Ética animalista

Curso de Extensão

Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica

[Palestra proferida no Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – UFSC,

3 maio 2013, das 18:45 às 21:30]

ÉTICA ANIMALISTA

Dr. phil. Sônia T. Felipe

 

De origem grega, a palavra ética se desdobra em dois significados. Ela designa, em primeiro lugar, simplesmente, aquilo que o nascimento nos lega, hoje chamado bagagem genética, a herança biológica própria de cada espécie, que resulta da combinação dos elementos progênitos masculino e feminino, resultando no organismo individual. Nesse sentido, éthos refere aquilo que não podemos mudar, o que nos caracteriza enquanto espécie e também indivíduos. Esse significado básico biopsicológico, éthos como característica ou caráter, do qual deriva a palavra ethiké, traduzida em português como ética (bem conhecida e raramente adotada), resume a condição natural de todos os animais e plantas, mas não esgota o que deve ser entendido filosoficamente por ética, embora tenha algo a ver com ela.

O segundo sentido do termo, ethiké ou ética designa o que nos caracteriza, não pela bagagem genética, mas por moldagem cultural, conseguida pelo hábito, costume ou tradição. Neste sentido, o latim traduziu éthos ou ethiké, do grego, por mores, que significa costumes. Por isso, em português, usamos a palavra moral, sendo que não é raro o uso indistinto dos termos ética e moral. Na tradição religiosa, o termo moral foi usado para designar a lista de ações a serem praticadas por serem consideradas boas. Mas na tradição filosófica moral significa simplesmente o sistema de valores adotado por uma determinada cultura, por vezes com pretensão de validade universal. O que um determinado povo acha certo ou errado, pretende que todos os demais também o achem.

Passada de uma geração a outra, a lista das ações consideradas boas por serem praticadas há milênios acaba por compor o que somos condicionados a respeitar como tradição, aquilo que forma em nós uma armadura protetora, que vestimos quando interagimos socialmente, para que não façamos ao outro algo que o “desmoralize”, nem nos “desmoralizemos” fazendo algo inconcebível à imagem que temos de nós mesmos como seres éticos.

Entretanto, também desde os gregos, a palavra ethiké inaugurou a análise e avaliação dos costumes, tradições e ações humanas, considerando-os sob uma perspectiva crítica, tanto para indicar o bem que pode resultar de uma prática tradicional, quanto o mal que ela pode acarretar. Ao longo da história, com base nessa capacidade crítica da razão, muitas tradições foram abolidas. Quem insiste em ressuscitá-las geralmente é considerado bárbaro (também do grego uma palavra que designava o estranho, o não nascido em Atenas).

Este curso de extensão, Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo do leite bovino, conforme anunciado no projeto, segue o espírito do livro Galactolatria: mau deleite (FELIPE, Sônia T. São José: Ed. da Autora, Ecoânima, 2012, 302 p.), uma abordagem crítica do éthos ou tradição moral e econômica de extrair leite das fêmeas bovinas para consumo humano.

Nesse sentido, o curso é uma análise ética crítica de algo que nos foi legado pela tradição dietética como condizente com o éthos Homo sapiensis, como característica natural humana. O que a tradição alimentar não nos ensinou é que certos hábitos alimentares resultam de interesses humanos que se mostram vantajosos para alguns e extremamente maléficos para todos os demais envolvidos: vacas, vitelos, ecossistemas naturais e o próprio sujeito galactômano.

Para muitos, seu interesse dietético galactófilo ou galactômano tem tanto direito de ser atendido quanto o tem seu interesse em professar determinado credo, estudar em uma universidade, escolher a pessoa com quem vai interagir sexualmente e assim por diante. Ser galactômano, para quem nasceu há menos de quarenta anos e para muitos que nasceram há mais de sessenta, parece ter se tornado um direito humano fundamental. Esse pretenso direito jamais leva em conta o direito das vacas e vitelos de não terem suas vidas e seu éthos destruído pelo manejo humano. Ninguém é formado para calcular a montanha de grãos, cereais, forragens e a imensidão de águas digeridas pelas vacas e expelidas no ambiente, por conta do consumo de leite e laticínios. Ao forçar nosso olho a buscar sempre o mesmo tipo de alimento ao qual nosso cérebro e nossa mente foram direcionados desde antes de nascermos, a dieta galactômana nos cega.

Falar criticamente sobre a galactomania pode parecer para algumas pessoas uma ofensa contra seus interesses fundamentais. Toda análise e juízo ético questionadores da moralidade tradicional dietética causam reações adversas.

Não nos ateremos à história da construção na mente humana da crença de que sem o leite bovino os humanos não podem gozar de saúde. Trataremos do mito nas sessões sobre o consumo de leite e laticínios e sua vinculação com muitas das doenças que abarrotam hoje os hospitais e levam boa parte das pensões e aposentadorias diretamente para as farmácias.

 Humanos costumam usar leite de fêmeas de outras espécies (yakas, vacas, búfalas, cabras, ovelhas e camelas) há mais de dez mil anos, sempre com a justificativa de que escasseiam no ambiente natural os nutrientes presentes nesses leites, e por isso os humanos precisam extraí-los de fêmeas de outras espécies. Ninguém nos ensinou a perguntar: “E de onde essas fêmeas extraem os nutrientes que compõem seus leites?” A resposta, obviamente, seria: “Do alimento que consomem”. Bem, se há alimentos disponíveis às fêmeas de outras espécies, dos quais elas obtêm os nutrientes que se concentrarão em seus leites, por que os humanos não ingerem esses alimentos diretamente?

