EUA: 50.000 animais prestes a serem brutalmente sacrificados nas ruas de New York

EUA: 50.000 animais prestes a serem brutalmente sacrificados nas ruas de New York

Por Ameena Schelling / Tradução Alice Wehrle Gomide

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O festival Yom Kippur está logo ali – e dezenas de milhares de galinhas estão prestes a serem sacrificadas em um ritual extremamente controverso.

“É um festival de crueldade”, Karen Davis, presidente do United Poultry Concerns (UPC), disse ao The Dodo.

ATENÇÃO: imagens fortes abaixo.

Na prática do kaparot, os suplicantes giram uma galinha viva em volta de suas cabeças três vezes enquanto recitam uma oração que se traduz em: “Esta é a minha troca, este é meu substituto, esta é minha expiação. Esta galinha deverá ser morta e eu deverei seguir com uma vida boa e longa, e paz”. A galinha então é morta e, tradicionalmente, doada aos pobres.

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Não são muitos judeus que praticam o kaparot, e uma quantidade menor ainda usa uma galinha viva, já que um saco de dinheiro também é uma alternativa aceita. Mas a prática tem gerado um intenso escrutínio, tanto de dentro da comunidade judaica como fora, particularmente em lugares como Brooklyn e Bronz, onde há uma quantidade maior de praticantes.

“Eu já fiquei lá fora na rua com estas aves”, disse Davis, que testemunhou o evento em New York nos últimos anos e estará na cidade para protestar no domingo e na segunda-feira. “É simplesmente um horror. As aves estão famintas, elas estão desidratadas, não são alimentadas… e os praticantes simplesmente as pegam das gaiolas e as giram e entoam sobre como eles estão transferindo seus pecados para a galinha”.

Galinhas esperam para serem abatidas em Williamsburg, Brooklyn, em 2011.

“E então acontece este massacre em massa, ilegalmente, nas ruas”, ela acrescentou.

Apesar do cântico, a prática é qualquer coisa menos pacífica para as aves. Elas começam suas vidas em apertadas gaiolas em fazendas criadoras, então são carregadas em caminhões lotados pelos milhares – 50,000 somente para Manhattan, de acordo com Davis. Elas não recebem comida ou água durante a viagem, e então são deixadas na calçada enquanto passam mais dias esperando, sem nenhum cuidado ou abrigo.

“Elas estão lá agora”, Davis disse. “E elas estão apenas sentadas ali, em lotadas gaiolas de transporte. Elas não têm nenhuma comida ou água. Elas não podem nem se mexer”.

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Quando o kaparot começa, os participantes pegam as galinhas dobrando suas asas atrás de suas costas, e segurando firme, as giram rapidamente pelas asas – um método que Davis disse ser absolutamente excruciante para as aves.

“É terrivelmente doloroso, ferindo potencialmente as aves”, Davis disse. “Você está olhando uma ave ser segurada pelas suas asas, e isso sozinho já é uma das coisas mais cruéis que você pode fazer”.

Elas então são entregues para açougueiros que estão lá esperando, que abatem os animais na frente da multidão – enchendo as ruas de sangue e penas, e fazendo com que alguns residentes de Manhattam tenham que lidar com a macabra cena de sacrifício animal na frente de suas casas.

Uma ave grita enquanto é pega pela suas asas em Borough Park, Brooklyn, em 2011.

Jeffrey Cohan, diretor executivo do Jewish Vegetarians of North America (JVNA – Vegetarianos Judeus da América do Norte), disse ao The Dodo que seu grupo prefere se focar em assuntos mais importantes, como fazendas de criação para abate e o consumo global de galinhas, no qual o kaparot é “somente um minúsculo pedaço”.

Mas ele acrescentou que se opõe à prática, o qual ele vê como uma violação da lei judaica; o princípio de tza’ar ba’alei chayim restringe os judeus de causarem sofrimento aos animais, ele explica.

“Usando as galinhas no kaparot descaradamente viola esses ensinamentos”, ele disse.

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Cohan adicionou que quando o kaparot foi primeiramente estabelecido, as pessoas estavam criando galinhas em seus próprios quintais, então, o sofrimento dos animais era limitado antes de serem girados e mortos. Mas hoje, com a quantidade de fazendas de criação, a prática se tornou inaceitável.

