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Domesticação dos cães aumentou quantidade de mutações genéticas

Transformações prejudiciais do DNA influenciaram formações das raças, diz estudo.

Por Renato Grandelle

Domesticacao caes mutacoes geneticas

Para se tornar nosso melhor amigo, o cachorro passou por maus bocados. De acordo com pesquisadores americanos, a domesticação de lobos na pré-História, que deu origem aos cães, aparentemente levou a um acréscimo de mudanças prejudiciais no genoma destes últimos. Num estudo publicado na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”, a equipe de cientistas explica de que maneira o homem interferiu na seleção natural dos cães, favorecendo a formação de diferentes raças e isolando umas das outras. Sem esse contato, cada população se reproduziu perpetuando mutações que aumentam a vulnerabilidade a determinados problemas, como cegueira, doenças cardíacas e coronarianas. Essas alterações também levaram a uma capacidade reprodutiva menos eficaz da espécie hoje.

Os Canis lupus familiaris (nome científico do cachorro) são uma subespécie do Canis lupus (nome científico do lobo). Autor principal do estudo, o cientista Kirk Lohmueller, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, nos EUA, rastreou a trajetória genética de cães e lobos para entender como essa seleção artificial, induzida pelo homem, teria levado à mudança de características dos caninos.

— A domesticação do lobo, que aconteceu há cerca de 15 mil anos na Eurásia, provocou um gargalo populacional entre os cães, uma redução do tamanho da população — explica Lohmuller, professor do Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da universidade americana. — Se a população é diminuída, então aumentam as chances de que mutações prejudiciais se manifestem.

CRIAÇÃO DAS RAÇAS

Nos últimos séculos, os cães passaram ainda por outro gargalo populacional — a formação das raças. Geneticista da Universidade de Washington, Joshua Akey ressalta como estas transformações ocorreram ao sabor das vontades do homem.

— A maneira como foram criadas certas raças levou não apenas a características consideradas desejáveis pelos humanos, como também a mais mutações genéticas prejudiciais. Estas transformações poderiam ter sido evitadas em outras circunstâncias — avalia Akey, que comentou o estudo em entrevista à revista “The Scientist”.

O homem influenciou na evolução dos cães ao procurar traços particulares, como docilidade e cor da pelagem. As mutações em determinadas raças por conta disso foram comparadas através de análises genéticas.

A equipe de Lohmuller averiguou as variações genéticas presentes em 19 lobos cinzentos, 25 cães vira-latas de dez países e 46 cães de diferentes raças. No laboratório, eles procuraram alelos — segmentos do DNA — que fossem prejudiciais. Seria um sinal de que a evolução daquela espécie resultou no favorecimento inadvertido de determinados aminoácidos, o que pode provocar algum tipo de falha no organismo.

Muitas dessas mudanças do DNA, destaca Lohmuller, reduzem a própria capacidade de reprodução da espécie.

Em média, os cães tinham 115 alelos danosos a mais do que os lobos. Isto dá uma ideia de que eles sofreram com a seleção artificial promovida pelo homem. Os lobos, por sua vez, puderam evoluir com menos intervenções.

Nos poodles, por exemplo, as variações genéticas ligadas à cor da pelagem estão associadas a outras que elevam o risco de carcinoma. Se a raça não tivesse passado por tantas intervenções humanas, a incidência de carcinoma não teria sido amplificada, dizem os cientistas.

De acordo com Lohumuller, o acúmulo de mutações prejudiciais nos cães deve ser monitorado. No estudo, ele afirma que “a forte seleção para (obter) características específicas de uma raça (…) pode favorecer o que é uma moda, em vez de levar a algo necessariamente funcional ou saudável”.

— É difícil prever o futuro da espécie. Mas alguns efeitos que encontramos podem piorar ao longo do tempo — alerta o geneticista.

VARIEDADE APRIMORA ESPÉCIE

Pesquisador de Genética e Doenças Infecciosas da Fiocruz, Milton Moraes assinala como a domesticação dos cães e a formação das raças pode influenciar em cada população:

— Quando a população é reduzida, os cães que apresentam as mesmas características são cruzados entre si, e, com isso, aumenta a concentração de determinados alelos — ressalta o cientista. — Isso não é necessariamente ruim. A população pode ficar mais resistente a uma determinada doença. No entanto, pode também ocorrer aumento de alelos prejudiciais, que favoreceriam debilidades, como a cegueira. Estas mutações poderiam ser eliminadas se não houvesse uma pressão artificial, exercida pelo homem.

Moraes defende uma maior miscigenação das populações de cães.

— Quanto mais variações genéticas, maior é a possibilidade de conservação de uma espécie — afirma. — Se a composição do DNA for semelhante em toda a população, ela pode ser dizimada por uma mesma doença.

Muitos outros seres vivos tiveram seus genomas modificados pela domesticação promovida pelo homem. É o caso de culturas agrícolas, como milho e arroz, “aprimoradas” para satisfazer nossas necessidades.

EVOLUÇÃO HUMANA

Lohumuller acredita que seu estudo pode ser adaptado para explicar a evolução do próprio Homo sapiens. Assim como os cães, nós passamos por gargalos ao longo dos milênios, como, por exemplo, o isolamento de cada população que deixou a África em direção a diferentes locais do planeta na pré-História.

— Ainda não há consenso sobre como este movimento resultou em mutações genéticas — comenta ele. — O aumento das transformações no DNA pode ter sido igual àquele observado nos cães, quando estes tiveram sua população diminuída.

Fonte: O Globo 

Nota do Olhar Animal: A seleção genética para satisfazer as demandas humanas, preservando ou acentuando determinadas características, causa danos aos cães. Quem cria animais “de raça” ou financia esta atividade pagando por estes animais é cúmplice. 

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