Onde nasce vegetação que serve de alimento para as fêmeas mamíferas, também podem nascer vegetais nutritivos para a espécie humana. Então, a questão não é, propriamente, a de os nutrientes estarem presentes no leite animal, mas a de que as terras usadas para produzir o alimento dado a esses animais não são disponibilizadas ao cultivo de alimentos humanos, somente ao de alimentos animais. O alimento animalizado – comida dada aos humanos depois de os alimentos vegetais ricos em proteínas, minerais e vitaminas terem sido dados aos animais para que seus corpos os processem – custa mais caro. Agregação de valor.

Ao contrário do que se pensa, vacas, búfalas, yakas, cabras, camelas e ovelhas são usadas em maior ou menor número para extração de leite, dependendo da fartura de alimentos com os quais os extratores proveem o sustento delas. Na verdade, conforme veremos ao tratarmos da galactocracia ao redor do mundo, quanto mais fartura na produção de grãos, cereais e forragens, mais alta a extração de leite animal destinado ao consumo humano. Quanto menor a disponibilidade de grãos, cereais e plantas, mais baixa a extração de leite animal para consumo humano. Portanto, não é inteligente concluir que os alimentos animalizados nos salvam da fome. Eles saciam nossa gula. Satisfazem nosso apetite. Mas gula e apetite não são carências que justifiquem a morte ou a exploração dos outros para atendimento de nossas fantasias sensoriais bem mal-acostumadas.

Neste curso, abordaremos apenas a extração de leite das vacas. Portanto, ao usarmos aqui o termo leite, sempre será em referência ao delas. Quando não for este o caso, o termo leite virá seguido de algum qualificativo: vegano, de mulher, de baleia e assim por diante.

Vamos nos ocupar da ética animalista, no sentido grego do termo ethiké: uma análise crítica dos hábitos, costumes, usos e tradições nos quais nos formatamos conceitualmente, mesmo sem nos darmos conta disso, usando, explorando e matando os animais das espécies eleitas pelo padrão moral da nossa cultura para servirem ao nosso proveito. Faremos essa crítica ética para filtrar, pelo juízo, o que não condiz com determinado princípio moral, adotado para regular nossa existência em meio à dos outros, que também têm interesses a serem preservados. Os outros, nesse caso, podem ser as vacas, os vitelos, as florestas derrubadas para plantação de monoculturas e os ecossistemas naturais destruídos pelo gás metano e pelos excrementos do leite.

É comum aceitarmos que ninguém pode ter privilégios, a menos que eles sejam parte ou resultem de uma atividade aceita como justa pelos demais membros da comunidade moral. Então, não podemos exigir que alguém aprove a conduta de outro, quando esse acumula benefícios em favor próprio, sem que esses benefícios sejam resultado de uma atividade eticamente aceitável por essa comunidade. Esse é o princípio da igualdade, muitas vezes conhecido como isonomia, quer dizer, tratamento igual para os que são considerados iguais.

Entretanto, mesmo que uma determinada prática, costume ou tradição seja considerada aceitável por uma determinada comunidade, a simples aceitação da maioria não é ainda garantia de que tal prática seja ética. A maioria das pessoas pode estar simplesmente seguindo uma tradição nada ética. As pessoas costumam revestir-se de práticas e costumes típicos de sua cultura, e por estarem revestidas e investidas deles, os consideram louváveis. Isso as formata moralmente para aceitarem como válidos os hábitos e costumes que se assemelham aos seus e reprovarem os que não se parecem com os seus. Por exemplo: é comum, nas páginas de notícias da Agência de Notícias de Direitos Animais – ANDA, os internautas se referirem com termos vis aos asiáticos que comem cães e gatos, esquecendo-se que estão aqui a comer porcos e frangos. Para o porco ou para o frango, a vida é tão valiosa quanto o é para o cão ou para o gato. O valor da vida de um animal não pode ser medido por nossas predileções ou estimas pessoais. Isso pode valer para organizar nossos afetos e equilibrar nossas emoções domésticas. Mas afetos e emoções privadas não podem ser o crivo pelo qual a vida alheia, seja em que formato for, tenha que passar, para conseguir ser reconhecida como digna de respeito. Os animais não dependem de nossa estima para viver. Eles dependem do nosso respeito.  

Como passar o filtro nessas convicções morais? Descartes, ao desafiar a razão a pôr em questão todas as verdades e dogmas impostos pela igreja católica, reconheceu que é preciso ter um princípio abstrato que sirva de luz e guie nosso raciocínio enquanto fazemos a crítica dos nossos arraigados costumes. Para efeito da crítica ética às implicações da extração e consumo de leite animal, temos em mente o princípio, elaborado por Peter Singer, da igual consideração de interesses semelhantes, que congrega ao mesmo tempo o reconhecimento da igualdade de todos os seres sencientes, quer dizer, sua capacidade de sentir dor, de sofrer e de serem conscientes do que acontece a eles, e da liberdade, sem a qual nenhuma vida animal tem sentido, nenhuma mesmo. Temos também o princípio do direito moral à vida, elaborado por Tom Regan em sua concepção dos animais como sujeitos-de-suas-vidas, segundo o qual não há vida maior nem menor, melhor nem pior, pois a vida precisa ser respeitada da perspectiva do animal que a vive, não dos que são capazes de mata-lo ou de exauri-lo pela exploração. Em terceiro lugar, temos o princípio do direito abolicionista, elaborado por Gary L. Francione, pelo qual a vida animal deixa de ser considerada propriedade dos seres humanos.

