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Famoso santuário de preguiças da Costa Rica é um pesadelo para os animais, dizem ex-funcionários

Este famoso santuário é um pesadelo para os animais, dizem dois ex-funcionários.

Por Ameena Schelling / Tradução de Alice Wehrle Gomide

O Sloth Sanctuary da Costa Rica é um centro de resgate reconhecido internacionalmente que diz se dedicar a salvar e reabilitar as preguiças perdidas ou feridas. É também um destino turístico popular e a fonte por trás de muitos dos vídeos “fofos” de preguiça na internet – e apareceu na série de 2013 do Animal Planet “Meet the Sloths”.

Mas agora dois veterinários que recentemente deixaram o santuário estão dizendo que o assim chamado centro de resgate é pouco mais de uma coleção de animais doentes e feridos nos bastidores.

“Eles dizem que trabalham para a conservação… isso é uma completa mentira”, Drª Camila Dunner, uma veterinária do Chile, contou ao The Dodo. “Nós realmente acreditamos que eles matam animais [por negligência]”.

Atenção: Algumas fotos abaixo têm conteúdo chocante

“Brigando constantemente”

Dunner e seu marido, Dr. Gabriel Pastor do Uruguai, se mudaram para a Costa Rica em maio de 2015 após serem contratados pelo santuário de preguiças. Dunner disse que eles tinham ouvido boatos de que o santuário tinha problemas nos bastidores, mas eles tinham esperança de que pudessem ajudar os animais – e nunca pensaram que seria tão ruim assim.

“Nós decidimos dar uma chance, porque pensamos que seria a oportunidade perfeita para melhorar a qualidade de vida dos animais”, Dunner disse.

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Quando eles chegaram, logo ficou claro que o santuário estava com problemas, ela disse. Enquanto a maioria dos turistas via somente um grupo seleto de preguiças na área de exibição pública, Dunner explica, a parte de trás estava lotada com cerca de 200 preguiças apertadas em gaiolas minúsculas, algumas com largura de 60 cm. Em alguns casos, os animais eram mantidos juntos nas mesmas gaiolas, ocasionando às vezes ferimentos brutais.

“Estes são animais solitários, mas eles são mantidos em pares ou até quatro indivíduos por gaiola”, Dunner disse. “Os que eram sortudos o suficiente para ficarem sozinhos estavam constantemente brigando… com seus vizinhos. Eles podem morder e puxar uma extremidade através da grade, causando ferimentos sérios”.

Uma foto revoltante fornecida ao The Dodo mostra uma preguiça chamada Roxie cujo couro cabeludo foi arrancado de sua cabeça.

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Apesar das alegações do santuário de reabilitação, a maioria das preguiças nunca foi solta na natureza. Algumas foram até mesmo “sequestradas” de seus lares na floresta para serem mantidas em cativeiro. Muitas estavam doentes ou feridas devido à habitação de má qualidade, dieta inapropriada e falta de cuidado veterinário, Dunner e Pastor alegam.

Durante o período inicial de experiência de um mês, Dunner e Pastor falaram sobre suas preocupações com os donos. “Eles disseram que queriam uma mudança”, Dunner disse. “Eles disseram que queriam alguém com o conhecimento e a capacidade… Nós vimos uma oportunidade lá”.

Otimistas, e querendo ajudar os animais em sofrimento, Dunner e Pastor concordaram em ficar. Mas o tom dos donos mudou rapidamente após essa decisão. “Nós começamos a ver que eles não concordavam com nada que a gente propunha”, Dunner disse.

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Gerald Richardson, um sócio do Sloth Sanctuary que lida com as solicitações da mídia, rejeitou comentar sobre as alegações de bem-estar. Ele disse que era responsabilidade do Ministério de Ambiente e Energia da Costa Rica (MINAE) governar o santuário, e que o Sloth Sanctuary não queria se envolver em uma “situação de disse-me-disse”.

