Em 2019 não haverá seda na Asos, famosa loja de roupas britânica

Em 2019 não haverá seda na Asos, famosa loja de roupas britânica

A partir de janeiro de 2019, a Asos fará grandes alterações nos produtos que irá vender. Sob pressão da organização não governamental Peta, a Asos juntou-se a marcas como a Zara, a H&M e a Gap, entre outros, ao pôr de lado a mohair. Mas a maior retalhista online de moda da Grã-Bretanha quis ir mais longe. A nova política da marca vai proibir produtos que usem caxemira, seda, penas, osso, chifres, carapaças (incluindo madrepérola) e dentes.

Mas um dos materiais proibidos na lista levantou algumas questões: a seda, que é feita a partir dos casulos dos bichos-da-seda. Quanto aos restantes materiais derivados de animais, existem várias histórias sobre abusos na produção de mohair e penas. O boom da indústria de caxemira teve sérias consequências ambientais, por exemplo. Osso, chifres e dentes, que são normalmente usados ​​para acessórios como botões, geralmente exigem a morte de um mamífero.

E a seda, que questões levanta?

Há um facto incontornável: os bichos-da-seda morrem para se produzir a seda. Existem diferentes tipos de seda, mas o género a que geralmente se faz referência quando se fala de seda, é a usada para, por exemplo, fazer saris ou vestidos fluidos e vem do bicho-da-seda, o Bombyx mori. Na verdade, este animal não é um verme. É, inicialmente, uma lagarta que se alimenta da folha de amoreira, produz seda para fazer o casulo e chegar à sua transformação para a forma adulta, uma mariposa. O casulo de seda é o que os produtores usam e o objetivo é mantê-lo intacto. Assim que a lagarta faz o casulo, mas antes que esta seja capaz de quebrá-lo e danificá-lo, os produtores tratam-no com ar quente, vapor ou água a ferver. Em zonas quentes, tropicais, o processo pode ser feito através da exposição dos casulos à luz direta do sol. Os processos facilitam o desenrolar do casulo num único filamento ininterrupto que pode ser transformado em fio de seda.

Mas quando se mergulha o casulo em água a ferver ou com uma massa de ar quente, está a matar-se a mariposa, pelo que grandes quantidades de mariposas são mortas – para fazer uma libra (cerca de 450 gramas) da matéria-prima são necessários mais de 2.500 bichos-da-seda, por exemplo.

Os bichos da seda podem sentir dor?

Os bichos-da-seda são cozidos nos seus casulos, mas será que sofrem? A Peta acredita que sim. «Ainda que os bichos-da-seda não consigam demonstrar a sua dor de maneiras que os seres humanos reconheçam facilmente, qualquer um que já tenha visto minhocas assustadas quando os seus habitats são descobertos, deve reconhecer que as minhocas são sensíveis», afirma. «Os bichos-da-seda produzem endorfinas e têm uma resposta física à dor», sublinha.

A ciência, contudo, não é tão clara. A libertação de endorfinas, que acontece em muitos animais, incluindo humanos, modifica os sentidos e ajuda-nos a lidar com a dor. Foi provado que as minhocas produzem endorfinas, o que sugere uma resposta a algum tipo de dor. Mas, novamente, os bichos-da-seda não são minhocas, por isso o exemplo da minhoca pode não ser um indicador particularmente útil.

«Então, o que é que esses insetos sentem, se é que sentem alguma coisa?», questiona o defensor dos direitos dos animais, Mark Hawthorne, no seu livro “Bleating Hearts: The Hidden World of Animal Suffering”.«Eu coloquei a questão a Thomas Miller, um entomologista da Universidade da Califórnia – Riverside, que diz que os bichos-da-seda têm um sistema nervoso central, mas que não têm estruturas equivalentes aos recetores de dor dos vertebrados. Em conclusão, não há provas de que experimentem o que nós chamamos de dor». Ainda assim, Mark Hawthorne duvida da resposta porque, recorda, os cientistas ocasionalmente chegam a conclusões que, mais tarde, acabam por ser alteradas, caso apareçam outras provas.

Algumas investigações indicam que os invertebrados não sentem dor como os seres humanos as percecionam, mas a verdade é que não está definido o que estes tipos de animais experimentam exatamente. No ano passado, o site Gizmodo questionou um grupo de neurocientistas, biólogos e entomologistas sobre o que se sabe sobre a forma como os insetos sentem e experimentam o mundo. O consenso geral era que, embora possam reagir a estímulos negativos, é quase certo que não “sentem” da mesma maneira que os seres humanos e não é possível dizer definitivamente o que experimentam, inclusive se sentem dor.

E os custos e benefícios da seda para os humanos?

Quem está contra o uso da seda poderá recordar os terríveis incidentes de trabalho infantil encontrados na indústria da seda na Índia e no Uzbequistão. Mas a sericultura, ou a produção de seda e criação de bichos-da-seda, tem sido parte importante da economia de algumas culturas há vários séculos, como na Índia e na China, que são os maiores produtores de seda do mundo. Nos dois países, atualmente, ainda é o sustento de um grande número de pessoas.

Em algumas áreas rurais da Índia, em particular, a sericultura tem um peso incalculável, especialmente para as mulheres. «A indústria da sericultura abriu caminhos fenomenais de emprego e ajudou as mulheres a tornarem-se decisoras – seja no lar ou na comunidade em geral», escreve o autor de um estudo de uma aldeia do sul da Índia.

No entanto, caso se compre seda de numa grande marca, esta chegará, provavelmente, de uma instalação industrial na China. Muitas vezes, as próprias marcas nem têm certeza de onde vêm as matérias-primas.

Quais são as alternativas à seda?

Caso se opte por não usar seda, existem alternativas criadas pelo homem que podem ser consideradas substitutas mas, do ponto de vista ético, estas podem não ser melhores do que a seda. A principal é a viscose, a primeira fibra feita pelo homem. Foi desenvolvida como um substituto da seda no final do século XIX, é feita de celulose regenerada e purificada, derivada de polpa de madeira. Apesar do seu ingrediente principal ser baseado numa planta, o processo de produção requer produtos químicos altamente tóxicos. No ano passado, uma notícia revelou que a H&M, a Zara e a Marks & Spencer estavam ligadas a fábricas de viscose na China, Índia e Indonésia, que estavam a causar poluição ambiental e a prejudicar a saúde das comunidades vizinhas.

Algumas variedades de poliéster também podem ser consideradas substitutas, mas está provado que o poliéster solta pequenas fibras de plástico quando lavado, que acabam em cursos de água e, por fim, em peixes. A poluição por microfibras é agora reconhecida como um problema sério e em crescimento.

Ou seja, todas as matérias-primas acabam por ter o seu próprio conjunto de questões éticas. Mesmo o algodão, que exige muita água e é muito difícil de reciclar, não está totalmente livre de culpa. Como Clare Press escreveu na Vogue, sobre os materiais que a ASOS proibiu, «tudo vem com algum tipo de custo».

Fonte: Portugal Têxtil / mantida a grafia lusitana original


Nota do Olhar Animal: A Declaração de Cambridge sobre a Consciência em Animais Humanos e Não Humanos, assinada por cientistas de diversos países reconhece, SIM, os insetos como animais SENCIENTES. E, considerando as incertezas que ainda rondam a questão, é razoável conceder a estes animais no mínimo o benefício da dúvida.

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