Ética da vida ou da senciência?

No planeta Terra, a vida aparece em mais de 10 milhões de espécies. Conhecidas, apenas algo em torno de 1 milhão. Nomeadas, estudadas e catalogadas, entre 200 e 300 mil. Boa parte das espécies vivas extintas voltará a aparecer, mas já não terão mais as mesmas características de suas ancestrais. E o tempo que precisarão para conseguir se formar pode chegar de 10 a 20 milhões de anos.

Impossível para nossa mente imaginar o tamanho desse tempo. É difícil imaginar o valor da vida de espécies extintas, pois custamos a associar qualquer valor à vida das que ainda estão aí. Por vezes chegamos a duvidar que a própria vida humana tenha algum valor. A evidência dessa dúvida está em que mantemos um ritmo de consumo que destrói a possibilidade de se viver bem. Se não nos importamos em destruir o que nos garante o bem, fica difícil afirmar que cremos no valor que esse bem pode ter para nós. Sem crença no valor, não há ética.

Kenneth E. Goodpaster, em seu artigo, “On being morally considerable” (Ser moralmente considerável) critica a moral tradicional por excluir de sua consideração de valor e devido respeito todos os animais e plantas, com o argumento de que não são dotados de razão, pensamento, linguagem e consciência. Para esse autor, o critério da consideração e do respeito moral não pode estar fundado em nenhuma habilidade mental exclusiva de humanos. Mesmo entre humanos, as capacidades mentais e psicológicas nem sempre estão bem desenvolvidas, o que nos leva a ter de admitir que nesses casos o respeito moral não precisaria ser tão profundo.

Nossas intuições morais nos dizem que tal graduação de valor moral não seria nada ética. Decidimos, então, quando se trata de seres humanos, que, independentemente de terem as habilidades consideradas paradigmáticas da mente humana, ou não, o respeito moral devido a eles não pode ter graus, isto é, não podemos respeitar mais a uns do que a outros em função de sua inteligência, capacidade de raciocínio, pensamento lógico, capacidade de expressão verbal e escrita, consciência, autoconsciência etc. Para Goodpaster, o único critério moral válido para orientar ações relativamente a animais e ecossistemas é o do respeito pelo que a vida representa para aquele que a vive: um bem por si mesma. Esse é o caso deles.

Peter Singer (Ética Prática), seguindo a tradição moral inaugurada por Humphry Primatt e por Jeremy Bentham no final do século XVIII na Inglaterra, elaborou um princípio ético para reordenar as ações morais com vistas a eliminar todo tipo de discriminação baseada na aparência exterior daqueles que sofrem as consequências de nossas ações morais: o princípio da igual consideração de interesses semelhantes. Seguindo tal princípio, se temos regras morais para lidar com a dor ou o sofrimento humanos, por exemplo, elas devem ser válidas para lidar com a dor e o sofrimento de qualquer ser. Simples de concluir. Difícil praticar. Implica abolir de nossos hábitos todos os produtos que resultam da exploração e morte de animais.

Esclarecidas as espécies de ser capazes da senciência, não resta à ética senão adotar a mesma regra definida para o caso humano. Em havendo um ser senciente que pode sofrer dor ou ter seu bem-estar físico ou mental destruído por uma ação humana, essa dor deve ser computada no cálculo que define se a ação deve ser praticada, ou não, e quais as razões que pesam para decidir-se que sim. Se ela não implica dor e sofrimento, e traz benefício para todos os envolvidos, então é moralmente justificável. Se implicar benefício para uns às custas do sofrimento de outros, então é moralmente indefensável.

Tanto a tese de Goodpaster, que defende a vida com bem próprio àquele que a vive, quanto a de Singer, que adota a senciência como critério redefinidor da ética contemporânea, acarretam desdobramentos bastante abrangentes para nossa vida. Se devemos incluir na comunidade moral todos os seres para os quais a vida é um bem próprio, mesmo que ninguém ache interessante viver naquele formato ou naquelas condições, e todos os seres que podem sentir dor e perder o bem-estar em função de ações que empreendemos em nome da busca por nosso próprio bem-estar e bem próprio ao viver, então estão excluídas do leque de nossas escolhas todas as ações que impliquem matar animais ou destruir os ambientes nos quais vivem sua vida boa em busca de algum benefício para nós. Desafiadoras essas propostas. Topa ser ético?

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.