Estudos sobre contato de animais com a lama de rejeitos estão parados

Estudos sobre contato de animais com a lama de rejeitos estão parados
Regência é um dos maiores polos de desova de tartaruga no Brasil (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Um ano após o rompimento da barragem de rejeitos de minério da Samarco, pesquisadores do Espírito Santo enfrentam dificuldades financeiras para conseguir medir os impactos que a tragédia causou no meio ambiente. Uma delas é sobre os animais: ainda não se sabe das consequências causadas às tartarugas marinhas, que têm Regência como ponto de desova.

Uma decisão da Justiça proíbe a pesca em Regência desde fevereiro, pois não se sabe o nível de contaminação dos peixes, crustáceos e outros animais que tiveram contato com a lama.

Tartarugas tiveram amostras de sangue coletadas (Foto: Reprodução/TV Gazeta)
Tartarugas tiveram amostras de sangue coletadas
(Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Além dos peixes, pesquisadores estão preocupados também se a saúde das tartarugas marinhas foi afetada.

Em 2015 houve uma grande mobilização para salvar os animais do local. Os pesquisadores abriram os ninhos e transferiram os ovos para locais da praia que não foram atingidos pela lama e iniciaram uma pesquisa: quando as tartarugas saíam do mar para colocar ovos, os pesquisadores tiravam o sangue delas.

Mais de 60 animais da espécie cabeçuda, que está ameaçada de extinção, tiveram amostras de sangue coletado entre novembro e fevereiro de 2015.

Com a análise dessas amostras, os pesquisadores poderiam ter um parâmetro para comparar com tartarugas que não tiveram contato com o rejeito e avaliar as consequências.

“Coletamos essas amostras numa condição muito atípica que foi durante a chegada do rejeito de mineração. E isso vai servir de parâmetro para análises futuras, se forem comparadas por exemplo, com as tartarugas que vieram desovar esse ano, não foram expostas”, explicou o veterinário Marcelo Santos.

Mas não é assim que tem funcionado. Um ano após serem coletadas, as amostras ainda não foram analisadas. O problema é que os pesquisadores não têm condições de pagar pelos exames, já que cada análise custa em torno de R$ 900.

Eles esperavam que a Samarco pagaria, por ter sido a empresa que causou o dano. E temem que se as amostras ficarem mais um ano guardadas, podem não servir para mais nada.

Falta verba para realização de exames (Foto: Reprodução/TV Gazeta)
Falta verba para realização de exames (Foto:
Reprodução/TV Gazeta)

“É uma mistura de frustração e ansiedade. Frustração porque a gente vê um trabalho importante parado, sem perspectiva de continuidade. E ansiedade porque eu preciso analisar essas amostras, não posso guardá-las eternamente e a sociedade demanda respostas”, disse o veterinário.

A Samarco informou que já discutiu com o Projeto Tamar sobre a possibilidade de fazer o exame do sangue das tartarugas. A empresa estava aguardando a definição de um termo de referência, que é um documento que instrui como deve ser feita pesquisa da fauna atingida nos próximos cinco anos. Esse estudo já foi encaminhado à Fundação Renova.

A Renova informou que busca manter o diálogo com as organizações sociais envolvidas com a recuperação ambiental. A Fundação ainda explicou que está aberta para analisar o apoio a todas as iniciativas de recuperação da área atingida.

Monitoramento

Os pesquisadores ainda não perceberam nenhuma mudança no comportamento das tartarugas. Elas continuam chegando a Regência, como sempre fizeram.

Mas os biólogos do Projeto Tamar dizem que os danos podem aparecer no futuro, e examinar o sangue que já foi coletado, pode ajudar muito no monitoramento da espécie.

O analista ambiental Centro Tamar/ICMBIO, Nilamon Leite, alertou para a importância da avaliação das amostras, destacando o longo ciclo de vida das tartarugas. “A gente precisa saber se isso gerou um tipo de impacto nos animais e a gente só vai saber isso se a gente começar a analisar esses dados”, disse Leite.

Mais atrasos nos estudos

Estudiosos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) afirmam que apesar da água na foz do rio Doce, em Regência, não ter mais a cor avermelhada de antes, a lama permanece no solo do oceano, como um gel.

Mas os pesquisadores não sabem avaliar a contaminação que a lama pode causar, por falta de materiais para fazer a pesquisa. A última amostra do solo do oceano que analisaram é de abril, seis meses atrás.

“Teve um aporte de metais como ferro, alumínio, cromo, manganês,  alto no início. E obviamente esse teor elevado continua, porque esse sedimento foi para o fundo, esse material se depositou. Precisamos voltar a coletar o mais rápido o possível para ver o cenário hoje e poder comparar com abril”, explicou o geólogo da Ufes, Alex Bastos.

A coleta do material era feita com um navio do Instituto Chico Mendes, que é ligado ao ministério do meio ambiente. Mas o instituto diz que faltou recursos para mandar o navio de volta para regência.

Análises da água são realizadas diariamente pela fundação Renova, que foi criada para reparar os danos provocados pela tragédia e recebe recursos da Samarco. A fundação que está tudo dentro dos limites permitidos pelo conselho nacional de meio ambiente.

Apesar desses resultados, a dúvida sobre a possível contaminação dos peixes que entraram em contato com a lama permanece. Com isso, a justiça determinou a proibição da pesca em Regência em fevereiro deste ano, que permanece até hoje.

Por Mário Bonela


Nota do Olhar Animal: Enquanto isso, a Samarco ainda não pagou as multas que lhe foram aplicadas por conta do crime ambiental. Prisões? Não ocorreram e nem vão ocorrer.

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