Fábrica de filhotes de cachorros e de maus-tratos funciona em área nobre de Brasília

Fábrica de filhotes de cachorros e de maus-tratos funciona em área nobre de Brasília

Canil do Jardim Botânico está na mira de grupos protetores de animais. Eles denunciam que os animais são criados em gaiolas, sem higiene e que cães deformados são “descartados”.

Por Carlos Carone

DF brasilia cachorromaustratos 840x577

Os latidos são ouvidos antes que o portão de ferro seja aberto. À primeira vista, a casa ainda inacabada parece comum, como qualquer outra erguida nos condomínios fechados do Jardim Botânico, em terrenos onde cachorros correm pelos gramados ou guardam o patrimônio de seus tutores. No entanto, escondidos nos fundos do lote, cães estão confinados em gaiolas, na escuridão, sujos e sem cuidados, vítimas de maus-tratos. Eles estão em um canil onde a produção em massa de filhotes de raça faz o negócio prosperar. O espaço, batizado de Solar de Brasília, é registrado no Kennel Clube, e está na mira de grupos protetores de animais.

Agentes da Delegacia de Meio Ambiente (Dema) chegaram ao local no início da tarde desta segunda-feira (21/12) para apurar as denúncias. A Agência de Fiscalização (Agefis) também interditou o canil.

DF brasilia 14591226 5dc9 4632 a589 712d70b389dd e1450712537665

Segundo as denúncias, o cheiro forte das fezes e urina que se acumulam debaixo das gaiolas. A criação dá lugar a um teste de sobrevivência. Os que morrem ou adoecem são descartados, jogados fora, segundo acusam os defensores dos animais. Sem controle, o local se tornou uma “fábrica de filhotes”.

Dezenas de cães da mesma família acabam amontoados em pequenas baias de concreto e arame, conforme revelam as imagens. Como resultado, o cruzamento destes animais acaba gerando filhotes deformados, sem patas ou olhos. Como se os pequenos cães tivessem sido mutilados, acusam os grupos protetores de animais. Os que não servem para a venda, são dispensados.

Assista ao vídeo da denúncia contra o canil:

Os que se salvam são “escoados”, como se diz na gíria dos vendedores. Feiras livres, como a que ocorre todo fim de semana na Feira dos Importados, são usadas como canal para vender os animais. Quem passa pelo estacionamento quando os cães estão expostos sequer imagina o que há por trás deste comércio. Perfumados e devidamente penteados, os filhotes passam por uma transformação para serem vendidos. Mas a ilusão acaba dias depois. Doentes e com o sistema imunológico enfraquecido, acabam morrendo.

Aprisionados

A água suja e a escassez de comida transformam a sobrevivência dos cães em um golpe de sorte. As doenças provocadas pelo excesso de moscas e carrapatos reduzem – ainda mais – a chance de sobrevivência. Cômodos da casa onde funciona o canil servem como ambientes de confinamento. Existem filhotes dentro de caixas de papelão e gaiolas espalhados por todos os cantos. O Metrópoles esteve no local. Em um período de uma hora, a reportagem contou 115 animais, entre adultos e filhotes.

DF brasilia 161215RF canil clandestino 001 1 1024x768 

Nem os banheiros da residência deixam de abrigar os animais. Em um deles, uma caixa com filhotes permanecia ao lado de um vaso sanitário. Praticamente nascidos e sobrevivendo dentro das gaiolas, as patas dos bichos ficam deformadas por conta dos arames em que são obrigados a pisar até serem vendidos.

Pelo menos oito baias de concreto foram construídas nos fundos do terreno. Até oito cães dividem os espaço com cerca de três metros quadrados. Algumas das estruturas não possuem coberturas. Os animais ficam sob sol e chuva, sem proteção qualquer proteção.

