Esquimós: especismo eletivo?

Ser ético em relação aos animais, ecossistemas e demais humanos, significa escolher meios de preservar a própria vida e realizar seu plano de modo razoável, sem que implique em tirar a vida, destruir o bem próprio ou aniquilar as condições do bem-estar específico de outros seres vivos.

De um lado, essas exigências requerem a capacidade para pensar de forma racional, quer dizer, a capacidade de calcular o quanto as próprias ações podem desdobrar-se em resultados maléficos para quaisquer outros seres, próximos ou distantes, que se encontram na condição de pacientes delas. De outro, requer a liberdade, o que implica em ter as condições mentais ou psicológicas para deliberar sobre essas ações, e as condições materiais para realizá-las. Tais exigências são postas todos os dias ao redor do planeta a todos os seres humanos, quer eles tenham estudado a parte da filosofia denominada ética, quer não.

Nossa evolução ética dá-se através da matriz cognitiva altruísta, primeiramente na forma de cuidado dispensado aos membros da própria família, logo aos vizinhos ou membros da própria comunidade, e, por fim, num salto moral refinado, a todos os seres que, por terem nascidos dotados de sensibilidade e tendo um bem próprio de sua espécie de vida, vivem conosco nesse mesmo planeta e dele precisam desfrutar para que suas vidas sejam “felizes”, sem que esse termo tenha aqui a conotação psicológica hedonista que costumamos lhe atribuir no falar corriqueiro.

Tendo uma vez compreendido que estar vivo e querer manter-se na vida bem é condição comum a todos os animais, humanos e outros não-humanos, e dispondo de liberdade suficiente para poder escolher um modo de vida que implique a não destruição dos meios da vida e das condições da felicidade de outros animais, o agente humano passa a agir com autoconsciência, responsabilidade e sem “inocência” em relação aos desdobramentos de seu modo de vida sobre as condições da vida de outros seres.

Para muitos humanos, inclusive para muitos “defensores dos animais”, essa “perda da inocência” se dá de forma bastante dolorosa, pois ela implica em ter de abrir mão de muitos hábitos de consumo, desde a marca de creme dental usado logo ao sair da cama, até o tipo de alimento escolhido para compor cada uma das refeições, e ao batom ou sapatos que complementam o toalete a cada manhã, antes da saída para o trabalho. Numa espécie de compensação por tais perdas, ou seja, pelo reconhecimento de um dever moral de parar de comprar e usar itens que, em sua fabricação, implicam dor, sofrimento e morte de milhões de animais, alguns defensores dos animais adotam uma estratégia mais simples para lidar com suas emoções abaladas: escolhem uma ou duas espécies de animais (cães, gatos, baleias, tartarugas, golfinhos, por exemplo) e canalizam seus sentimentos e cuidados para a proteção delas. A partir desse momento, sem maldade, mas, a bem da verdade é preciso que isso seja dito, quase todas as pessoas “que amam de paixão” certo tipo de animal, passam a autodenominar-se “defensoras dos animais”, sem considerar que esse termo, no plural, não indica “mais de um animal” e sim o universal que engloba todos os animais. Aí temos um problema de linguagem que trava o aprimoramento ético dessas pessoas e também do restante da sociedade.

Ao escolhermos uma determinada espécie de animal, para dedicarmo-nos ao cuidado de alguns indivíduos dessa espécie, ainda não fizemos muita coisa pelos “animais”, no sentido universal do termo, isto é, em relação a qualquer ser vivo que, ao nascer, teve cortada sua ligação direta com a fonte de provimento da qual depende por toda sua existência. Basicamente, no meu entender, um animal é um ser que nasce nessa condição dolorosa. Por isso mesmo ele desenvolve seu espírito conjugando os limites de sua configuração biológica e os conceitos que sua experiência de ter sido provido e de autoprover-se lhe propiciam. Juntadas essas duas características temos então indivíduos cuja natureza implica, ao mesmo tempo, em gozo da liberdade física para circular no ambiente natural em busca dos meios de vida, e ameaça permanente de privação desses meios, seja pela intervenção de outros animais, inclusive dos humanos, seja por uma reviravolta causada no ambiente natural por outros fenômenos igualmente naturais.

O que importa notar, para efeito do que aqui estou tratando, é que “todos os animais” são iguais nessa ambiguidade: para nascer precisam ser cortados da fonte direta de provimento (placenta, ovo), e para viver precisam aprender a enfrentar a ameaça de privação do suprimento, tanto físico quanto espiritual, entendendo com este termo a configuração mental própria da espécie na qual cada indivíduo animal nasce.

Por todas essas implicações, defender “animais” implica em levar a sério o fato de que não importa a configuração anatômica ou psicológica de um animal. O que realmente importa, tanto no caso humano quanto não-humano, é que possamos viver desplugados do úbere que nos alimenta, sem que isso represente ameaça de privação dos meios de subsistência ou de provimentos. Matar animais para comer, portanto, é violar o princípio fundamental da igualdade que estamos sempre exigindo que não seja violada quando é o nosso interesse em nos mantermos vivos, e, bem, que está em jogo. Ser ético é aplicar essa exigência em via de mão dupla: vale igualmente quando somos “pacientes” morais e quando somos “agentes” morais.