Se conseguirmos filtrar nossas tradições animalizadas com esses princípios, quem sabe cheguemos próximo ao que defendemos como justiça em relação à vida futura. A vida futura. Não apenas a de nossos filhos. A dos filhos dos outros. E de outros de todas as espécies hoje ameaçadas pelo gás metano e pelos excrementos do leite. Não entendemos por vida futura apenas as vidas que carregarem nossos genes sobre este planeta. Entendemos por vida futura a vida dos seres de todas as espécies, vivida nos padrões do éthos que cada espécie configura para seus indivíduos, sem interferências ou malefícios provocados pelo estilo de vida de pouco mais de 25% dos humanos espalhados ao redor do planeta.

Alguns podem estar pensando: o que toda essa dissertação tem a ver com as vacas usadas para extração do leite? Guimarães Rosa fala de todas as agruras humanas no estilo que denomino roseio, termo que designa a mistura de estilos do Rosa, em rodeios que vão ao ponto, sem perdão.

A tradição moral milenar na qual fomos formatados não nos convida nem instiga a fazer a crítica do conteúdo moral dos costumes que desenharam em nós, desde o nascimento até a idade adulta, os hábitos aos quais nos afeiçoamos e que passaram a ser considerados naturais, por serem a norma padrão ou éthos da sociedade na qual vivemos. Fomos coagidos a respeitar os costumes e a incorporar hábitos, especialmente os alimentares, tomar achocolatados na merenda escolar, comer sorvetes no verão, beber leite antes de dormir. Para reforçar a fé na dieta animalizada, sem a qual o agronegócio e as indústrias farmacêuticas não prosperam, também fomos formatados para aprovar e preservar as tradições animalizadas: visitar festas populares onde os animais são maltratados para diversão humana, oferecer animais a entidades que gostam de sangue inocente para saciarem seus apetites, usar restos mortais dos animais para cobrir nossos corpos ou, simplesmente, num gesto de puro desdém pelas vidas destruídas na extração do butim (peles, couros, marfim, pérolas), adorná-los.

A dieta, para os gregos díaita, significa modo de viver e não exclui o estilo de comer. Mas em nossa tradição nunca o padrão alimentar é colocado às crianças, aos adolescentes, aos jovens, aos adultos e aos idosos como um tema a ser questionado na perspectiva ética, quer dizer, na perspectiva dos interesses fundamentais dos animais que possam estar sendo violados quando atendemos nosso apetite, gula ou adicção. Seguimos o padrão alimentar de nossa sociedade silenciosamente, obstinadamente, como a um dogma religioso.

O fato é que a configuração do conteúdo do prato tem mais poder sobre nosso espírito do que muitas rezas ou mantras repetidos ao redor do planeta. Ela configura nossos conceitos morais, quer dizer, nossos valores. Mas não nos damos conta de que os conceitos com os quais operamos no mundo estão formatados no antropocentrismo hierárquico especista. São valores que garantem um estatuto moral para os humanos. Ao hierarquizarem a vida dos animais, esses valores instituídos pelos humanos, deixam o humano no topo da hierarquia (especismo elitista), selecionam alguns animais, cães, gatos, cavalos e passarinhos, por exemplo, para ficarem fora dos tormentos aos quais os demais são condenados os porcos, bois, vitelos, vacas e frangos (especismo eletivo).

Na tradição onívoro-lacto-carnista (a dieta na qual se come de tudo, priorizando laticínios e carnes no cardápio), ao sermos condicionados a comer alimentos de origem animal, ouvindo desde o nascimento que eles são necessários para crescermos fortes, saudáveis e inteligentes, somos formatados inadvertidamente por conceitos ocultos, segundo os quais os humanos estão destinados a um lugar especial na ordem dos seres vivos, enquanto todos os outros seres estão colocados abaixo de nós, sob o domínio do nosso poder degustador e devorador.

Comer, no entanto, não é um ato inocente, situado num plano além ou aquém da ética. Isso quer dizer que devemos expor ao próprio juízo crítico os alimentos que ingerimos. Ao ingerirmos qualquer alimento estabelecido pela dieta padrão em vigor, internalizamos, sem o saber, os valores antropocêntrico-hierárquico-especistas que prevalecem há milênios em nossa tradição dietética. Todavia, a dieta não é um assunto à parte da existência, do qual devam ocupar-se apenas os que já estão sequelados por ela: obesos, hipertensos, diabéticos, cardiopatas, cancerosos, renais, celíacos, intolerantes ao leite ou alérgicos.

A dieta é o eixo da ética, quer dizer, da crítica ao éthos especista contemporâneo, pois nos alimentamos não apenas da matéria animalizada propriamente dita, mas também dos conceitos que os hábitos alimentares especistas carreiam para nossa mente. Por essa razão, é verdade que somos o que comemos. O que falta é desdobrar nossas pregas morais, para vislumbrarmos o que formata a moralidade enquanto enche nosso estômago, abarrota hospitais e dá imenso lucro às indústrias farmacêuticas.

Este curso não é sobre dietas, no plural. É sobre a dieta galactófila (gálaktos = leite, philia = afeição) ou galactômana (gálaktos = leite, manía = tendência mórbida, loucura ou compulsão por), sobre as implicações da extração de leite, para as vacas e  vitelos, o planeta e a saúde humana. O filtro deste curso é a ética, quer dizer, a análise crítica do éthos de nossa díaita esse modo de viver que entrega a responsabilidade moral do comedor aos interesses do mercado e a submete aos princípios econômicos aos quais a dieta humana foi garroteada por ordem do agronegócio nos últimos 40 anos.

