EUA: Processo contra o SeaWorld alega que orcas são drogadas e confinadas em ‘tanques químicos’

EUA: Processo contra o SeaWorld alega que orcas são drogadas e confinadas em ‘tanques químicos’

O processo é o segundo em três semanas a acusar o parque marítimo por tratamento abusivo das ‘baleias assassinas’ e demanda que todos os visitantes nos últimos quatro anos sejam reembolsados.

Tradução de Ana Lidia

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Uma nova ação coletiva foi ajuizada contra o SeaWorld, na Flórida, acusando o parque marítimo de manter as ‘baleias assassinas’ das apresentações drogadas e sofrendo com queimaduras de sol nos tanques que equivalem a ‘banheiras de produtos químicos’, levando à morte prematura dos mamíferos inteligentes.

Joyce Kuhl, uma senhora da Carolina do Sul, está processando o SeaWorld Center em Orlando para reaver seu dinheiro após a visita em 2013 – e para também para reembolsar o valor do ingresso aos milhões de outros visitantes – através de uma ação coletiva federal que poderia custar ao parque bilhões de dólares, de acordo com o jornal local Orlando Sentinel.

É a segunda vez que o SeaWorld é processado, em menos de três semanas, depois que um processo de ação coletiva semelhante foi ajuizadoo no mês passado, na Califórnia, alegando que a empresa vem enganando o público ao afirmar que suas “baleias assassinas de cativeiro, ou orcas, estão felizes e prósperas”.

A ação tem como alvo Califórnia todos as três instalações do SeaWorld, em San Diego (Califórnia); San Antonio (Texas) e Orlando (Flórida), ao passo que a ação ajuizada por Kuhl se dirige exclusivamente ao parque da Flórida.

As ações são o mais recente golpe para o SeaWorld, que tem estado sob uma saraivada de críticas do público, parte dos acionistas, órgãos regulatórios e grupos de bem-estar animal, desde que um de seus treinadores foi morto por uma orca macho, em 2010; bem como posteriores alegações de maus-tratos constantes das baleias, no documentário Blackfish de 2013 – o que é negado pela empresa.

Kuhl entrou com ação no Tribunal Federal em Orlando na quinta-feira, acusando a empresa de engendrar uma ilusão da ‘mágica1’ do convívio homem-baleia, que atuam em harmonia no parque marítimo, “o que mascara a verdade nua e crua sobre a vida insalubre e desesperadora dessas baleias.”

Kuhl, antiga residente de Gainesville, na Flórida, e que, atualmente, vive em Aiken, na Carolina do Sul, visitou o SeaWorld de Orlando em dezembro 2013, tendo pago U$97,00 pelo ingresso. Na ação ajuizada na quinta-feira, por meio de advogado

baseado em Gainesville, Paul Rothstein, ela acusa o SeaWorld de lucrar milhões de dólares por meio de práticas de negócio falsas, enganosas e desonestas.

Kuhl se recusou a falar ao jornal The Guardian e encaminhou as perguntas para Paul Rothstein.

Rothstein contou ao Guardian que Kuhl não é uma ativista pelos direitos dos animais, mas sim uma “simples adoradora dos animais”, tendo tomado ciência de tais informações após visitar o Parque Aquático, as quais considerou “inconsistentes” com o marketing da empresa.

“Ela não teria comprado o ingresso se soubesse, na época, o que ela descobriu depois” – Disse.

A ação de Kuhl elenca uma lista de alegações de maus-tratos às orcas no parque em Orlando.

Ela pleiteia o reembolso de todos os visitantes ao longos dos últimos quatro anos do SeaWorld da Flórida, correspondente ao prazo prescricional da ação, nos termos da lei estadual.

Se for procedente a ação, isso representaria um montante de pelo menos U$ 2 bilhões. Os preços são cobrados por meio de uma escala, porém o bilhete normal custa em torno de U$ 100 por pessoa. O SeaWorld da Flórida recebe pouco mais de 5 milhões de visitantes por ano, de acordo com a ação judicial.