“A missão do Sloth Sanctuary, por mais de 25 anos, é cuidar das preguiças feridas, órfãs e abandonadas – o bem-estar dos animais é a nossa maior preocupação”, ele disse ao The Dodo. “Talvez você possa planejar algum dia uma visita pessoal e fazer nosso tour interno para que você veja em primeira mão como as preguiças resgatadas são cuidadas”.

“Parece uma prisão”

De acordo com Dunner e Pastor, logo ficou claro que o Sloth Sanctuary não tinha intenção de soltar seus animais de volta à natureza – quase todas as preguiças que entram no santuário ficam apertadas em gaiolas lotadas em áreas privadas da instalação, eles disseram.

“Ela continuava usando isto como um negócio”, Dunner disse sobre a fundadora, Judy Avey-Arroyo que abriu o santuário em 1992 com seu marido já falecido, Luis Arroyo. “Ao invés de tentar soltar um animal, ela simplesmente começou a mantê-los – deixando as pessoas passarem a mão neles, mantendo-os em gaiolas minúsculas”.

“Não é nem um centro, aquilo parece uma prisão para nós”, Dunner disse sobre o santuário. “Todo mundo pensa que um santuário é melhor que um zoológico. Mas um zoológico é fiscalizado… enquanto lá eles fazem o que quiserem”.

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Além de manter quase todas as preguiças que chegavam, os donos aproveitavam toda oportunidade para acrescentar mais preguiças em sua coleção, o que chegava a uma situação de acumulação – frequentemente sob o pretexto de proteger animais selvagens perfeitamente saudáveis dos “perigos” da natureza, de acordo com Dunner.

“Estes eram adultos saudáveis que foram sequestrados da natureza e colocados em gaiolas”, ela disse. Em um caso, uma preguiça vista atravessando uma estrada foi trazida para o santuário e presa na gaiola. Outra caiu de uma árvore e não tinha nenhum ferimento, mas foi jogada dentro de uma gaiola também.
“Estes animais deveriam ter sido soltos ou transferidos imediatamente – não havia nenhuma desculpa para mantê-los em cativeiro”, Dunner disse. “Entretanto, eles foram trancados e mantidos lá até hoje”.

Ela observou que preguiças podem viver até 40 anos e podem passar décadas em gaiolas minúsculas. “Isto pode ser considerado uma abdução ou simplesmente captura ilegal de vida selvagem”, ela disse.

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Desde a fundação, o santuário já recebeu cerca de 725 preguiças mas soltou somente 41 animais reabilitados, menos de dois por ano, de acordo com os números fornecidos por Dunner. Em um vídeo de 2014, Avey-Arroyo diz que o santuário já soltou 122 preguiças em seus mais de 20 anos de história, o que seriam cerca de cinco por ano – um número ainda pequeno que parece ser inflado pela inclusão das preguiças que simplesmente foram realocadas pelo santuário sem serem admitidas. Mesmo assim, das 191 preguiças que viviam no santuário em março, Dunner disse, somente 25 não estavam apropriadas para a soltura.

Uma preguiça chamada Delilah foi levada para cativeiro após algumas crianças terem jogado pedras nela, apesar dela estar saudável e sem nenhum ferimento. “Ela escapou ao menos quatro vezes… durante sua vida no santuário e ela era constantemente recapturada”, Dunner disse. “Uma dessas vezes ela estava comendo no topo de uma árvore perto das gaiolas e Judy mandou a equipe de novo para cortar a árvore (o que também é ilegal) e pegá-la, sabendo os riscos de morte que a queda representaria para Delilah”.

“Ela ainda está em cativeiro”, Dunner disse. “Sua história é uma das mais tristes para mim, parte meu coração”.

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Outra preguiça chamada Holly Berry também escapou até a floresta diversas vezes e foi repetidamente recapturada. “Os cuidadores tiveram que nadar no rio que separa a floresta do santuário para buscá-lo”, Dunner contou.

Na rara ocasião em que os animais são soltos, nem sempre é com bondade, Pastor e Dunner contam. Nutmeg e seu jovem bebê, Cinnamon, foram inicialmente levados ao santuário após terem tentado atravessar uma estrada, apesar de estarem perfeitamente saudáveis.

