Ética holística

Na perspectiva holista, totalidades organizadas são consideradas constituídas de valor por manterem sua ordem a partir de fins próprios. O que as torna valiosas é o fato de que existem por si mesmas, independentemente de servirem, ou não, a fins externos ou alheios. Na ética ambiental, Aldo Leopold (The Sand County Almanac, 1949) foi o primeiro a declarar que o valor da natureza se dá pela inter-relação de todas as formas de vida, e a perda de tal valor, pela destruição ou dano ao todo. Fundada nessa concepção nasce a chamada ecologia profunda, bem representada na teoria de Baird Callicott.

Uma ética holista pode ser elaborada tendo-se a perspectiva do valor da vida de todas as espécies, vegetais, animais e de outros tipos, normalmente considerados pela ética antropocêntrica sem qualquer dignidade moral. Para a ética holista, o que importa é estabelecer princípios morais que possam orientar as ações humanas tendo por finalidade a preservação do todo da vida, animal e vegetal.

A questão, no entanto, conforme pontuada por Marti Kheel (Nature Ethics: An Ecofeminist Perspective, 2008), é que julgar o valor moral de algo vivo por sua capacidade de tramar-se com outras coisas, de gerar dependência, de criar vínculo, pode nos levar a erros morais. Muitos dos malefícios sofridos pelos seres vivos devem-se à capacidade que certas práticas de mercado e hábitos (ethos) de consumo têm de se tramarem absolutamente com quase todas as nossas decisões, desde a escolha do que colocamos no prato a cada refeição, até a escolha do que colocamos em nossos carrinhos quando buscamos alimentos e produtos de higiene entre gôndolas de supermercados, passando pelas escolhas que (não) fazemos quando adquirimos produtos básicos necessários à manutenção do nosso modo de vida (lâmpadas, celulares, CD’s, canetas, papel etc.).

Se o sistema de produção industrializado encontra formas de acumular lucros oferecendo certos produtos aos consumidores, e encontra (ou cria) nestes a demanda equivalente para dar vazão ao que é produzido, tal sistema, por sua capacidade de envolver tudo e todos, deveria ser considerado moralmente bom, se adotássemos a perspectiva holista totalitarista de que o que sabe tramar-se e interligar-se num todo tem valor moral e deve ser preservado. Se, por um lado, a ética não pode sucumbir a esse conceito holista, por outro, não pode julgar seus próprios fundamentos abrindo mão absolutamente de qualquer perspectiva holista.

O valor da vida, humana, animal, vegetal e de qualquer outro tipo, não pode ser calculado pela capacidade que cada uma delas tem de ajudar a manter o todo. Poder enredar tudo não é sinônimo de preciosidade, muito menos de moralidade. Quando animais são fabricados num sistema de produção e abate que causa danos totais à vida deles, considerando-se que, no sistema de confinamento, são forçados a nascerem mesmo que para eles não esteja prevista a liberdade de viver a vida que sua espécie lhe propiciaria, essa produção está vinculada ao sistema de mercado que os consumidores dessas mercadorias (carne, leite, ovos, lã, seda, mel, couro, peles, graxas etc.) fomentam. O sistema que produz animais como se fossem objetos para uso e consumo humano é um sistema capaz de enredar todas as iniciativas individuais (ethos) de consumo.

Os veganos sentem claramente o quanto é difícil viver seguindo o princípio ético da não violência (ahimsa, na tradição ayurvédica e budista) contra os animais e a natureza. Quando precisam adquirir um produto, raramente obtêm algo que não tenha sido fabricado com dano, dor e morte de animais.

É preciso ter cuidado quando se dá ênfase à capacidade de alguma coisa de tramar-se num todo, pois essa capacidade pode não ser moralmente boa. Há relações humanas de dependência emocional, sexual, econômica, por exemplo, que retratam a natureza do vínculo amoroso como um vínculo que abarca todas as esferas da vida, na parceria. Relações totalitárias também podem ser cultivadas com a pressuposição de que tem valor apenas aquilo que é capaz de agregar-se a um todo, diluir-se nesse todo, fomentar o todo. Éticos não holistas temem que a diluição do valor de um indivíduo no valor da totalidade da relação na qual está tramado seja o melhor caminho para o estabelecimento do domínio e da servidão. Conforme bem o lembra Marti Kheel, o senhor e o escravo também estão tão interligados que a quebra de um dos elos representa o fim da relação. O caso é que uma relação de domínio humano sobre todas as formas de vida é uma relação de senhorio sobre elas. Os humanos conseguiram enredar a natureza inteira em sua forma de vida, estabelecendo uma relação holista totalitária com ela. Mas esse tipo de capacidade não traduz o sentido moral de igualdade que a ética visa preservar. Há, portanto, um holismo totalitário e outro igualitário ou libertário, algo a ser considerado quando se defendem direitos animais e ambientais na perspectiva abolicionista.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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