EUA: Ex-funcionária de Wall Street escancara as portas secretas da pecuária

EUA: Ex-funcionária de Wall Street escancara as portas secretas da pecuária

Por Elisabeth Buff / Tradução de Ana Lidia

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Investigações secretas revelando o horror dos abusos nas fazendas industriais tornaram-se, infelizmente, lugar comum entre as indústrias de agronegócio. A indústria está desesperada para manter os consumidores alheios ao que se passa por detrás de suas portas fechadas.

Após se formar na faculdade, a autora Sonia Faruqi trabalhou em um banco de investimentos em Wall Street. Quando a economia mergulhou na crise, ela perdeu o emprego e, para espairecer, decidiu ser voluntária em uma fazenda de laticínios orgânicos. O que ela viu lá a levou a uma viagem nos mais profundos e obscuros recantos da agroindústria animal. Sonia conheceu e fez amizade com cultivadores, executivos e funcionários de matadouros no Canadá, Estados Unidos, Indonésia, Malásia, Belize e uma série de outros países. O que ela viu e ouviu tem o potencial de balançar a indústria de agronegócio e mudar o modo como as pessoas encaram os produtos com que se alimentam.

Olhando o sistema geral do agronegócio animal em todo mundo, as observações de Sonia traçam uma dura imagem desta indústria em ascensão. Levando o leitor ao exato local donde suas refeições e produtos provêm, o novo livro de Sonia, “Projeto Animal Farm: Uma viagem acidental ao secreto mundo das fazendas e a verdade sobre nossa comida” nos faz questionar nossas percepções sobre estas indústrias.

As Fazendas de Laticínios Orgânicos

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A jornada de Sonia começou como uma breve viagem como voluntária a uma fazenda de laticínios orgânicos no Canadá. Ela esperava ver o que a maioria das pessoa espera quando pensam em uma fazenda de produtos orgânicos: Animais felizes caminhando pelos campos verdejantes com seus filhotes ao lado. O que ela viu revelou que as fazendas de produtos orgânicos eram apenas um pouco melhores que as similares não orgânicas e, certamente, não era nenhum conto de fadas.

Nesta fazenda de produtos orgânicos, as vacas eram acorrentadas pelo pescoço a seus currais, impossibilitando que elas se movimentassem muito. Elas ficavam atoladas em suas próprias fezes e rotineiramente eram inseminadas artificialmente, para que continuassem a produzir leite. Era-lhes permitido pastar ao ar livre apenas a quantidade suficiente de dias para que seu leite fosse qualificado como orgânico, e nem um dia mais. Muitos de seus bezerros eram levados logo após o nascimento para se tornarem vitelos.

Sonia conta ao “One Green Planet” que estes bezerros eram confinados isoladamente em pequenas jaulas, tendo apenas moscas como amigas. A experiência de Sonia nesta fazenda abriu seus olhos para a triste realidade dos animais do agronegócio, enviando-a pelo mundo afora à procura de soluções.

As fazendas de produção de ovos

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Na sequência, Sonia conseguiu entrar em uma fazenda produtora de ovos, ao fazer amizade com seu do. Lá, ela viu fileiras e mais fileiras de gaiolas empilhadas, cheias de galinhas doentes e depenadas, que “eram inteiramente rosadas e depenadas no peito, no dorso, e principalmente, no pescoço. Sem quase nenhuma pena, o pescoço era assustadoramente magro.” Nem um raio de sol entrava nos galpões que mantinham aquelas galinhas, e a poeira e o cheiro de amônia eram sufocantes.

Decepcionada, Sonia viu esse o mesmo modelo de produção de ovos ser repetido na Malásia, Singapura, México e Belize, mostrando que o método de fazenda industrial da agricultura está rapidamente se disseminando em todo o globo.

As fazendas de peru criados soltos

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Quando chegou à fazenda de criação de perus, que anunciava seus produtos como “provenientes de animais criados soltos”, Sonia esperava ver uma fazenda onde os perus passassem a vida soltos ao ar livre. Ela ficou chocada ao descobrir que, em uma fazenda canadense, os perus, literalmente, não punham o pé para fora um único dia de suas curtas vidas. Apesar disso, suas carnes eram vendidas pelo alto preço dos “produtos provenientes de animais criados soltos.”

Além disso, estes perus tinham os bicos e as garras serradas, do mesmo modo que seus primos das granjas tradicionais. Disse um fazendeiro: “A maioria das fazendas de produtos provenientes de animais soltos é mentira. A maioria dos fazendeiros dessas fazendas dá a seus perus e galinhas uma pequena área suja. E tão pequena que nem os insetos têm interesse nela. É tudo uma farsa.”

Fazenda Industrial de Porcos

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Nas fazendas industriais de porcos no Canadá e na Malásia, Sonia se confrontou com fileiras de porcas confinadas em apertadas celas metálicas de gestação. Muitas, nitidamente, ficaram loucas pelo intenso confinamento. “A porcas gestantes insurgiam-se pela vida, mordendo as barras de suas celas, batendo suas cabeças contra elas e gritando.”