A maioria dos comedores humanos evita tomar ciência da devastação causada por seu padrão alimentar, mantido à custa do sofrimento animal, da derrubada de florestas para plantação de grãos e cereais destinados à ração animal, do desvio de água potável e do retorno das bilhões de toneladas de alimentos e água dadas às vacas, na forma de excrementos e de gás metano,  lançados sobre o planeta sem que o consumidor de leite e laticínios seja confrontado em seu prato com o estrago que sua dieta privada causa ao ambiente natural. Trataremos desses dados no Tópico 3, Devastação alimentar e ambiental.

Por esse filtro ético será passado um dos alimentos mais consumidos em três continentes: Europa, América e Oceania, continentes com índices populacionais inversamente proporcionais aos índices da extração do leite bovino. Quanto menos população o continente tem, comparado aos demais, mais extração de leite bovino, portanto, mais consumo de grãos e cereais nobres, mais eliminação de água potável, mais emissão de gás metano, mais dejeção de excrementos. O ônus desses mais recai sobre todo o planeta e todas as vidas que o habitam. O bônus atende apenas ao apetite e à mania ou compulsão construídas socialmente nas culturas galactômanas.

O único continente que não pode ser acusado de ser menos populoso e de desperdiçar comida animalizando sua dieta é o Africano, cuja extração de leite se mantém aquém dos índices da Oceania, Europa e América, embora com densidade populacional equivalente ao desses continentes.  

Mesmo os continentes que pouco consomem laticínios estão atrelados ao sistema de produção galactífero dos demais continentes galactocráticos. As terras agriculturáveis nas regiões onde o leite bovino não ocupa o centro da dieta humana são usadas para cultivo de soja, milho, trigo, sorgo, cevada, feijão, arroz, amendoim e forragem em geral, para suprir as vacas usadas para extração de leite ou os habitantes dos países nos quais o espaço ou solo adequado para o cultivo dessas lavouras já esgotou a capacidade de suprimento dos animais criados por eles. Segundo Leovegildo Lopes de Matos, o Reino Unido “tem dois ‘hectares fantasmas’ para cada hectare cultivado pelos seus fazendeiros”. A Holanda tem sete hectares fantasmas para cada hectare cultivado para “alimentar seu povo e seus animais”. (Apud, Felipe, Galactolatria:72).

Para que uma ação possa ser considerada ética, é preciso que os desdobramentos ou efeitos dessa ação atinjam os envolvidos – humanos, animais de outras espécies e ecossistemas naturais – de modo igualmente benéfico. Quando uma ação bonifica alguns, por exemplo, os agentes morais, favorecendo seus interesses fundamentais, mas onera outros, os pacientes morais dessa mesma ação, os prejudicados estão sendo desconsiderados em seus interesses fundamentais. A interação entre os beneficiados e os prejudicados tornar-se desigual. Numa interação na qual não há igual liberdade nem igual benefício, na qual o ônus é empurrado para um dos lados e o bônus para outro, uma das partes está na condição de sujeito e a outra na de objeto, instrumento. Ações com esse perfil não são éticas. O sistema de extração e consumo do leite animal dá exemplo claro disso. Suas razões são econômicas, não éticas.

A dieta animalizada, especialmente a galactômana transforma florestas nativas em pastagens, em campos de monocultura. Transforma água potável em urina. Transforma grãos, cereais e gramíneas, digeridos com a água, em excrementos. Transforma o metabolismo das vacas, alterando sua fisiologia e esgotando-o, a ponto de a vida não poder prosseguir depois de ter sido vivido apenas um terço do que poderia ser, caso a vaca vivesse livre e não fosse explorada por secretar leite ao dar a vida a um bezerro.

Não bastasse o estrago que o cultivo de alimentos para saciar mais de meio bilhão de vacas que compõem o plantel da extração do leite, das quais 250 milhões são ordenhadas todos os dias ao redor do planeta, causa, o consumo de leite e laticínios por adultos bem formados e alimentados volta-se contra os interesses desses, quando seus organismos cessam de produzir as enzimas necessárias à digestão apropriada dos elementos dos quais o leite bovino é naturalmente constituído: açúcar, gordura saturada, proteínas e cálcio, para citar apenas os quatro elementos em maior concentração no leite bovino.

É preciso lembrar que o organismo humano não produz enzimas para digerir, assimilar ou expelir, sem se contaminar, pus, sangue, antibióticos, hormônios de crescimento bovino recombinante, pesticidas e metais pesados, presentes no líquido hoje submetido à UHT (ultra height temperature) com o propósito de destruir bacilos, bactérias, príons e vírus, sem vitória certa. Também não temos defesa contra os adulterantes usados pelos comerciantes do leite: formol, ureia, formaldeído, água oxigenada, soda cáustica e sabe-se lá o que neste momento está sendo vendido nas caixinhas e saquinhos pelo mundo afora como se fosse aquilo que a natureza nos deu para nos nutrir.

Todos os artifícios são empregados para que os extratores do leite continuem no sistema, que lhes paga algo entre 0,68 a 0,90 centavos por litro extraído, dependendo da quantidade de pus presente no leite, o que leva ao pagamento direto aos extratores de leite de mais de 20 bilhões de reais anuais, sem contar o movimento financeiro das fábricas que processam o leite e vendem seus derivados, e o dos que ofertam iguarias feitas à base do leite em todos os restaurantes, lanchonetes, padarias e confeitarias pelo Brasil afora. Só na venda de utensílios ou insumos agrícolas voltados para atender à demanda da produção e comercialização do leite e dos laticínios, o Brasil movimenta outros mais de 20 bilhões de reais ao ano.