O documento público acusa o SeaWorld de manter as baleias em tanques que, comparados ao mar aberto onde ela diz que as baleias nadam regularmente 100 milhas por dias, é como viver confinado a um único cômodo por toda a vida.

A ação destaca soluções de cloro, “muitas vezes mais fortes que alvejantes usados em casa” e outros produtos químicos que são dissolvidos na água onde as baleias são confinadas, após serem apanhadas ou terem procriado, o que faz com que os olhos dos treinadores queimem, forçando as pessoas a ficarem fora d’água às vezes.

“A orca, claro, não tem esse alívio,” estabelece a inicial. “Estas orcas sofrem em apertadas banheiras químicas artificiais”.

Kuhl também acusa o SeaWorld de manter, por várias horas ao dia, as orcas em piscinas rasas, de 2,5 metros de profundidade, sob o sol escaldante, “basicamente assando”, a ponto de elas ficarem tão queimadas, que eles têm que disfarçar as lesões pintando os mamíferos com óxido de zinco preto.

Por vezes, as orcas são treinadas para as apresentações, por meio de privação de comida, durante vários dias ou mesmo semanas, alega a ação, “quando o estímulo positivo falha”.

A ação de Kuhl detalha a procriação forçada e incestuosa, além de manterem a baleias

juntas de modo a torná-las super agressivas, a ponto delas lutarem e causarem cortes profundos umas às outras.

Ela detalha que as baleias, em decorrência do tédio, frustração e cansaço, batem a cabeça contra seus tanques e rangem os dentes nas paredes, pisos e barras até os dentes se quebrarem, ou serem gastos até a raiz.

Ela aponta, além disso, que as orcas no ambiente selvagem não regurgitam a comida, como regularmente o fazem no SeaWorld, revelando sua frustração e causando riscos à saúde.

“Há tempos, o SeaWorld tem conhecimento da situação, porém, aceita este comportamento anormal (e até desesperado) das orcas… é o preço pago por esta forma de entretenimento e lucro da empresa”, dizem os documentos judiciais.

Em um comunicado, o SeaWorld comenta sobre a ação prévia movida na Califórnia, que a empresa está entre as instituições zoológicas mais respeitadas do mundo.

Acrescenta que “regularmente é inspecionada pelo Governo dos Estados Unidos e duas associações zoológicas”. Recentemente, a Associação dos Zoológicos e Aquários conferiu ao SeaWorld reconhecimento pela comissão independente de certificação. “Não há prioridade maior para o SeaWorld, do que a saúde e o bem-estar de seus animais”, diz o comunicado.

Na sexta-feira, o SeaWorld disse que “está empenhada em todos os aspectos da saúde e do bem-estar dos animais que estão sob nossos cuidados” e disse que o processo “parece ser uma tentativa por parte de defensores extremistas dos direitos dos animais de usar os tribunais para alavancar uma discussão anti-zoo”.

“A ação é sem fundamento, recheada de inexatidão e o SeaWorld pretende defender-se contra essas alegações imprecisas.”

A ação de Kuhl aponta que, em meio selvagem, as orcas vivem, em média, de 30 a 50 anos, podendo, frequentemente, chegarem aos 80 ou mais. No SeaWorld, a maioria das orcas morre no período entre a sua adolescência e os 20 anos de idade, conforme alega.

Aponta a ação judicial que os funcionários do SeaWorld administram nas orcas drogas antiácidas, com forma de alívio de úlceras estomacais, antibióticos e contraceptivos.

“Talvez, o mais revelador seja que as orcas criadas em cativeiro são drogadas pelos funcionários do SeaWorld com medicamentos antipsicóticos e psicoativos, incluindo benzodiazepinas, tais como Diazepam (Valium genérico), que lhes são dadas com intuito de acalmar as orcas que reagem contra as condições de confinamento”, estabelece o processo.

Fonte: The Guardian

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