Só o lucro importa

O canil funciona em uma residência do condomínio Solar de Brasília, nome que batiza o negócio. Possui uma estrutura precária para manter cães adultos e filhotes de raças nobres. Alguns chegam a custar R$ 6 mil, como é o caso de uma fêmea de Buldogue Inglês. Ela vive em um dos cubículos de concreto cercado por telas erguida nos fundos do quintal. Ela divide a baia com outros cães de pequeno porte.

A dona do canil, uma mulher de 70 anos, fala dos animais como mercadorias. No local, o dinheiro fala mais alto, não importa a procedência de quem compra os bichos. “Aqui é tudo à vista. Mesmo os cães que não estão à venda têm um preço. Aquele ali é raro, vendo por R$ 2,2 mil”, disse a mulher, apontando para uma fêmea da raça Shih Tzu de cor chocolate e focinho vermelho – características raras de serem encontradas na raça.

A proprietária se gaba de ser uma das poucas criadoras da raça West Highland White Terrier no DF. Os filhotes são vendidos por R$ 2,2 mil. “Esse não existe em Goiânia, por exemplo. Pessoas viajam até aqui para comprar”, conta.

Durante o tempo em que a reportagem passou no local, foi possível ver uma série de raças de alto padrão, consideradas caras no mercado de animais de estimação. Eram adultos e filhotes de Maltês, York Shire, Lulu da Palmerânia, além de West Highland White Terrier e Shih Tzu. Todos cães vendidos por valores entre R$ 1,5 mil e R$ 6 mil.

Marcas profundas

O canil foi denunciado por um grupo de protetores de animais que costuma resgatar cães vítimas de maus-tratos ou que são simplesmente abandonados. A mulher, que pediu para não se identificar, conta que os filhotes nascidos em canis como este carregam marcas para toda a vida. Isso quando conseguem sobreviver.

Como resultado da ação destes canis, temos animais frágeis, com problemas neurológicos, oculares e doenças sanguíneas. São cães que mal conseguem andar, que jamais tiveram a chance de pisar em uma grama ou tiveram contato saudável com humanos.”

Integrante de grupo de proteção dos animais

De acordo com a diretora-geral do ProAnima, Simone de Lima, canis como o do Solar de Brasília apostam em raças pequenas e sofisticadas. São animais com um custo benefício maior porque comem pouco e custam caro. Mesmo assim, os cães sofrem maus-tratos para aumentar a margem de lucro dos ditos criadores.

“Toda falta de cuidados resulta em animais com problemas, que poderão apresentar desvios comportamentais e irão exigir um cuidado veterinário muito maior do que a pessoa que o comprou estaria disposta a dar. E, então, após a compra, é bem provável que o animal continue a ter suas necessidades ignoradas, seja abandonado, enviado para um abrigo ou sacrificado”, explica.

O Metrópoles ligou para a proprietária do canil para repercutir com ela as denúncias, mas ela não atendeu as ligações. Em um dos celulares foi deixado recado na Caixa Postal.

DF brasilia 161215RF canil clandestino 002

DF brasilia 161215RF canil clandestino 003 e1450698600700

DF brasilia 161215RF canil clandestino 004

DF brasilia 161215RF canil clandestino 005

DF brasilia 161215RF canil clandestino 006

DF brasilia 161215RF canil clandestino 007

Fonte: Metrópoles 

Nota do Olhar Animal: Quem compra animais trata-os da mesma forma que quem os vende: como coisas, por os considerarem passiveis de serem mercantilizados. Quem compra é cúmplice desta atividade que tantos danos traz aos animais. Do ponto de vista ético, não há que “separar o joio do trigo”, como gostam de dizer os criadores. Todos são joio, criadores e compradores, por perpetuarem a exploração, por desconsiderarem os interesses dos animais. Veja os danos causado pela criação de cães “de raça” no artigo ‘Você faz questão de um cão de raça? pense duas vezes…‘ 

Mais notícias

{module [427]}

{module [425]}

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.