Os comedores humanos com quarenta anos ou mais nasceram ou cresceram nas décadas nas quais o leite foi imposto a todos como alimento essencial. Quem está nesse contexto não teve chance alguma, pelo menos não aqui em nosso país, de acessar a literatura contrária ao consumo de leite bovino por humanos em qualquer idade. Refiro-me à literatura médica, não à literatura dos defensores dos animais abolicionistas.

Esses médicos, que hoje já representam mais de seis mil profissionais reunidos no Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável, tratam seus pacientes e os curam das mazelas mais comuns, agudas e crônicas, associadas ao consumo de leite bovino, retirando de sua dieta todos os alimentos de origem animal, portanto, usando a dieta vegana abolicionista. Mas no Brasil não temos um livro sequer de qualquer um desses profissionais traduzido para o português. Para poder superar a galactomania, os brasileiros têm que saber ler em inglês também. Sem essa habilidade linguística, continuarão a engolir laticínios na santa fé de que eles são indispensáveis à saúde e ao bom desempenho do seu organismo.

Na maior parte das pessoas o efeito da ingestão de laticínios é oposto ao que dita a propaganda médica nacional: quanto mais leite e derivados, mais mazelas e doenças se apresentam nesse organismo, sem que a maioria dos médicos tenha recebido formação para ajudar o paciente a abolir de sua dieta esse alimento. Então, o tratamento está voltado exclusivamente para os fármacos, porque em sua base teórica, a medicina não privilegia a nutrição como fonte de saúde.

Para se formar nutrólogo o médico precisa buscar essa especialidade no estágio residencial ou na pós-graduação. Por essa razão, o eixo dos tratamentos está firmado na questão: como eliminar os sintomas e reações adversas a certos alimentos usando medicamentos? Em sua formação tradicional, o estudante não aprende como ensinar o paciente a abolir do seu prato o alimento que agride os tecidos e órgãos de seu organismo. O estudante aprende a prescrever um medicamento para combater a reação do corpo ao alimento invasor. Se há reação a um alimento agressor, elimine-se a reação, não o alimento. Exterminar o agressor, no caso, o leite e os laticínios, para muitos médicos, ainda hoje, só em último caso, quer dizer, só quando há risco de o paciente morrer.  

Curiosamente, nos dois continentes nos quais o gado bovino foi domesticado há mais de dez mil anos, África e Ásia, as pessoas não se tornaram bovino-dependentes, nem galactômanas. Além de apresentarem os mais altos índices de intolerância à lactose, asiáticos e africanos criaram vacas Bos indicus, que não liberam em seu leite a betacasomorfina7, um peptídeo resultante da betacaseína A1, um fragmento proteico que não sofre digestão apropriada e entra na corrente sanguínea chegando ao cérebro e ligando-se aos receptores de opioides naturais desse. Essa pode ser a razão pela qual, mesmo criando gado bovino, africanos não se tornaram viciados em leite e laticínios, como o são os europeus e demais povos colonizados por esses, incluindo os brasileiros. A galactomania, na América, na Ásia, na Oceania e na África não é uma determinação natural. Ela existe por imposição cultural, racialista.

A genética que produz lactase após a formação da arcada dentária, típica dos caucasianos, foi considerada universal, quando na verdade apenas 20 a 30 por cento das pessoas ao redor do mundo mantêm a produção da lactase após a formação dos dentes. Porque parece fácil digerir leite bovino para pessoas com tal herança genética, essas pessoas, que colonizaram a África, altamente intolerante ao leite bovino, a América, altamente intolerante ao leite bovino e a Ásia, quase totalmente intolerante ao leite bovino, impõem a africanos, indígenas e asiáticos um alimento digerível apenas para 20 a 30 por cento delas. As demais, que não são a minoria e sim a maioria dos humanos, sofrem os desdobramentos da impossibilidade do seu organismo de digerir convenientemente os elementos que formam o leite bovino.  

Nenhum ser humano nasce predeterminado a ter que ingerir leite bovino para poder seguir seu desenvolvimento normal humano. Nenhum mamífero neste planeta nasce com atrofias em seu metabolismo, a ponto de só poder se desenvolver tomando o leite secretado pela glândula mamária da mãe de um animal de outra espécie. Essa atrofia não existe na natureza. Mas todos, aqui neste auditório e no resto do nosso país, com exceção dos que apresentaram intolerância e alergia ao leite desde muito cedo, e dos que nasceram em regiões onde não dá lucro criar vacas para usá-las como máquinas galactíferas, foram criados à base do leite bovino, como se o projeto metabólico do organismo humano houvesse fracassado nas populações dos continentes colonizados por eurocaucasianos. Se tal atrofia não existe no metabolismo humano, quer dizer, se o bebê humano pode se desenvolver plenamente com o leite materno humano, a galactomania é, então, uma construção cultural, existindo somente pela pressão do mercado e de todos os que o servem com seu trabalho, os sacerdotes da galactocracia, dos médicos e nutricionistas aos chefs e gourmets. Entretanto, a boa notícia é que se algo pôde ser construído socialmente, então pode ser desconstruído também socialmente. Estamos no tempo de desanimalizar nossa dieta.