Quando o Sloth Sanctuary decidiu soltar o animal para uma gravação do programa Ocean Mysteries With Jeff Corwin, Nutmeg foi “separada à força” de Cinnamon e jogada de volta na floresta sem seu bebê, os veterinários disseram. O santuário ficou com seu filhote.

“É um desejo constante de possuir esses animais”, Dunner explicou.

Parte do problema, Dunner observou, é que os proprietários subestimam vastamente as capacidades dos animais.

“Judy acredita que esses animais não possuem qualquer instinto”, ela disse. “Ela acredita com todas suas forças que esses animais irão morrer na natureza e prefere mantê-los em uma gaiola por toda sua vida ao invés de dar uma chance a eles”.

Acidentes não tão felizes

Apesar da porcentagem de preguiças sofrendo pela negligência, a população do Sloth Sanctuary está crescendo cerca de 13 por cento ao ano, Dunner e Pastor estimaram.

A superpopulação causou problemas adicionais. Machos e fêmeas frequentemente eram mantidos em pares, ou em gaiolas adjacentes, o que inevitavelmente causou a procriação. Dunner disse que acredita que cerca de uma dúzia de nascimentos que ela testemunhou eram ilegais.

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A gravidez estressava os animais já perturbados ainda mais, e algumas mães abortavam espontaneamente ou eram envolvidas em incidentes violentos com seus bebês. Uma mãe, Stephanie, atacou e matou seu bebê, uma jovem fêmea chamada Venus, disse Dunner, que forneceu as fotos da autópsia para o The Dodo.

Outra preguiça, Peppa, perdeu uma perna – o santuário alternadamente dizia às pessoas que ela tinha sido mordida por um cachorro e ficou presa em uma malha. Mas Dunner e Pastor dizem que eles ouviram de um colega que Peppa na realidade tinha nascido em cativeiro e que sua mãe, Poppy, tinha comido sua perna por causa do estresse.

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Quando o casal tentou separar os animais para parar com a procriação, Avey-Arroyo os impediu, dizendo que as preguiças ficariam tristes, Dunner explicou. Ela disse que Avey-Arroyo sugeriu que, ao invés de separá-los, eles castrassem os machos – apesar do procedimento ser ilegal para as preguiças, já que elas fazem parte da vida selvagem da Costa Rica.

“Eles costumavam chamar esses eventos de ‘acidentes felizes’, o que nos envergonhava profundamente, já que cada um desses nascimentos poderia ter sido evitado, e isso condenava aqueles filhotes a uma vida em cativeiro á que o santuário não irá soltá-los”, Dunner disse. Ela acrescentou que os arquivos desorganizados encontrados na clínica mostravam que muitas preguiças engravidavam e sofriam abortos espontâneos regularmente.

Bebês nascidos no santuário tinham uma vida dura pela frente. Os recém-nascidos frequentemente eram mantidos na unidade de terapia intensiva neonatal com outras preguiças jovens, apesar dos dois grupos possuírem necessidades diferentes. Enquanto os recém-nascidos tinham que ser alimentados a cada duas horas, eles eram alimentados somente na mesma hora que os jovens, quatro vezes ao dia.

Os recém-nascidos famintos tentavam mamar em qualquer coisa que eles conseguissem pegar – bichinhos de pelúcia, suas próprias patas, o pelo dos seus vizinhos. Como resultado disso, muitos deles desenvolveram deformidades nos maxilares.

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“Isto ocasionou numerosos indivíduos apresentando deformidade mandibular, afetando para sempre o crescimento de seus dentes (má-oclusão) e condenando-os ao cativeiro”, Dunner disse.

E enquanto as jovens preguiças na natureza estariam aprendendo a escalar com suas mães, os bebês no Sloth Sanctuary passavam seus dias em campos incubadores com bichinhos de pelúcia ou caixas de plástico cheias de outras preguiças – uma situação estressante para os animais que são solitários por natureza e vivem principalmente nas árvores. Se eles tinham sorte, Dunner disse, eles teriam 30 minutos de exercícios em uma academia florestal por dia.