Corte de calda e a castração eram, rotineiramente, realizados em leitões sem qualquer tipo de analgésico; antibióticos eram administrados no intuito de promover o rápido crescimento e neutralizar os efeitos do ambiente sujo e estressante.

Assim como as vacas da fazenda de laticínios que Sonia viu, estas porcas eram repetidamente inseminadas artificialmente a fim de gerarem mais leitões e, ainda assim, nunca lhes era permitido criar seus filhotes. “Porcos estão entre os animais mais inteligentes,” observa Sonia, “porém, entre os mais maltratados .”

Fazendas tradicionais

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Embora a maioria das viagens de Sonia a tenha levado a fazendas industriais, ela também visitou muitas fazendas que hoje seriam consideradas como “de menor porte”, fazendas de economia familiar. Em Vermont e Belize, por exemplo, ela viu fazendas onde os animais tinham nomes, sendo-lhes permitido agir de acordo com seus instintos básicos, tais como a autolimpeza e reflexo de procura (amamentação espontânea), passando maior parte de suas vidas ao ar livre, em busca de comida e pastagem.

“As galinhas precisam se mover, elas precisam andar, é por isso que elas têm pernas”, apontou um fazendeiro menonita de Belize. Apesar desses animais estarem destinados a serem sacrificados, suas vidas eram absolutamente superiores às daqueles criados nas fazendas industriais.

Matadouros

A viagem de Sonia também a conduziu a um lugar que a maioria das pessoas tenta esquecer que existe: o matadouro. Em um amplo e cinza edifício, Sonia testemunhou as péssimas condições dos animais que aguardavam o abate. Eles eram comprimidos uns contra os outros, faltando-lhes água e comida. Mais marcante, eles estavam aterrorizados. “Se você soubesse que ia morrer,” disse um funcionário do matadouro a Sonia, “você não ficaria apavorada?” As ovelhas e os cabritos que Sonia viu serem sacrificados naquele dia tinham um bom motivo para estarem com medo, uma vez que suas mortes foram violentas e cruéis.

Os animais não são os únicos que sofrem com o resultado do aumento da demanda da agroindústria animal. Sonia descobriu que vários trabalhadores estavam estressados, eram rotineiramente feridos, e sentiam-se presos ao trabalho, apesar do claro desejo abandoná-lo.

Um funcionário disse, “Meu trabalho é muito violento. Eu grito com animais o dia inteiro. Eu os empurro. Mato-os. Não me faz bem. Mas não posso mudar de trabalho; eu não sei fazer outro tipo de trabalho… Eu tinha muitos pesadelos quando eu comecei a matar.”

Exposição dos segredos obscuros da indústria e exigência de mudanças

Através de sua jornada, Sonia Faruqi é capaz de apresentar os leitores aos animais e às pessoas por detrás das fazendas industriais, fazendas de produtos orgânicos, granjas de animais criados soltos, fazendas tradicionais e matadouros pelo mundo afora. Ela encontrou o caminho para essa indústria simplesmente pedindo e fazendo amigos, o que a permitiu ter um acesso sem precedentes à indústria ultrassecreta. O que ela encontrou foi um sistema quebrado, que sobrevive com sigilo e engodo ao consumidor. É um sistema que, claramente, não funciona para os animais ou para as pessoas que são vítimas dele, nem para os consumidores que, cada vez mais, ficam debilitados e doentes como resultado dos produtos dessas indústrias.

É um sistema que tem que mudar.

Embora a mudança sistemática tenha limites para ajudar aqueles animais que sofrem, nós todos temos o poder de derrubar completamente o sistema, recusando-nos a dele participar. Uma vez que nós somos fortalecidos pelo conhecimento do que acontece com os animais antes de eles virem para nossas mesas, nós podemos fazer decisões melhores – uma delas sendo a escolha #EatForThePlanet, retirando os produtos animais de nossas dietas de uma vez.

Apoiado por Peter Singer, Gene Baur, Wayne Pacelle, e outros tantos, “Projeto Animal Farm: Uma viagem acidental ao secreto mundo das fazendas e a verdade sobre nossa comida” está preparado para escancarar as portas da indústria secreta de agronegócio animal e criar uma apelo para uma mudança duradoura.

Fonte: One Green Planet

Nota do Olhar Animal: As medidas de bem-estar, mesmo que fossem eficazes (e não o são) não desqualificam a exploração animal como um abuso (que difere de maus-tratos). Assassinar animais, mesmo se isto hipoteticamente ocorresse mediante o uso de anestesia geral, seria um abuso. Assim como seria um abuso assassinar pessoas, ainda que usando este mesmo recurso para que não sofressem. A questão não é só o sofrimento ou a crueldade. A questão é também a violação do direito fundamental dos animais não humanos, garantido moralmente pela senciência, de desfrutarem suas vidas, de terem respeitados seus interesses próprios. O sistema de exploração animal não precisa ser reformulado. Ele precisa, sim, ser banido.

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