Famintos e machucados: cães agonizam em Tiradentes (MG) e protetores pedem ajuda

Famintos e machucados: cães agonizam em Tiradentes (MG) e protetores pedem ajuda
Os animais estão desnutridos e machucados (MMDA/Divulgação)

Um caso cercado de absurdos coloca em risco a vida de dezenas de cachorros. Eles se encontram machucados, famintos e em situação de abandono na cidade de Tiradentes, na região Central de Minas Gerais. São em média de 60 a 80 cães, não castrados, filhotes, adultos, idosos, grávidas e doentes; Mesmo com conhecimento das autoridades municipais, nenhuma ação foi tomada em defesa deles e o caso foi parar no MPMG (Ministério Público de Minas Gerais). Por meio de nota, a Prefeitura da cidade explica que cedeu auxílio para resolver a situação e que irá atuar junto a protetores a partir de agora, além de anunciar a construção de um canil (veja na íntegra ao fim do texto)

“Tem duas cadelas que vão parir esses dias e estão juntas com machos muito bravos e já aconteceu de as cadelas terem dado cria e os filhotes terem servido de alimento para outros cachorros. Está grave demais”, conta ao BHAZ Luanda Conrado, presidente da Compat (Comissão de Proteção Animal) de Tiradentes. “Mesmo com a nossa ajuda, tem alguns cães lá debilitadas, pelo fato deles brigarem muito, principalmente os machos. Eles estão com a carinha toda machucada de cicatriz de dente, tem uns que aparentemente estão com problemas de pele muito sérios, como dermatite”, revela.

A situação dos cãezinhos chegou ao conhecimento das autoridades municipais, que optaram por não agir. “Fui na prefeitura, fui nos vereadores, eles falam que não podem fazer nada. Nenhum vereador, prefeito, tem interesse na causa animal. A Combat está sendo fuzilada pela prefeitura de tudo quanto é forma”, lamenta.

Os cachorros estão com graves ferimentos (MMDA/Divulgação)

Os cãezinhos estão sozinhos desde a metade do mês, quando um casal de idosos, que resgatava os animais de rua, foi despejado pela proprietária da casa. Conforme relatam os protetores, contudo o problema começou bem antes, com a prefeitura. Os animais resgatados chegaram ao bairro Águas Santas – onde viviam os idosos – por meio de um caminhão de lixo do executivo municipal, que recolhia os cachorros abandonados na cidade e os despejava no bairro mais periférico de Tiradentes. A prática aconteceu durante muitos anos.

A situação comoveu o casal de idosos, que mesmo com a saúde já fragilizada, acolheu, durante 20 anos, as dezenas de cachorros despejados na rua. Com a saída forçada do casal, que não conseguiu levar os animais para a nova moradia, os cachorros ficaram sozinhos, sem alimentação, sem água, e sem nenhum cuidado da proprietária e do município, dentro da residência. Os protetores pedem por ajuda, já que os animais precisam de um lar, mesmo que temporário, de ração e medicamentos (veja abaixo como ajudar).

Origem

A origem do problema se deu há anos. “O casal de idade avançada, segundo relatos, começou a resgatar animais que eram desovados pelo caminhão de lixo. O caminhão recolhia os cães que estavam espalhados pela cidade e desovavam no bairro de Águas Santas”, explica ao BHAZ Adriana Araújo, coordenadora do MMDA (Movimento Mineiro pelos Direitos Animais), que começou a auxiliar os protetores municipais no caso.

O cenário gerou uma acumulação de animais. “O senhor se compadecia, os acolhia e os abrigava, mas o casal não tinha condições de cuidar de todos os cachorros. Não há como precisar com exatidão a quantidade, mas acredita-se que casal adotou, em média, 60 a 80 cães, ao longo de vinte anos”, diz.

Em dezembro do ano passado, a Compat organizou uma castração de animais na cidade. “Existe um lei municipal, desde 2017, que prevê castrações gratuitas, vacina, ração e insumos veterinários, mas eles não cumprem nada. A última castração, de 260 animais, eu organizei com a ONG Ajuda e precisei pagar do meu bolso. Eu pedi para a prefeitura, mas não quiseram me ajudar”, revela a presidente da comissão.

