EUA: Escândalo ‘Monkeygate’ na Flórida inicia investigação de abuso em fazendas de criação

EUA: Escândalo ‘Monkeygate’ na Flórida inicia investigação de abuso em fazendas de criação

Vídeo de ativistas dos direitos animais da organização Peta que supostamente mostra abuso de primatas motiva relatório sobre “trauma, dor, lesões e estresse” entre macacos.

Por Richard Luscombe / Tradução de Thaís Torres

EUA Florida videomacacos

Em um quieto terreno rural do sul da Flórida, onde o rendimento da terra ultrapassa de longe os bolsos dos turistas, uma indústria passou quase despercebida, apesar de estar no ranking daqueles com mais dólares ao longo dos últimos 15 anos.

Mas agora, existe uma disputa entre uma barulhenta tropa de macacos temperamentais. De repente, há problemas em um campo que uma vez foi feliz. Em um escândalo que ficou conhecido localmente como Monkeygate (Portal dos Macacos), as autoridades federais e distritais estão olhando para as fazendas de criação de macaco no condado de Hendry. Eles não gostam do que veem.

Até hoje a criação de macacos tem sido um negócio lucrativo, ainda que discreto, em uma região mais conhecida por seus abundantes pomares cítricos. Funcionários do condado tem recebido de braços abertos as empresas que produzem e vendem os macacos de cauda longa para pesquisa. Com três grandes fazendas em operação e aprovação pendente para a quarta, Hendry é um líder mundial no comércio especializado.

Mas o recente surgimento de um vídeo filmado por ativistas de direitos animais em uma das fazendas – que pretendia mostrar trabalhadores abusando fisicamente os macacos e outros primatas com ferimentos incluindo cóccix expostos – é apenas o último de uma série de projetos desde o final do ano passado que ameaçaram a expansão dessas fazendas.

O vídeo, filmado por um ativista da Peta (People for the Ethical Treatment ofAnimals), solicitava, no mês passado, uma inspeção da fazenda Primate Products Inc, pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Um relatório condenatório destacava “traumas, dores, lesões e estresse” sofridos pelos macacos.

Após isso, abriu-se um processo contra Hendry pelo Fundo de Defesa Legal Animal, que alega que as instalações foram aprovadas sem as audiências públicas necessárias; um inquérito em curso pelo município sobre as alegadas violações do código por parte das empresas, incluindo a que conduziu experimentos proibidos sobre os macacos; e uma reação pública crescente como a de residentes vizinhos que desconheciam o funcionamento da indústria.

“Há pessoas a duas milhas da fazenda que não tinham idéia do que estava acontecendo lá”, disse Madeleine Doran, um dos líderes de um movimento de oposição cada vez mais presente cujos membros realizaram vários protestos e aproveitaram as redes sociais para deixar a sua mensagem.

“Agora, com as ações judiciais e as inspeções, todo mundo está ciente disso. Queremos um fim imediato para a importação de macacos para o condado de Hendry e, finalmente, nós gostaríamos de ver todas as instalações fechadas”.

Doran acredita que o inquérito lançado para o condado de Hendry é apenas “uma cortina de fumaça” para dar a impressão de que ele está levando a sério as queixas.

“O que é preocupante é o segredo que envolve tudo isso”, disse ela. “O município tem nos colocado uma parede de pedra e não irá responder a quaisquer perguntas sobre o assunto.”

Em uma declaração para o Guardian, um porta-voz do condado de Hendry confirmou que estava procurando violações de uso da terra e que estava à espera de documentos solicitados pelo comitê de Conservação da Vida Selvagem e Pesca da Flórida e pela USDA.

“No momento, não temos qualquer indicação de um prazo para os documentos solicitados. Assim que o condado de Hendry receber os referidos documentos, uma revisão completa vai ser feita e uma determinação será emitida”, disse o comunicado.

