Espanha: Toureiro vai matar seis touros para salvar crianças com câncer

Espanha: Toureiro vai matar seis touros para salvar crianças com câncer

Por Juanjo Villalba / Tradução de Flavia Luchetti

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“‘El Juli’ toureia pelas crianças com câncer. No dia 31 de maio, o toureiro madrilenho enfrentará seis touros em Cáceres em uma tourada benéfica”. Com esta frase surreal a Associação Espanhola de Pediatria, a Sociedade Espanhola de Hematologia e Oncologia Pediátricas, a Federação Espanhola de Pais de Crianças com Câncer, o toureiro “El Juli” e a empresa taurina Lances de Futuro começam seu comunicado para a imprensa.

O evento foi apresentado no dia 8 de abril na sede da Associação Espanhola de Pediatria (AEP) em Madrid. Os recursos arrecadados serão destinados às famílias de crianças com câncer e pesquisas da oncologia infantil, especificamente para a Sociedade Espanhola de Hematologia e Oncologia Pediátrica (SEHOP) e para a Federação Espanhola de Pais de Crianças com Câncer (FEPNC). É ótimo que as pessoas colaborem com dinheiro para essas associações, mas será que ninguém pensa que matar seis animais para lutar contra o câncer é algo completamente absurdo? Se “El Juli” quer doar dinheiro para a luta contra o câncer infantil não poderia fazê-lo sem ter a necessidade de matar ninguém? E que acontece com os presidentes dessas associações? O que acham? “Quem dera, na Espanha, muitos toureiros e artistas de outras áreas estivessem dispostos a se arriscar e colaborar como vai fazer ‘El Juli’ para que possamos melhorar a vida e o futuro dos pequenos com câncer”, declarou Tomás Acha, presidente da SEHOP. É serio? Entendo que suas intenções são as melhores possíveis, mas onde está o limite para aceitar dinheiro? Será que eles aceitariam dinheiro, por exemplo, de uma luta de boxe ou de uma briga de galos (que em alguns lugares na Espanha ainda são legais).

É preciso levar em conta que as touradas, em muitas partes do mundo, são consideradas como algo desumano inclusive, dentro da própria Espanha, em algumas regiões como a Catalunha, já não se podem realizá-las.

Na manhã do dia 9 de abril a equipe da Vice tentou falar com algum porta-voz da AEP, mas eles foram transferidos para uma agência de comunicação externa, em que foram muito gentis, mas onde se limitaram a passar um comunicado à imprensa que foi emitido no dia 8 de abril. Assim o que restou foi a declaração do presidente da associação, Luis Madero, apresentada pelo jornal El Mundo em um artigo: “Eu, que gostaria de ter sido toureiro, me sinto orgulhoso de ser taurino e estou profundamente agradecido a Julián”, enfim.

Fonte: VICE 

Nota do Olhar Animal: A estratégia de dar um caráter filantrópico a uma ação abjeta que causa danos aos animais, na tentativa de validá-la moralmente, é usada aqui no Brasil também. Como ocorre, por exemplo, com a destinação para hospitais (também especializados em câncer) de recursos oriundos de rodeios. O apelo caritativo somado ao especismo predominante entre a população faz com que muitos tenham simpatia por ações deste tipo. Matar para salvar: a contradição é tão flagrante que paradoxalmente até cria dificuldades para alguns enxergarem. Mas ajuda nesta percepção imaginar, por exemplo, um assassino doando parte dos recursos obtidos com seus crimes para a caridade. Ou uma chacina beneficente. As situações são bem similares, só muda a vítima.

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