Os povos mais numerosos do mundo, os africanos, os do Oriente Médio e os asiáticos,   que, juntos, formam cinquenta por cento dos sete bilhões de humanos espalhados ao redor do planeta, não tornaram suas dietas milenares dependentes do leite bovino. Entretanto, os povos influenciados pela dieta dos colonizadores europeus, tornaram-se galactômanos. A colonização europeia da América se deu com os homens pendurados nos tetos das vacas. Há algo no leite que permitiu que ele fosse ingerido mesmo contrariando uma reação natural quase esquecida de repulsa? O gado bovino europeu, da linhagem Bos taurus, libera no leite a proteína A1, cujos peptídeos betacasomorfinicos seguem o percurso sanguíneo, atingem o cérebro e o levam à adicção a esses elementos morfínicos que o leite das vacas da espécie Bos taurus contém em grande quantidade. Por essa razão refiro-me aos consumidores compulsivos e habituais do leite e laticínios como galactômanos.

A América e a Oceania foram invadidas e dominadas por europeus galactômanos. Os ingleses chegaram à África por volta do século XIV. Alguns povos criavam gado bovino, não para ingestão de leite puro, pois imperava a escassez, mas para produção de derivados fermentados, ingeridos em quantidade mínima. Na África, dominada pelos europeus, não houve uma introdução do gado Bos taurus. Eles mantinham seus rebanhos originais, Bos indicus. Hoje, os cruzamentos forçaram a existência do tipo de vacas europeias, trazidas para a América no século XVII, cujo leite produz grande quantidade da betacaseína A1 no organismo humano, com efeitos opiáceos não devidamente denunciados pela medicina que se pôs a serviço do agronegócio hegemônico desde a década de oitenta do século XX ao redor do mundo, prescrevendo o leite bovino como remédio para tudo que é tipo de desnutrição.

Mas, podem estar se perguntando: o que morfinas galactogênicas têm a ver comigo, com a filosofia e a ética?

Toda investigação ética tem o propósito de mostrar aos humanos que suas ações, mesmo fundadas na liberdade, podem ter consequências indesejáveis. Na ética tradicional, antropocêntrica, o critério do que é desejável se baseia no bem ou no mal que as ações podem acarretar para os próprios agentes humanos. Na ética animalista abolicionista, o círculo da moralidade alargou os limites tradicionais e incluiu os animais no âmbito da comunidade moral dos seres que os humanos devem considerar dignos de respeito à vida, ao bem-estar e ao próprio bem mental típico de cada espécie animal.

Ao indicar aos humanos que certas práticas, tradições ou convicções não podem mais ser consideradas louváveis, mesmo que sejam levadas a efeito por conta da liberdade humana, a ética questiona a liberdade, colocando-lhe um limite: se um ser humano é livre para fazer algo, então também é livre para não o fazer. A liberdade, na perspectiva ética, significa nada mais nada menos do que a possibilidade que se abre para uma ação ou uma abstenção. Por isso, na filosofia política, tratamos da liberdade em seus dois sentidos: a negativa e a positiva. A negativa é a liberdade limitada pelo dever de não invadir a liberdade alheia. A positiva é a limitada pelo direito frente a outros de levar adiante uma determinada ação, buscando o próprio bem ou o bem de uma coletividade.

Nesse sentido, a ética que propõe o fim de todo tipo de exploração animal, portanto a ética animalista abolicionista, pode ser considerada uma proposta abstencionista. Quer dizer: mesmo tendo poder e meios para explorar, abusar e matar animais em proveito próprio, o sujeito ético abolicionista vegano se abstém de todas essas ações de uso ou consumo de produtos que derivam da exploração e morte dos animais não-humanos.

Mas voltemos aos opioides galactogênicos e à ética. Se nossa dieta impõe ao cérebro de todas as crianças o consumo de opioides galactogênicos, tal dieta retira dessas crianças a liberdade de escolher o que comer e as condiciona a comerem, quando adultas, o que lhes foi imposto pelo vício desde a infância. A dieta padrão condiciona o cérebro humano a identificar nos alimentos de origem animal os nutrientes necessários ao organismo humano, privando as crianças do conhecimento de que esses nutrientes podem ser encontrados nos alimentos de origem vegetal.

A dieta padrão também omite das crianças que, para se obter carnes, laticínios e ovos, é preciso que os animais sejam mantidos prisioneiros nas instalações destinadas a recolher essas matérias alimentares. Ela também omite a dor e o sofrimento, inseparáveis do processo produtivo de alimentos animalizados em escala industrial. Uma dieta que mina a capacidade de raciocínio e elimina a liberdade de escolha do comedor infantil, adulto ou idoso não pode ser considerada ética. Esse ponto leva em conta o agente moral, não o resto dos sujeitos envolvidos na trama.

A extração do leite tem desdobramentos que precisam ser contabilizados e pregas que precisam ser alisadas para que possamos ver o cenário completo, não apenas focar o olho naquele líquido branquinho que sai da caixinha ou do saquinho, cegando-nos pelo teor rotineiro do gesto nunca antes questionado.

A liberdade é o fundamento da ética. Denominamos ética a ação praticada por um sujeito que se torna consciente de que suas ações podem trazer o bem ou o mal para os que forem afetados por elas, sem discriminar qualquer ser afetado, seja em função de sua espécie biológica ou de sua configuração exterior, portanto, sem especismo elitista ou eletivo. O critério da liberdade pode nos ajudar a compreender por que uma determinada prática, costume ou tradição deixam de ser considerados éticos. Se nossa ação implica em obter pela força algo de outro, à custa de sua vida, do bem que é próprio de sua natureza ou simplesmente à custa do bem-estar imediato desse organismo, então nossa ação é uma interferência na existência desse ser, em sua liberdade natural. Na ética antropocêntrica somente a liberdade dos humanos, conta. Na ética abolicionista animalista contam todos os seres que podem ter sua liberdade violentada por ações humanas que visem extrair deles algo em beneficio dos interesses humanos.

