Aires chegou a existir cerca de 20 câmaras em canis municipais. As Amigas dos animais doavam para matar e aos funcionários só restava matá-los e não curá-los ou mantê-los”.

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“Os animais encarcerados nada têm a ver com o educativo”

“Em 1910 foi proposto o fechamento do zoológico porque colocar animais trancafiados não era educativo. Hoje ver os animais presos não tem nada de educativo”, disse a escritora em referência aos prédios onde a mais de 100 anos os animais vivem e morrem trancafiados e longe de seu habitat natural. Neste ponto, Urich conta que a SAPA buscou não somente uma troca de paradigma, mas também usar da empatia com os animais e entendê-los como seres que sentem.

“Conseguiu estabelecer um plano educativo para trocar a relação das pessoas com os animais. No início do século as crianças eram cruéis com os animais, usavam estilingues como forma de diversão, mas as sociedades protetoras conseguiram programar planos educativos, como a matéria Educação Humanitária. Nos anos 30 havia grupos de crianças protetoras nas escolas. O dia do animal, 29 de abril, foi criação das sociedades protetoras argentinas porque a nível mundial é uma homenagem a São Francisco”.

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A Argentina foi um dos primeiros países latino-americanos a possuir uma lei de proteção animal. Neste sentido Urich recordou que “aqui neste dia implantou-se o objetivo de que as crianças poderiam estar em contato com os animais para que viessem a tomar consciência das condições em que viviam e, deste modo, colocar em prática o que viram de modo teórico.

O livro encerra com as ações encaradas pelos protetores dos animais no início do novo século e a contracapa ilustra uma das manifestações contra os zoológicos. O caminho do protecionismo, quem sabe, desemboque nos próximos anos na unidade de todas as sociedades protetoras ao lado de organizações, ativistas e a unificação dos grupos que cuidam dia a dia pela defesa dos direitos animais. Quem sabe, a “graduação” seja uma lei efetiva que possa ser cumprida por cidadãos e levada a sério pelas autoridades que algum dia se naturalize o abolicionismo dos maus-tratos a todos os animais.

Fonte: Tiempo Sur

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