A escada está coberta de sangue (MMDA/Divulgação)

O casal, no entanto, não permitiu o procedimento. “Já estávamos com o conhecimento da situação dos animais, então acionamos a polícia e conseguimos retirar vinte animais para serem castrados. Só que os cachorros estavam em uma situação tão deplorável, que só conseguiram castrar três cadelas”, explica Luanda.

Adriana diz que os animais gostavam do casal, mas com a idade, situação financeira e problemas de saúde, eles não conseguiam cuidar da maneira correta. “Os animais gostam desses idosos, têm amor por eles. O senhor se compadeceu e perdeu o controle, já que não ocorreu uma política pública para dar assistência e tirar os animais da rua”.

“Eles têm quase 80 anos. A senhora é cega do olho esquerdo e segundo nos disseram tem dificuldade de mobilidade por sequela de AVC (acidente vascular cerebral)”, diz. Sem ajuda municipal, os cachorros precisaram ser encaminhados para outra senhora, protetora de animais, que já cuidava de mais quarentena animais. Quase metade, dos vinte, foram adotados, mas a mulher continua com um número grande de cães dentro de casa. “A senhora mora sozinha, tem setenta anos, e está com vários problemas de saúde. O problema só mudou de lugar”, lamenta.

Intoxicação

Novos capítulos se desencadearam este mês. No dia 13 de março, o casal de idosos foi despejado pela proprietária da casa e precisou se mudar para um bairro distante. A nova residência não tinha espaço para os animais. Com isso, os animais ficaram sozinhos e a situação se agravou ainda mais.

Com os antigos inquilinos na casa, certos animais não se misturavam. Agora, eles estão juntos e brigam constantemente. “A proprietária não deixou que a gente remanejassem os animais e agora eles estão em conflito entre si. Ela não quer os cachorros lá de jeito nenhum, queria soltar os cachorros na rua, mas eu não deixei. No mesmo dia, ela levou um carro de dedetização. Do outro lado da rua, conseguia se sentir o veneno, com cadela prenha lá dentro. E ela queria misturar tudo”, revela Luanda.

A protetora ainda tentou garantir um pouco de dignidade para os animais. “Foi quando eu vi que eu tinha que pedir socorro, porque eu fui na prefeitura e os vereadores e eles falam que não podem fazer nada. Nós fizeram um mutirão rápido para dar uma limpeza no local e tentar dar um pouco de dignidade para os bichos. Até hoje, ainda tem cocô de rato, cocô e xixi de cachorro espalhado”, lamenta.

Com os conflitos internos, muitos cachorros se ferem (MMDA/Divulgação)

“Os cachorros estão agora, lá na casa, sozinhos, com risco da proprietária abrir o porta e fugirem todos e serem atropelados. E estão todos sem castrar. Segundo os protetores de animais do município, a proprietária sedou os cães sem orientação veterinária, deixou-os misturar-se, gerando brigas entre eles, e contratou dedetizadora, o que pode ter intoxicado os animais”, relata Adriana.

Intervenção imediata

Adriana clama por intervenção imediata da prefeitura. “Eles precisam fazer uma intervenção imediata para que os animais sejam ou mantidos lá sob bem-estar ou sejam destinados a um abrigo temporário. Não pode ser definitivo. Um abrigo temporário onde eles vão ser devidamente alimentados vermifugados, medicados, castrados, microchipados, identificados e encaminhado para a adoção”, esclarece.

Ela explica que não só o serviço social e a secretaria de Saúde, mas profissionais de diferentes áreas precisam ser mobilizados para a efetividade da operação. “Tem que ter uma força tarefa, uma equipe intersectorial que precisa trabalhar de forma integrada para poder dar a devida assistência para os animais e humanos para que o problema não seja mudado de lugar, como foi mudado para essa senhora, e estoure novamente”, destaca.