Acima foi escrito que uma das exigências da ética é a liberdade para deliberar. Vamos brincar um pouco, seriamente, com essa palavra: quando deliberamos, liberamos algumas coisas e agarramos outra. A liberdade, muito bem a entendeu Sartre, sempre é escolha situada. Não há liberdade quando agarramos tudo ou acumulamos tudo a nosso favor, porque a liberdade não pode ser gozada unilateralmente, por isso, segundo o filósofo, “o inferno são os outros”. Ser livre implica em “abrir mão de algo”, pois não há liberdade sem “deliberar”. Se a ética implica liberdade, ela implica deliberar: escolher algo e abandonar o resto, levando em conta o benefício para os que forem afetados por tal escolha!

Voltemos à questão ética de nossa responsabilidade pelo cuidado da vida dos animais, no sentido universal que o termo evoca: todo e qualquer animal. Não podemos agarrar todos os nossos hábitos de consumo, desde alimentação até vestimenta, lazer, cosmética e medicação, mantendo-nos apegados a eles, e, ao mesmo tempo, dizer que somos “defensores dos animais”. Estou escrevendo a partir de uma realidade generosa, pelo menos para a maioria dos leitores desse artigo. No que tange à alimentação, embora tenhamos sido condicionados pela propaganda criada na década de 60, do século XX, para fomentar os interesses do agronegócio, de que comida de origem animal é o melhor que podemos colocar para dentro de nosso sistema digestivo, temos hoje redes imensas de venda de alimentos que não têm origem na exploração, sofrimento ou morte de animais. Para todos que dispõem de farta oferta de comida na hora do almoço, não há desculpa para continuar a ingerir carnes e laticínios alegando que ali encontram proteína, cálcio, etc., pois esses nutrientes são abundantes em oleaginosas, leguminosas, folhas verdes, frutas e cereais integrais. Assim, se temos liberdade em meio a tantas alternativas, temos capacidade para “de-liberar”, quer dizer, adotar uma forma de obter nutrientes, largando a forma tradicional baseada na exploração e morte de animais.

Algumas pessoas questionam o dever moral relativamente à escolha das fontes de nutrientes, se animal ou vegetal, quando pensam nos esquimós, para os quais a fonte dos nutrientes essenciais praticamente se restringe ao consumo do óleo de baleia e de sua carne. Então, dizem: a ética não vale para todos os humanos? A pergunta é procedente. Mas, a resposta que elas costumam dar, não é. Via de regra, a pessoa que faz a pergunta acaba por se autojustificar ao ingerir carne e laticínios, usando o caso dos esquimós para dar força à sua escolha. “Dado que os esquimós comem animais, então também eu estou desculpada em fazê-lo.” Engana-se quem pensa que a conclusão é ética. Em primeiro lugar, os esquimós não têm escolha. Nós temos condições de escolher encher o carrinho do supermercado com carnes, queijos, e todos os alimentos processados que contêm ingredientes de origem animal, ao mesmo tempo em que temos condições, no mesmíssimo supermercado, de encher nosso carrinho com alimentos vegetais carregados dos mesmos nutrientes presentes nas carnes e laticínios. Para agravar nossa responsabilidade moral, temos liberdade de ir ao supermercado ou buscar nosso alimento na feira. Os esquimós não têm. Não precisamos usar alimentos de origem animal para sobreviver. Os esquimós precisam.

Mas, antes que alguém pense que defendo uma espécie de exceção para eles, caindo em um relativismo ético, quero ressaltar, finalmente, que os esquimós precisam matar animais para comer, porque ao redor do planeta uma imensidade de alimento é produzida para suprir rebanhos imensos, numa espécie de conversão que pode chegar a 10 x 1, dá-se ao animal alimento de origem vegetal para que seu organismo o transforme em proteína, algo que nosso organismo está habilitadíssimo a fazer, e, depois, além de privar milhões de humanos desses nutrientes de origem vegetal que são dados aos animais, também os privamos da proteína produzida através dessa matemática grotesca. Os esquimós não precisariam mais matar animais para se alimentarem, se fôssemos justos na produção e distribuição dos alimentos. Eles poderiam ser alimentados com o que se produz ao redor do planeta, supridos com os nutrientes essenciais. Para isso, é preciso que façamos justiça ambiental genuína: que paremos de fabricar animais, pois isso implica em derrubar florestas e envenenar as plantações destinadas à fabricação de ração para eles. E que cultivemos alimentos ricos em nutrientes, não envenenados, e os distribuamos ao redor do planeta para todos os humanos que não têm liberdade para fazer escolhas no sentido de sobreviverem sem terem de tirar a vida de outros animais.

Enfim, enquanto não fizermos o salto evolutivo final, o da justiça e ética em relação a todos os seres vivos, não podemos apontar para os esquimós como contraexemplo do princípio da preservação da vida animal, dado que eles matam baleias. Mas, dado que já dispomos de alimentos o suficiente para compor nossa dieta sem matar animais, somos nós quem temos responsabilidade moral de liberar formas de dieta que implicam dor, dano, sofrimento e morte dos animais, e adotar apenas aquela que não implica nisso tudo. Somente desse modo podemos usar devidamente a expressão: “sou defensor(a) dos animais”. Em qualquer outro caso, o que se faz é apenas eleger uma espécie e ignorar a igualdade das demais em relação a essa, e isso nada mais é do que especismo eletivo, derivado do velho especismo elitista que nos convenceu de que somos “superiores” aos outros animais porque somos capazes de fazer cálculos e inventar tecnologias.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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