Discursos correntes entre os galactômanos  

O que as vacas têm a ver com a liberdade e a ética? Da perspectiva tradicional, vacas são tão importantes para um sujeito moral quanto o são seus demais bens materiais. Da perspectiva ética animalista, vacas são tão importantes para o sujeito moral quanto o são quaisquer outros seres capazes de sentir dor ou de sofrer, de terem sua existência violentada e de serem mortos para atender a interesses que não são delas e sim de quem as maneja para extrair delas o que secretam para alimentar seus bezerros.

Na interação humana com as vacas, o éthos ou natureza da vaca não é respeitado. Distorções de todo tipo, inclusive conceituais, são disseminadas entre os consumidores de leite e laticínios e os que fazem sua propaganda comercial. As duas mais comuns são: “a vaca nos dá o leite” (essa está em todos os livros infantis) e “para extrair o leite não se mata a vaca”.

“A vaca nos dá o seu leite”

Não é verdade que as vacas nos deem seu leite. O leite é extraído do corpo delas, à força. Atualmente essa extração é feita por meios eletromecânicos. Sem o bezerro ao pé, para que o leite saia do teto da vaca sem que o extrator desperdice tempo, é preciso que os esfíncteres dos tetos sejam abertos no momento em que o extrator quer fazer a ordenha. Para garantir que o interesse do extrator seja respeitado, o de obter o leite num tempo que represente ganhos, a engenharia inventou a ordenha eletromecânica a vácuo. A forma correta de expressar o processo é usar os termos “extração de leite a vácuo”.

O leite secretado pelas glândulas mamárias da vaca, ainda que hoje se extraiam delas dezenas de litros por dia (nos Estados Unidos há vacas premiadas das quais são extraídos 95 litros), não foi projetado pela natureza para alimentar seres de outras espécies. Naturalmente, o leite é constituído com a mais alta concentração de nutrientes presentes no sangue materno de todas as fêmeas mamíferas em gestação. Mas essa constituição, embora apresente em quase todos os leites características semelhantes, dá-se de modo também específico. Cada fêmea libera certa quantidade de açúcar, de gordura, de proteínas, de cálcio e outros minerais e vitaminas, na proporção exata em que o organismo do seu filho vai se desenvolvendo fora do útero. Cada espécie tem sua composição galactosa.

Para exemplificar, o leite da mulher tem uma proporção de proteínas e de cálcio três vezes menor do que o leite da vaca. Quando a mulher dá a seu bebê leite de vaca, está dando a ele 300% a mais de cálcio e de proteínas do que daria se o alimentasse com seu leite humano. Se a natureza houvesse previsto nos tornar dependentes de tanto cálcio e proteínas, que na verdade são desnecessários ao nosso desenvolvimento, ela nos teria feito nascer bezerros, não humanos. Seria delirante afirmar que o leite da mulher é deficiente em cálcio e proteínas, porque ele contém apenas 25% do que o de vaca contém desses dois elementos. Se as glândulas mamárias da mulher não secretam para seu bebê tamanha quantidade de cálcio nem de proteínas, é porque o organismo desse bebê não requer isso tudo. O do bezerro, ao contrário, não se desenvolveria sem esses teores.

O sangue alimenta o embrião e o feto até a ruptura do cordão umbilical. O nascimento implica a ruptura do canal de nutrição. Nascer animal, portanto, é ser brutalmente separado da fonte de provimento, assim que o período de desenvolvimento fetal está concluído. Sem o sangue materno para renovar e alimentar seus tecidos e sem os dentes para mastigar e desmanchar as matérias sólidas das quais aqueles nutrientes poderiam ser obtidos, o recém-nascido passa a receber externamente os nutrientes que antes lhes eram repassados umbilicalmente.

O leite é sangue branco, uma secreção necessária para garantir a sobrevivência do recém-nascido apenas nos primeiros meses do seu desenvolvimento extrauterino. Sugando o leite do corpo da mãe, o bebê mamífero aprende que é do ambiente externo que ele deve obter os nutrientes. Primeira lição para se tornar autônomo, capaz de prover-se e mais tarde prover os seus no ambiente natural da sua espécie. Essa autonomia digestória será atrofiada com a imposição do leite bovino, pois ela faz crer a todo mundo que sem ele ninguém pode ter saúde e sobreviver. Todos ficam atrelados aos tetos das vacas, mesmo tendo perfeitamente formada sua arcada dentária na primeira e depois na segunda infância.

Artifícios humanos levaram o organismo feminino bovino ao estágio atual, no qual não há mais liberdade para que o animal possa conduzir sua vida seguindo o éthos bovino que marcou a existência desses animais até 40 anos atrás. A liberdade das vacas não é levada em conta pelo sistema de extração industrial do leite. Das vacas, privadas da liberdade de prover-se e de prover seus filhos, tira-se o líquido branco, esse composto semelhante ao sangue delas, para vendê-lo a humanos suficientemente proteinizados, calcificados, adoçados e engordurados.

Para que os humanos possam acessar a glândula mamária das vacas, é preciso manejar sua rotina, fornecer ração desenhada para exceder o nível de calorias necessário à manutenção do metabolismo de preservação do organismo. É preciso manter essas vacas aprisionadas em espaços também desenhados para facilitar a extração do leite. Em 2009, o rebanho feminino bovino brasileiro estava na casa dos 22 milhões de animais. Dessas, nove milhões já estavam condenadas ao confinamento completo, outras nove milhões e meio, ao semiconfinamento e apenas três milhões e meio eram mantidas soltas em pastos.