“A cerimônia é um legado de uma época diferente, de uma época passada”, ele disse. “As galinhas não eram transportadas sem comida nem água como acontece hoje. Não que fosse um costume bom, mas é muito pior hoje”.

Ele também está preocupado que, aos olhos de muitas pessoas, uma prática marginal que a maioria dos judeus rejeita pode começar a ser associada com a religião como um todo.

“É uma vergonha para a nossa religião que a grande mídia ame fazer imagens das cerimônias kaparot”, ele disse. “É lamentável, porque isso não é o Judaísmo, e é lamentável que existam judeus usando galinhas no kaparot”.

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Cohan não está sozinho. Há um grande número de pessoas lutando para acabar com a prática, tanto da perspectiva judaica como do bem-estar animal. Davis disse que o UPC está envolvido por cerca de 20 anos, desde que eles começaram a receber ligações de alguns “muito perturbados” residentes de Brooklyn e Bronx que haviam testemunhado os animais enjaulados e famintos nas suas próprias ruas.

Em 2010, Davis, que não é judia, fundou a Alliance to End Chickens as Kaporos (Aliança para Acabar com o uso de Galinhas como Kaparot), para focar em acabar com essa prática desumana.

“Nós temos o apoio da comunidade judaica”, ela disse. “A comunidade judaica odeia isso. As únicas pessoas que gostam são as que estão fazendo isso. Os Rabinos estão cada vez mais falando sobre isso”.

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Um dos maiores passos aconteceu este ano, quando a Alliance entrou com uma ação judicial na Suprema Corte de New York, pedindo para ser emitida uma liminar contra os participantes, alegando que a prática era uma “perturbação de ordem pública”, que enchia as ruas com penas, fezes e espetáculos macabros. No dia 14 de setembro um juiz estadual rejeitou o caso, dizendo que era responsabilidade dos oficiais municipais a regulação sanitária.

“Esta decisão prova que nós não podemos ser tocados”, um judeu hassidista celebrou naquele momento, de acordo com o The New York Post.

Davis disse que ela tem certeza que seu time jurídico provou que a prática era uma perturbação de ordem pública e um risco para a saúde, mas que é difícil lutar contra um grupo que possui “influência política” e está protegido pelas idéias de liberdade religiosa.

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Ela acrescentou que as pessoas estão relutantes em acabar com isso porque há dinheiro a ser ganho pelos organizadores. Os praticantes pagam por cada ave que eles usam, e as galinhas podem ser vendidas com uma margem de lucro bem maior do que a alternativa, um saco de dinheiro.

Também é difícil porque as pessoas estão ligadas ao costume, apesar de não ser exigido pela lei judaica, ela disse. Em 2009, o Rabino Shea Hecht, filho de uma das pessoas que foi responsável por espalhar o kaparot em Manhattan, disse ao noticiário NPR que ele gostou da sensação visceral e sagrada de segurar um animal segundos antes de ele morrer.

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“A principal parte do serviço é entregar a galinha ao açougueiro e ver a galinha ser abatida”, ele contou. “Porque é aí quando você tem um momento emocional, onde você diz, ‘Opa, quer saber? Esse poderia ter sido eu’.”

A Alliance irá continuar sua luta contra o uso das galinhas no kaparot – Davis disse que o grupo não tem problema com a prática “contanto que sejam usados vegetais ou objetos inanimados”, e os processos judiciais serão retomados no fim de outubro.

Mas por agora, Davis está focada neste fim de semana, quando ela estará entre as galinhas que irão morrer, e tentando fazer qualquer diferença possível.

“Ficar em pé naquela rua, você está ouvindo galinhas gritando, você está ouvindo bebês chorando”, Davis disse. “É um caos. É um pesadelo. É como se fosse um olhar concentrado em tudo o que está errado com o modo como os humanos se relacionam com o mundo vivo”.

Um grupo de galinhas resgatadas do kapparot aproveita sua nova vida no And-Hof Animal Sanctuary em Catskill, New York.

Você pode saber mais e fazer uma doação à Alliance acessando http://www.endchickensaskaporos.com/.

Fonte: The Dodo

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