Animais amontoados

O acúmulo de animais é um problema recorrente em todo o país. A prática, mesmo que realizada por pessoas com boas intenções, compromete o bem-estar dos animais. “A situação de animais e pessoas em acumulação é uma realidade mundial e no Brasil gravemente negligenciada, invisibilidade e desconhecida, apesar de estar pipocando ao nosso redor. Em Belo Horizonte, por exemplo, está lotado de casos”, relata a coordenadora.

“Esse assunto é pouco difundido no Brasil, na academia, principalmente na política pública. De forma inédita, nessa sexta-feira (19), o MPMG (Ministério Público de Minas Gerais), juntamente com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), criou um guia, inédito no país, que orienta as prefeituras sobre como proceder diante de pessoas em situação de acumulação”. Para acessar o guia, clique aqui.

Desrespeito à lei

Para Adriana Araújo, o episódio em Tiradentes reflete a falta de políticas públicas previstas na Lei Municipal 3.161/2017 e na Lei MG 21.970/2016. Ela explica que a prática de desovar os animais em outro local não é mais permitida. “Isso tudo está acontecendo pela ausência do cumprimento da lei estadual. Assim como estourou em Tiradentes, estoura em todo o estado”, revela.

Adriana esclarece que a lei estabelece que o controle populacionais deve acontecer, mas de maneira ética. “A lei determina a política pública de manejo populacional de cães e gatos. Ela veio para contrapor a política, até então existente, de recolhimento pelas carrocinhas e matança em câmaras de gases. Em cidade do interior, o caminhão pegava e desovava de madrugada em municípios vizinhos, abria covas e jogava os animais, ou matava a pauladas, envenenados”, relata.

A coordenadora enxerga a desova e a falta de controle populacional da prefeitura, prevista na lei, como a causa para a acumulação de animais na cidade. “Nós discordamos dessas formas criminosas e cruéis, mas a gente sabe e defende que precisa existir uma política de controle, porque que eles reproduzem muito. Essa política está prevista na lei. Só acontece acumulação de animais porque não cumpre essa lei”, analisa.

O MPMG foi acionado para o caso. “Com isso, a cobrança deve ser em cima da prefeitura, para cumprir a lei municipal e estadual”, explica a coordenadora.

Deseja ajudar?

Os cãezinhos precisam de ajuda imediata. Por questão de organização, apenas a proteção animal de Tiradentes está recebendo as doações. Além de dinheiro, a instituição aceita entregas de ração, medicamentos, vasilhas (para água e ração) e casinhas (porte médio e grande). Para mais informações, entre em contato com Luana Conrado, presidente da Compat de Tiradentes: (32) 99839-2019.

Para doações em dinheiro os dados bancários são os seguintes:

  • Caixa Econômica Federal
    Maria Clara Ferreira, vice-presidente da Compat:
    Chave PIX (CPF): 13512446639.
    Agência: 2923.
    Operação: 013.
    Conta Poupança: 00020847-2.
    CPF: 135.124.466-39.

O que diz a Prefeitura de Tiradentes?

Por meio de nota enviada ao BHAZ, a Prefeitura de Tiradentes conta ter cedido auxílio ao casal para que resolvessem o despejo e a situação dos cães, mas que entrará em contato para prestação de contas do benefício. Além disso, explica que passará a atuar junto da Compat para solucionar o problema dos animais e que construirá em canil.

Nota da Prefeitura de Tiradentes na íntegra
1) O casal de idosos requisitou auxílio financeiro deste município, e considerando que prestavam um serviço de utilidade pública e após estudo do caso pela assistência social e meio ambiente da situação fática, foi deferido um auxílio para resolverem a questão do despejo e dos cães. Iremos entrar em contato com o casal para prestação de contas do auxílio prestado;

2) com relação aos cães que ficaram na casa onde o casal residia, a prefeitura irá atuar em conjunto com a Comissão de Proteção aos Animais de Tiradentes, COMPAT para tentar solucionar o problema e construir um canil.

Por Salma Freua

Fonte: BHAZ

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