Ética é sobre evitar prejudicar e buscar ajudar indivíduos. Não é sobre fazer o que é natural

Ética é sobre evitar prejudicar e buscar ajudar indivíduos. Não é sobre fazer o que é natural
Foto ilustrativa: Pixabay

Existem dois tipos principais de visões que são mantidas por quem defende que “lugar de animal selvagem é na natureza”:

(A) A visão de que “os animais selvagens devem ser mantidos na natureza porque lá é onde eles estarão melhor”

(B) A visão de que “os animais selvagens devem ser mantidos na natureza, mesmo se viver lá for pior para eles”.

Abaixo, vou apontar alguns problemas com ambas as visões. No final, defenderei uma terceira, que considero correta.

Na primeira, a meta é fazer o que for melhor para os animais, mas acredita-se que os animais selvagens estarão melhor na natureza. Infelizmente, essas pessoas estão enganadas quanto aos fatos. A situação típica dos animais que estão na natureza também é altamente negativa. Muitos dos danos dos quais padecem são resultados diretos ou indiretos de práticas humanas mas, ao contrário do que comumente se pensa, independentemente das ações humanas os processos naturais já os prejudicam em alto grau. São rotineiramente vítimas de desnutrição, fome e sede, doenças, lesões físicas, estresse psicológico, eventos meteorológicos hostis, desastres naturais, e conflitos interespecíficos, intraespecíficos e sexuais. Essas condições são a norma na natureza, não a exceção.

É claro, há casos nos quais os animais selvagens que estão fora da natureza estão em situação ainda pior do que na natureza. Entretanto, isso não é verdade em muitos casos. Além disso, a probabilidade de um animal sobreviver por muito tempo e ter um bem-estar positivo na natureza é muito pequena. Normalmente não percebemos isso porque tendemos a reparar naqueles poucos que sobrevivem.

Além disso, é preciso levar em conta que as pessoas têm uma tendência a fazer um cômputo arbitrário de danos e benefícios. Quem é a favor de que os animais selvagens fiquem na natureza pensará que citar um dano que o animal tiver fora da natureza (ou citar um benefício que o animal teria na natureza) já é suficiente para “provar” que o certo é que os animais fiquem na natureza. Não é assim que se faz um balanço honesto dos danos e benefícios. Em uma análise honesta, há que se levar em conta todos os danos e benefícios que o animal vai ter em cada uma das opções disponíveis, e não, escolher seletivamente os danos e benefícios de acordo com aquilo que já queremos provar de antemão.

Já a segunda visão reconhece que os animais selvagens terão vidas repletas de sofrimento e uma morte prematura, lenta e dolorosa na natureza. Entretanto, defende que é isso mesmo que deve ser feito. Diferentemente da primeira visão, a segunda não almeja o que é melhor para os animais. Defenderá coisas como “o que é certo é fazer o que for natural” ou “o certo é cada tipo de animal ficar no seu território”, mesmo que isso implique em ainda mais sofrimento e mortes prematuras.

Essa segunda visão está bem informada sobre como serão as vidas dos animais na natureza. Portanto, não faz sentido criticá-la quanto ao que ela diz sobre os fatos.

Tal visão sabe o quão ruim é a vida na natureza. Entretanto, ainda assim é possível criticá-la em outro ponto: o princípio moral do qual ela parte é altamente questionável, em muitos pontos. Vejamos os principais:

(1) É tendencioso. Os proponentes dessa visão defendem que o certo é deixar a natureza seguir o seu curso, mesmo que isso resulte em ainda mais sofrimento e mortes prematuras. Entretanto, isso é algo que defendem apenas quando as vítimas são os animais não humanos. Ninguém defende isso para si próprio. Para si próprio, o que todo mundo quer é ver-se livre da dor e sofrimento e ter uma vida longa e feliz. Mas, se é assim, então tal visão não passa no teste da imparcialidade, pois ninguém a defenderia como justa se houvesse a possibilidade de sermos suas vítimas. É, portanto, tendenciosa, arbitrária. Falando em português bem claro: é uma visão do tipo “pimenta no cu dos outros é refresco”.

(2) A visão em questão assume que a ação correta não tem nada a ver com aquilo que prejudica ou beneficia os indivíduos. Em vez disso, defende que o certo é fazer o que é natural, mesmo que isso resulte em algo pior para os indivíduos. Ao fazerem isso, assumem que existe uma “esfera de fatos éticos” que é independente de como os indivíduos são afetados positiva ou negativamente. Entretanto, para essa visão ser minimamente plausível teria que ser demonstrado: (1) que essa esfera de fatos éticos independentes realmente existe e que (2) essa esfera elege como critério de ação correta “fazer o que for natural”. Até que provem isso, temos fortes razões para manter que a ação correta consiste em evitar prejudicar e buscar beneficiar os indivíduos. Ética é sobre evitar prejudicar e buscar ajudar indivíduos. Não é sobre fazer o que é natural.

Resumindo: temos fortes razões para buscar aquilo que for melhor para os indivíduos, e isso inclui o que for melhor para os animais selvagens, mas temos também fortes razões para acreditar que nem sempre o melhor é que fiquem na natureza (aliás, em inúmeros casos, ficar na natureza é bem pior).

Por Luciano Carlos Cunha