Eu visitei o “Templo do Tigre” na Tailândia e isso me enojou

Eu visitei o “Templo do Tigre” na Tailândia e isso me enojou

Por Britt Collins / Tradução de Pâmela Miler

Quando o controverso “Tiger Temple” (Templo do Tigre) foi invadido na Tailândia em 30 de maio, após as descobertas sombrias de  filhotes congelados e carcaças de tigres e ursos, fiquei aliviada que ele foi finalmente fechado. Já em dezembro de 2007, meu marido e eu fomos lá pensando que era um santuário. Um templo budista, onde monges caminhavam com tigres e visitantes brincavam com os filhotes, o que soou como um sonho. Depois de uma longa viagem de ônibus desde Bangkok, nós caminhamos através de um campo de relva alta, arrastando nossas malas no calor do meio-dia. Dentro de minutos, um rapaz em uma motocicleta surgiu da floresta e nos guiou, um após o outro, ao interior do templo.

O  site do mosteiro afirmava que os tigres eram “criados com compaixão pelas mãos dos monges.” Conforme a história, o templo levou seu primeiro filhote de tigre em 1999, depois de caçadores terem matado sua mãe. Em breve, mais órfãos chegaram e o “santuário” cresceu. Ao entrar no templo, disseram as regras para abordar os tigres e assinamos um documento liberando os monges de qualquer responsabilidade caso fôssemos feridos ou atacados. Tornou-se evidente que o lugar era uma farsa, um tipo de jardim zoológico de beira de estrada.

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Meu coração afundou quando vi tigres amarrados às árvores. Vimos fileiras de gaiolas de concreto encharcadas de urina e com quatro ou cinco tigres. Alguns tinham olhos vermelhos e cicatrizes e tinham medo de seres humanos, mas não havia lugar para eles se esconderem. Entre eles estavam outros animais com aparência igualmente triste como leões, leopardos e ursos, e também enfrentando uma vida de sofrimento.

Antes que pudéssemos tirar fotografias, a equipe levou-nos de volta com os outros visitantes ao terraço, onde os monges trouxeram os filhotes de tigres. Eles eram bem pequenos e foram afastados de suas mães muito cedo (em estado selvagem, as mães ficam com eles até os 2 anos de idade). Foi arrasador ouvir os filhotes guinchando enquanto eles eram passados ao redor do grupo como bonecas de pano.

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A chegada do abade, um homem baixo, idoso, com a cabeça raspada e um rosto severo, sinalizou que era o momento para o passeio dos tigres. Ele tinha um walkie-talkie saindo das suas vestes amarelas. Os monges caminhavam com os tigres nas correntes, encorajando todos a tocá-los e tirar fotos – a um custo extra – tudo sob o pretexto de conservação. Eu me senti enojada vendo esses seres magníficos escravizados, enquanto desfilavam entre os turistas. Tendo passado a minha vida cercada de animais, muitos dos quais tinham sido abandonados ou maltratados, eu podia ver que os tigres estavam com medo dos monges e seus manipuladores.

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Em seguida, os monges e os tigres desapareceram. Não muito tempo depois, a multidão foi levada por um cânion numa pedreira abandonada. Todos os tigres – os mesmos da caminhada que apenas momentos atrás estavam vivendo e urinando em árvores – foram deitados quase sem vida, acorrentados ao chão de modo que não podiam levantar-se.

Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, eu fui arrastada para ter minha foto tirada com um tigre. “Você drogou estes tigres?” Eu perguntei, irritada. Comecei a discutir com os monges na frente de um ônibus cheio de turistas. Um grupo de californianos juntou-se, gritando: “Eles estão, obviamente, drogados. Olhe para eles, eles estão semimortos”. Os monges e seus seguidores, com hostilidade mal disfarçada, insistiram que os felinos ficaram com sono porque estava muito quente.

Eu me voluntariei em santuários ao redor do mundo, onde havia desde leões, babuínos e outros animais selvagens na Namíbia até morcegos frutívoros na Austrália, e nunca vi nada parecido com o Tiger Temple, que foi um show de horrores. Durante o meu tempo lá, eu vi a equipe tailandesa chutando e batendo com varas nos tigres quando os animais frustrados se recusavam a cooperar, e filhotes barulhentos sendo golpeados no rosto e arrastados por suas caudas.

Havia outros animais passeando pelos jardins – veados, vacas, camelos, cabras, porcos e pavões – e alguns estavam doentes, magros ou coxos. Apenas o búfalo parecia satisfeito, provavelmente porque os monges não haviam encontrado maneiras de explorá-lo. Deparei-me com um cervo com um casco rasgado cambaleando em um toco cru e sangrento. Ele desistiu e caiu pelas escadas do templo. Fiquei chateada ao ver o perigo óbvio e procurei o voluntário canadense, que nos tinha conduzido na motocicleta, para ajudar. “Nós deixamos os animais serem animais”, ele deu de ombros. “Os budistas não interferem na natureza.”

“Não”, eu rebati, “eles simplesmente prendem, drogam e os torturam.”

Em linha com o discurso da organização, ele disse que os tigres tinham uma ligação espiritual com os monges e os filhotes eram levados ao templo para tomar café com eles. Para provar seu ponto que os animais tinham liberdade para viver (e se reproduzir) naturalmente, o voluntário acrescentou que a área foi invadida por porcos selvagens. “Se for esse o caso, por que não há mais bebês tigres?”

“Os monges venderam para a China”, meu marido zombava dele, sem saber do presságio que suas palavras traziam.

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Quando perguntei por que eles não castravam os porcos, ele disse que era contra os princípios budistas. Pelo contrário, os leitões foram enviados para fazendeiros e, sem dúvida, abatidos.

Deixando o local chateada e com raiva, eu me queixei para a  World Animal Protection (Proteção Animal Mundial, anteriormente chamada WSPA), o  International Fund for Animal Welfare (Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal – IFAW) e a PETA, e mais tarde descobri a controvérsia girando em torno do lugar. Ao longo dos anos, os antigos trabalhadores, voluntários e ativistas queixaram-se sobre o  ritual de abuso e humilhação dos tigres e filhotes. Havia maus tratos, tigres desaparecidos e as investigações em curso sobre tráfico ilegal de animais silvestres, mas os monges persistentemente negavam tudo e continuavam a ter sua licença renovada.

Durante anos depois eu me perguntava por que um grupo de monges budistas estava escondido em uma floresta com tigres selvagens. Agora eu não consigo parar de pensar se os tigres que conheci ainda estão vivos. Infelizmente, o Tiger Temple não é o único chamado de “santuário” na Tailândia ou Sudeste Asiático, onde os animais selvagens são torturados para entretenimento. Qualquer pessoa que realmente se preocupa com os animais nunca deve apoiar estas armadilhas para turistas.

Alguns dos lugares mais cruéis na Tailândia incluem o Tiger Kingdom, o Safari World de Bangkok e o  Oasis Sea World em Chantaburi. Evite locais onde os animais selvagens realizam atos não naturais e nunca monte num elefante – eles são geralmente arrancados de suas families e espancados até a submissão.

Para visitar ou se voluntariar em um santuário genuíno na Tailândia, verifique alguns dos melhores: Elephant Nature Park, Boon Lott’s Elephant Sanctuary e Wildlife Friends Foundation Thailand, que opera vários refúgios excelentes.

Você pode seguir a autora, Britt Collins, no Twitter e no Instagram.

Fonte: The Dodo

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