Dica de leitura abolicionista – parte 2

Dica de leitura abolicionista – parte 2

 Por Ellen Augusta Valer de Freitas

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A evidência da dor e sofrimento nos animais vem sendo estudada há séculos e serve de modelo inclusive para os cientistas estudarem a dor em humanos.

Ora, se o animal movimenta-se num ambiente em constante mutação, se ele interage com outros organismos de forma direta e indireta, a dor é um mecanismo de sinalização de que algo está errado e uma forma de alerta para a fuga e para a precaução.

Desde Darwim ou muito antes, era lógico que a dor é uma forma de defesa, sem ela morreríamos sem nos dar conta de algo errado em nós.

Fiz esta pergunta na faculdade, quando estudávamos os peixes, pois lembro de um colega (de biologia) ter dito que peixes não sentiam dor. A resposta do professor foi o que eu esperava: se os peixes não sentissem dor, de que forma eles se defenderiam de ataques, de ferimentos e de outras coisas, se não pudessem sentir nada?

ellen draizeEssa resposta, embora óbvia, foi necessária não para eu ter certeza da dor nos peixes, pois isto eu já tinha, mas para ter certeza da ignorância dos meus colegas com relação às teorias evolucionistas e aos conhecimentos básicos sobre os vertebrados e animais.

No livro da Sonia Teresinha Felipe, Ética e experimentação animal – fundamentos abolicionistas, também encontramos bons argumentos sobre a dor nos animais. Embora estejamos no século das tecnologias, ainda há pessoas que insistem nas velhas ideias, pois, para elas, admitir certas coisas é mudar o seu mundinho construído às custas de jaulas, pinças, alicates, produtos corrosivos e animais enjaulados.

Neste livro, vemos com certa indignação a forma como a palavra eutanásia é usada de forma errônea e distorcida pelos comitês de bioética, pelas pessoas que trabalham diretamente com vivissecção e pela comunidade em geral.

No livro há diversos exemplos de reação dos animais a ferimentos e ao confinamento, indicando forte dor e desconforto. Estas sensações, todos nós que gostamos de animais já vimos, e nenhum de nós – apenas os psicopatas – ficou impassível diante de um ser que se contorcia a nossa frente, que mostrava o olhar triste ou um gesto muito conhecido a nós indicando sofrimento.

Darwin, em seus brilhantes trabalhos, já fez um panorama das semelhanças entre o animal humano e outros animais, inclusive no que se refere ao sentimento.

No seu livro, Sonia T. Felipe cita os biólogos Sérgio Greif e Thales Tréz num trecho que fala sobre o Teste Draize, realizado para testar substâncias venenosas para o ser humano, elementos químicos que compõem alimentos, cosméticos, medicamentos e outros produtos.

É realizado em olhos de coelhos e provoca grande dor, pois eles têm suas pálpebras presas com grampos para impedi-los de piscar, e a substância, colocada em quantidade suficiente para deixá-lo cego, provoca-lhe muita dor, sendo comum eles quebrarem o pescoço tentando fugir do aparelho que os prende!

Os biólogos afirmam que o olho do coelho é muito diferente do nosso e que essa pesquisa é, além de inútil, pouco eficiente quanto aos resultados. O olho do coelho, segundo os biólogos, “… apresenta estrutura e fisiologia diferentes dos humanos. Além de a córnea do coelho ser mais delgada que a nossa (0,35 mm contra 0,51 mm, respectivamente), suas glândulas lacrimais não são tão eficientes e os coelhos piscam menos. Além disso, têm membrana nictitante (terceira pálpebra), que nós não temos. Seu humor aquoso é muito mais alcalino (pH 8,2 contra 7,1 – 7,3 nos humanos), dificultando a dissolução das substâncias testadas. A leitura dos resultados é muito subjetiva e de baixa confiabilidade, variando de laboratório para laboratório e também de coelho para coelho, não servindo para predizer o que ocorreria no olho humano.”

Eles também mostram, informa a autora, que há mais de 60 métodos substitutivos ao modelo ‘olho de coelho’, disponíveis hoje, dentre eles o Eytex e o Matrex.

O que nos parece bem claro, perante tantos métodos substitutivos sendo criados e os já existentes em outros países, é a dificuldade em se aceitar uma nova forma de pesquisa. Nem tão nova assim, pois estes métodos já são velhos conhecidos em diversos países, estando o Brasil e os países que ainda realizam experiências com animais, atrasados em relação às modernas tecnologias.

Além disso, há a questão financeira. Há muito tempo percebemos de maneira indireta e às vezes escancarada como a indústria farmacêutica ou de pesquisas com modelo animal é decisiva e influi de maneira forte nas pesquisas realizadas por centros de estudos que nem sempre são isentos como deveria ser a comunidade científica.

A isenção da ciência continua sendo cada vez mais uma falácia que não convence mais a ninguém. Basta termos às mãos os materiais de pesquisas feitos em hospitais e escolas de enfermagem, universidades etc. Basta pesquisarmos um pouquinho ou estarmos envolvidos neste meio. É nojento? Sim, e nem mesmo a Lei pode favorecer os animais, pois a própria Lei Arouca, vistas por muitos advogados como inconstitucional, está aí para tapar os furos e a falta de respeito da humanidade para com os animais.

A Anvisa obriga muitos fabricantes a testarem produtos em animais, e poucos têm poder para mudar as coisas por lá. O que é necessário é que pessoas da causa estejam nestes meios, para que as coisas mudem. É importante não só boicotar produtos testados, mas agir lá na Anvisa, já que partem deles muitos protocolos obrigatórios.

É um desafio para veganos e demais pessoas preocupadas com animais, não apenas lutar na nossa vida pessoal, mas agir ali, onde a coisa toda acontece… Bem longe dos olhos humanos…

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Bibliografia

FELIPE, Sônia T. Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2007. 351p.

GREIF, Sérgio; TRÉZ, Tales. A verdadeira face da experimentação animal: a sua saúde em perigo.2000, p. 31.

Fonte: ANDA


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