Exigem cardápio vegano em instituições públicas do Chile

Exigem cardápio vegano em instituições públicas do Chile
Fabián Vargas ll Agencia Uno

Frente à inexistência de dados oficiais, se torna difícil a identificação do movimento vegano no Chile. Não obstante, é fato a crescente adesão que este estilo de vida vem somando desde o final da década passada.

Segundo um estudo realizado pela Universidade do Desenvolvimento, os seguidores desta corrente têm em média 24 anos e suas motivações raras vezes se relacionam com a saúde (7,5%), enquanto predomina a defesa dos direitos animais (74%). O que significa dizer que por trás desta determinação existe uma ideologia que a motiva.

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Partindo deste contexto nasceu “Meu Cardápio Vegano”, um projeto de lei que busca gerar alternativas sem ingredientes de origem animal em uma alimentação ofertada pelo Estado nas diversas entidades públicas como escolas, hospitais, penitenciárias, entre outros.

O incentivador desta ideia tem sido a Animal Libre, organização não governamental que busca o respeito e a consideração moral com os animais. Em entrevista com La Nación, o presidente da ONG, Mauricio Serrano, explica este ambicioso projeto: “Promovemos o veganismo em função de ter um impacto positivo nos animais e faz dois anos que decidimos buscar instâncias a curto e médio prazo com impacto direto, então muitos jovens nos apresentaram suas inquietudes pela inexistência de uma opção vegetariana ou vegana em sua escola e se viam prejudicados porque não tinham o que comer. Estamos trabalhando em um projeto de lei que permita resolver a problemática destes jovens, além de levar esta iniciativa a todas as entidades públicas”, comenta.

Por que o Estado deveria assumir responsabilidade por uma opção minoritária?

O Estado e a Constituição devem garantir o direito que cada pessoa tem de levar uma alimentação de acordo com seus princípios. Aqui há um grupo importante que está crescendo e que não está recebendo uma alimentação adequada, algo que é um direito básico.

Veganos protestan por menu Vegetariano

E mais, Serrano infla o peito na hora de mencionar queo projeto está sendo feito em conjunto com instituições governamentais como a Junta Nacional de Auxílio Escolar e Bolsas de Estudo(JUNAE) e o Instituto Nacional da Juventude(Injuv). “Estamos trabalhando com a JUNAE em relação às diferentes formas que possuem os jovens de se alimentar, abrangendo temáticas de saúde e também éticas. Além disso, o projeto é apoiado pelo Injuv e pela Secretaria de Educação de Santiago para fazer pesquisas a respeito de que tipo de alimentação a juventude faz”.

Mas o apoio não termina aí, pois deputados como Camila Vallejo, Karol Cariolae Vlado Mirosevic fecharam com a iniciativa e desde 2015 instalaram o debate no Congresso apostando na transformação do “Meu CardápioVegano” em lei.

Este tipo de apoio era impensado tempos atrás, o que mudou?

Tem sido um trabalho bastante intenso para romper diversos preconceitos em relação ao veganismo. A princípio, quando começamos a informar a população éramos taxados de terroristas, extremistas, grupos de fanáticos… então era um desconhecimento total do que é o veganismo e que agora, com base em um trabalho de bons argumentos, sério, profissional e constante, podemos ir rompendo estes preconceitos com autoridades e instituições que são bastante significativas para nossa luta. Como foi dito, um parlamentar estar apoiando uma iniciativa de cardápioveganoera impensado até três ou quatro anos atrás, e acreditamos queisto seguirá avançando porque demonstramos que não somos os terroristas que pensavam.

A revolução dos “sem carne”

A Animal Libre, entre outras organizações similares, tem se caracterizado por suas fortes intervenções públicas onde muitas vezes exibe animais mortos ou representações deles com a finalidade de criar consciência nos cidadãos.

A respeito disso, Serrano defende a forma de manifestação: “Nós temos tido um enfoque de mostrar a realidade em que vivem os animais em distintos centros de exploração, e essa realidade é bastante crua, especialmente para uma pessoa que não possui maior conhecimento sobre os processos e somente recebe um produto embalado que mais tarde colocará na boca. Então, obviamente o impacto vai ser notório, mas porque a morte em matadouros assim o é, mas as pessoas que se aproximam de nós o fazem com interesse em questionar-sesobre seus hábitos, gerar uma reflexão, comparar o que sabiam com o que sabem agora para chegar, em muitos casos, a uma nova conclusão”.

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O fundador da Animal Libre assegura que suas diferentes campanhas têm permitido gerar uma verdadeira revolução dos “sem carne”, onde não somente somam simpatizantes, mas também levam a sociedade a satisfazer suas necessidades. “É questão de caminhar pela rua e dar-nos conta que cada vez existem mais locais simpáticos ao vegetarianismo, incluindo empresas que estão fabricando produtos veganos como iogurte, leite, embutidos… Empresas cujo enfoque era trabalhar com produtos de origem animal têm tido que mudar diante destas novas necessidades e exigências. Isto era impensável, mas graças ao trabalho da sociedade se fez realidade, pois para que pudessem chegar a estes novos locais e produtos teve que haver uma importante demanda que influenciou o mercado”, afirma.

Desconstruindo os mitos

Existem muitos mitos em torno de uma dieta sem produtos de origem animal. Desde problemas de saúde, dificuldades físicas até seu alto custo, o veganismo tem sido desprestigiado e catalogado como um estilo de vida negativo. Sem dúvida, a Animal Libre assegura que isso é somente falta de informação.

Alto custo: Existem vários prejuízos em torno da alimentação vegana e um deles é o custo, mas não, a verdade é que podemos ter acesso todos os nutrientes necessários e a uma comida deliciosa com produtos de muito baixo custo. As feiras livres nos abastecem com uma gama de alternativas deliciosas e desconhecidas pela população, porque a maioria não sabe, por exemplo, que com as lentilhas podemos fazer um hambúrguer. Todos fazem um caldo, uma sopa de lentilhas, que com o tempo enjoa. Mas há muita variedade.

Dificuldade em repor nutrientes: Temos um departamento de nutrição formado por cinco profissionais, com eles elaboramos vários menus e em cada são utilizados os nutrientes necessários e essenciais para levar uma alimentação saudável. Temos um amplo campo de pratos que estamos apresentando e que cumprem com todos os aspectos de proteínas necessárias, cálcio, ferro, etc. O ponto fundamental que tocamos é a nutrição, para assegurarmos que não exista nenhuma problemática com os menus de alimentos 100% veganos, cumprindo com todos os aspectos nutricionais requeridos, especialmente pelos jovens que estão em pleno processo de crescimento.

O que diria aos médicos que asseguram que o veganismo não é saudável?

Existem muitos profissionais que não estão atualizados com as informações que têm sido repassadas por importantes associações de saúde. De fato, há pouco tempo houve um congresso de médicos onde houve o impulsionamento da criação de políticas públicas nos Estados Unidos para deixar o consumo de carne, porque existe evidência científica que esta causa muitas doenças para as pessoas. Então, o convite é de atualizar-se, informar-se e dar-se conta de que cada vez mais há evidência de que não existe problema em nenhuma etapa da vida para levar uma alimentação 100% vegana.

Por Hermes Domínguez Vásquez / Tradução de Nelson Paim

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