Do gatil para uma escola, Didi encontrou uma família de 28 crianças

Do gatil para uma escola, Didi encontrou uma família de 28 crianças
Foto: Paulo Novais/Lusa

No gatil ninguém o queria pela diferença que tinha: a falta de uma orelha. Na Escola do Dianteiro, em Coimbra, Portugal, Didi, de quatro meses, ganhou uma nova família adotiva e há mais gatos que podem seguir o mesmo caminho.

Assim que as 28 crianças chegam ao pátio da Escola do Dianteiro, durante o recreio, Didi é cercado pelos pequenos que não se cansam de brincar ou de dar festas no espevitado gato de quatro meses, que tanto passeia pelo pátio, como se esgueira para dentro das salas de aula.

No gatil municipal, o gato viu todos os seus irmãos serem adotados e foi ficando para trás pela falta da orelha esquerda. Mas, há mais de uma semana, ganhou uma nova casa na Escola do Dianteiro e também um nome: Didi, escolhido por votação pelas 28 crianças da escola. Didi é o primeiro gato a fazer parte do projeto “Os gatos vão à escola!”, do Serviço Médico Veterinário (SMV) de Coimbra, que permite aos estabelecimentos de ensino adotarem gatos que se encontram no gatil municipal.

“Pensámos que os gatos poderiam ir para as escolas para [as crianças] desenvolverem competências de educação ambiental e de responsabilização”, explana Vera Fernandes, secretária de apoio ao vereador Francisco Queirós, responsável pelo pelouro do gabinete médico-veterinário. O pequeno gato foi “desparasitado, castrado, vacinado” e esteve em famílias de acolhimento com crianças “que o prepararam para a adoção na escola”, sendo que o animal será sempre acompanhado por clínicas veterinárias, de forma gratuita.

Na escola, o Didi poderá ajudar a falar-se “do respeito pelos animais”, mas também de reciclagem – a cama e os brinquedos devem ser criados com materiais reutilizados – ou até de integração social no caso específico deste gato, que “tem uma deficiência, mas que está perfeitamente integrado na escola como um gato normal”, sublinha Vera Fernandes. O convite foi recebido com surpresa por parte da escola que decidiu abraçar o projeto por ser “uma forma de sensibilizar as crianças para os cuidados a ter com os animais e o respeito” que devem ter por eles, explica o professor da turma de 3.º e 4.º anos, Luís Bidarra.

Hoje, Didi já é a estrela do recreio. Na interação com o animal, as crianças também ficam a perceber que “o gato assusta-se quando gritam” e que é preciso “brincar com respeito”, porque se sentir o seu espaço invadido “pode ter uma resposta mais ou menos arisca”, conta o docente. “É uma experiência inovadora e, apesar de [os alunos] serem naturais de uma aldeia e estarem habituados a contactar com animais, nem sempre isso acontece nos tempos que correm”, constata.

“Brincamos com ele e às vezes damos-lhe festinhas”, explica Afonso, de oito anos, com o gato ao colo, que admite que agora a escola “é mais divertida”. Francisca, de sete anos, explica que os alunos, para além de brincarem, ajudam a dar comida e água ao gato, põem a “cama confortável para ele dormir à noite” e há voluntários para “levar o gato para casa para ele não se sentir sozinho” durante o fim de semana. António, do 4.º ano, usa um pauzinho que arrasta pelo chão para brincar com o Didi, que “custa a apanhar”. “Está a ser muito divertido”, dizem em uníssono quatro meninas do 1.º ano.

Para além da Escola do Dianteiro, também o lar da Casa dos Pobres, em Coimbra, já conta com um novo inquilino. O Serviço Médico Veterinário pretende agora chegar a mais escolas, lares de idosos e outro tipo de instituições, que se queiram assumir como famílias adotivas de gatos, mas também de cães, à espera de uma nova casa.

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