Para manter animais em qualquer um dos sistemas de manejo adotados e garantir que a quantidade de leite extraído para venda cubra o custo dessa manutenção e dê lucro ao extrator, é preciso que a existência da vaca seja completamente controlada por ele. Com a vida completamente manejada em função de interesses alheios, definitivamente, não se pode dizer que “a vaca nos dá o seu leite”.

Do ponto de vista ético, a partir do momento em que um dos sujeitos da ação está submetido inteiramente a decisões que visam beneficiar quem as toma, sem considerar os interesses de quem será afetado por elas, a liberdade dos que estão submetidos a essas decisões deixou de ser considerada digna de respeito. O que conta, em qualquer sistema de extração de matérias animais, sejam elas extraídas do organismo ainda vivo, ou já morto, é o lucro obtido pelo extrator, não a vida, a existência, a liberdade ou o bem próprio do animal. Essa é a razão pela qual o manejo de animais, na concepção animalista abolicionista vegana, que voltaremos a abordar na Oitava Sessão, não pode ser considerado ético.

Se o manejo visasse assegurar o bem natural do animal, então já não seria manejo, seria uma intervenção humana na vida do animal para lhe devolver ou recompor a integridade ameaçada, sem qualquer pretensão de extrair dele algo para vender a consumidores indiferentes ao sofrimento desses animais. O sistema de extração de leite não foge à crítica.

“Tirar o leite não mata a vaca”          

O segundo lugar comum na linguagem dos galactômanos é a conhecida frase, “para tirar leite não é preciso matar as vacas”. Essa frase está na boca de todos os lactovegetarianos que conheço, está nos livros de iogues, nos textos budistas, judaicos e ambientalistas. Para extrair dezenas de litros de leite diários de uma vaca, seu organismo precisa ser transformado numa bomba galactífera. Os meios para isso são: alimentá-la com uma quantidade imensa de grãos e cereais; acrescentar muita água e forragens para forçar aquela matéria a ser digerida; medicar os animais, cujo sistema imunológico cai com a agressão alimentar; tratar com antibióticos as que se tornam vulneráveis a infecções nas mamas e nos cascos e com hormônios as que serão emprenhadas artificialmente.  Com esse manejo, não há organismo bovino feminino que resista muitos anos.

Depois de sofrer de duas a seis gestações, a vaca exaure. Os aditivos usados para mantê-la no ritmo produtivo, rentável para o extrator, tornam-se mais caros do que o rendimento obtido com a venda do leite empobrecido por pus, antibióticos, antiinflamatórios, hormônios, rações industriais e patógenos de todo tipo. Assim que a vaca cessa de secretar leite em quantidade e qualidade compensatórias, o extrator a coloca num caminhão para ser levada ao abatedouro no qual sofrerá a morte desenhada para qualquer bovino. A vida dessa vaca não foi nada prazerosa enquanto tiravam o leite dela. Também não o será sua morte.

Dizer que extrair leite não mata a vaca é, no mínimo, uma daquelas desinformações que apenas asseguram ao consumidor de laticínios o conforto moral de se saber bonzinho por não matar a vaca para tirar o leite dela. A verdade é que as vacas, todas as vacas, uma vez exauridas pela extração do leite, ou morrem subitamente de esgotamento nos currais e baias onde são confinadas (vacas caídas, que são moídas para virar ração de outros animais, ou mesmo das colegas de escravidão), ou são mortas no abatedouro tal qual qualquer outro bovino abatido para virar bife. A morte da vaca é tão certa e tão causada pela extração do leite quanto a morte do boi é certa e causada pela indústria que talha sua carne em bifes. A primeira diferença é que a carne da vaca vai virar carne moída e ser modelada em hambúrgueres, e a carne do boi, ou das outras vacas que não passaram quatro a seis anos nas baias de confinamento, nos cercados da extração do leite, vira bifes e churrascos apreciados por todos, excetuando-se os que já não mais aprovam a morte nem o corte de animais para alimentar humanos. A segunda diferença é que os bovinos mortos para bife vivem soltos e por menos de dois anos até o abate, enquanto a vaca usada para extração do leite suporta todo tipo de sofrimento por quatro a seis anos até ser morta.

Os gregos usam o termo díaita para designar modo de vida. Nós usamos o termo dieta para designar composições alimentares que têm limites ou restrições. Precisamos voltar a pensar no termo díaita como algo que engloba todos os aspectos da nossa vida, que inspire decisões éticas não-especistas, quer dizer, sem discriminar as espécies animais em tipos considerados dignos de respeito e tipos condenados ao tormento, à escravização e à morte.

Decisões éticas afetam positiva ou negativamente não apenas os outros seres humanos, mas também os animais e ecossistemas naturais. Se os interesses humanos são considerados dignos de respeito, porque não respeitá-los leva os humanos atingidos por nossas decisões à perda da qualidade de vida, ou até mesmo à perda da vida, então, todos os animais que se encontram na mesma condição de vulnerabilidade aos atos humanos devem ser incluídos no âmbito da consideração de seus interesses fundamentais: a vida, a liberdade e a qualidade específica de sua existência, sem sofrer interferências humanas.

[Para citar passagens deste texto use a referência completa disponível no rodapé. Obrigada]

FELIPE, Sônia T. Ética animalista. Palestra apresentada no Curso de Extensão: Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica. Florianópolis: UFSC, Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 3 de maio de 2013, das 18:45 às 21:30. 15 p. 

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