Perguntado se isso significava que Hendry não foi tão acolhedor para a indústria como era antes, o porta-voz disse: “O condado de Hendry tem sido consistente em nossa mensagem: Nós estamos atrás dos direitos oferecidos aos nossos proprietários de imóveis”.
Para Doran, os grupos de direitos dos animais e os milhares que assinaram uma petição protestando contra a expansão da indústria também lutam por um fim ao que eles veem como um comércio bárbaro, o conselho está arrastando seus calcanhares.

Justin Goodman, diretor do departamento de investigações laboratoriais da Peta, destacou que os inspetores do USDA se movimentaram rapidamente para exigir uma ação do Primate Products para corrigir as violações do bem-estar animal. Uma cena particularmente angustiante no vídeo do grupo mostra um trabalhador segurando um macaco de cabeça para baixo por sua cauda enquanto ele usa um dedo para empurrar o prolapso do reto do animal de volta, outras cenas mostram os funcionários puxando macacos por suas caudas com força para as cercas e outros primatas encolhidos no canto de gaiolas sujas.

“Os cidadãos e a liderança de Hendry estão sendo explorados por empresas que trazem um comércio cruel e riscos de saúde para a sua área”, disse Goodman. “Essas empresas procuram comunidades com baixa tributação, ou aquelas que são bastante rurais e não sabem direito quem estão recebendo”.

“Aqui temos a maior concentração de fazendas de macaco no mundo. Eles não têm lugar no condado de Hendry e não têm lugar no século 21, queremos vê-los todos fechados”.

A ação contra o município está em curso. Em novembro, o Fundo de Defesa Legal Animal com sede na Califórnia (ALDF) apresentou uma queixa no tribunal da Flórida alegando que Hendry aprovou um criatório primata operado por uma empresa chamada SoFlo Ag em uma reunião a portas fechadas, em violação da chamada lei luz do sol.

Em maio, o grupo emendou a ação para adicionar o nome da empresa Bioculture, registrada nas Ilhas Mauritius, alegando que também foi uma beneficiária da aprovação secreta para expandir as terras de propriedade de uma empresa chamada Panther Tracts que já abriga Primate Products e mais de 3.000 macacos.

O ALDF, que quer ambas as licenças revogadas, diz que as fazendas representam um risco significativo para a saúde e para a comunidade local porque os macacos podem transportar o vírus Ebola, tuberculose e a herpes B.

“Macacos exóticos escaparam e os resíduos produzidos por milhares de animais na propriedade Panther Tracts também pode danificar o frágil ecossistema do Big Cypress National Preserve, que já está lutando com uma invasão de pítons birmanesas não-nativas”, disse a porta-voz Megan ALDF Backus.

Jeff Rowell, o presidente do Primate Products, disse esperar uma multa após a inspeção da USDA e que a sua empresa estava tomando medidas para corrigir as violações.

“Eu não posso simplesmente cruzar os braços”, disse ele em uma entrevista para a News-Press. “Eu sou responsável perante os meus clientes, eu sou responsável para o condado e eu sou responsável perante o público”.

“A maior consequência é a perda de confiança pública. Isto é muito mais difícil de recuperar, mas estamos determinados a tentar.”
Rowell admitiu que estava “chocado” com o tratamento de alguns dos macacos no vídeo da Peta, mas alegou que algumas das outras cenas eram injustas.

“Eles filmaram às 7h30 da manhã, em seguida, eles afirmam que os animais estão vivendo em condições imundas”, disse ele. “Claro que a gaiola está ruim às 7h30 da manhã. Confie em mim, essas gaiolas são limpas todos os dias. É tudo questão de contexto. “

Para Doran, no entanto, o vídeo mostra exatamente o tipo de questões que os manifestantes se queixam.

“Ele está dizendo que não nega nada disso”, disse ela. “Desejamos que o USDA venha e confisque todos os macacos. O que está acontecendo aqui é obsceno”.

Fonte: The Guardian 

Nota do Olhar Animal: Testes com animais implicam em maus-tratos. E mesmo que hipoteticamente não implicassem, qualquer tipo de exploração dos animais sempre será um abuso. 

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