A dieta das preguiças

Enquanto Dunner e Pastor tinham esperado passar seu tempo ajudando as preguiças que foram feridas na natureza, eles acabaram tendo que se focarem nos animais que foram feridos devido à negligência do santuário, eles contaram.

Principalmente pelo fato de que o santuário mantinha todas as preguiças em uma dieta inapropriada de vegetais cozidos e crus, ao invés da dieta baseada em folhas que elas comeriam na natureza.

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Como resultado disso, muitas preguiças desenvolveram a síndrome da má absorção, que leva à desnutrição e, em casos severos, à morte repentina, os veterinários explicaram.

Isso também danificou seus sistemas digestivos. Dunner e Pastor trataram de muitas preguiças com severa constipação ou inabilidade de soltar a urina, o que faz com que os abdomens fiquem dolorosos e distendidos conforme os excrementos se acumulam dentro deles. “Este era um dos problemas mais comuns que a gente tratava”, Dunner disse.

A dieta anormalmente macia grudava nas bocas dos animais e cortava sua respiração, Dunner disse, levando às traqueotomias de emergência em alguns casos.

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Os vegetais também estavam muito macios para os dentes em constante crescimento das preguiças. “Os dentes não são gastos se uma dieta apropriada não é oferecida; eles nasceram para comer folhas e não vegetais”, Dunner explicou. Consequentemente, muitos dos animais negligenciados tinham doenças dentários e caninos que cresceram em excesso, o que em alguns casos iriam rasgar suas bocas.

Dunner e Pastor disseram que eles tentaram mudar a dieta das preguiças, mas frequentemente foram impedidos por Avey-Arroyo, que continuamente dava desculpas, e em um ponto ela falsamente alegou que seria perda de tempo já que ninguém sabia o que as preguiças comiam na natureza.

“Existem publicações científicas sobre isso [a dieta das preguiças] que a fundadora conhece, mas não confia”, Dunner explicou.

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The Dodo entrou em contato com Tinka Plese, uma croata especialista em preguiças e fundadora da AIUNAU Foundation, um grupo de reabilitação colombiano que trabalha com preguiças, que confirmou que os animais em cativeiro precisam de uma dieta natural para prosperar.

“Ninguém corta a comida, a serve em pratos na floresta, e então os coloca em jaulas na natureza”, ela disse. “Se você realmente é um reabilitador, em cada momento, você deve tentar fazer o seu melhor para dar condições naturais para os animais que estão sob seus cuidados para que eles possam voltar para a natureza”.

“Constantemente brigando”

Quando elas atingiam a fase adulta, as preguiças normalmente eram tiradas da área de exibição e levadas para passarem as próximas poucas décadas de suas vidas em gaiolas nos bastidores, que não permitiam espaço para escaladas apropriadas ou um estilo de vida natural.

“Adultos estão condenados a viver nessas gaiolas; eles não são tirados de lá e nem expostos ao sol ou chuva”, Dunner disse. “Eles estão entediados, com apenas poleiros paralelos em gaiolas minúsculas… alguns deles até comem em suas barrigas, um comportamento completamente anormal”.

Como as preguiças passavam anos em suas gaiolas minúsculas e não tinham nenhuma oportunidade real para escalarem, suas unhas às vezes cresciam tanto que elas curvavam para trás e furavam as suas peles.

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“Nós perdemos muito tempo cuidando de ferimentos auto infligidos”, Dunner explicou. “Nós víamos unhas enormes que iriam perfurar as palmas dos animais”.

O casal também frequentemente tratava de preguiças que tinham ferimentos de brigas, incluindo unhas despedaçadas, lacerações, mordidas, infecções e abcessos.

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As preguiças também desenvolviam comportamentos psicológicos estranhos, como tentar se esconder embaixo de lençóis ou qualquer outra coisa que pudessem encontrar, e se recusar a defecar, como resultado das gaiolas pequenas e da falta de privacidade. Um número de preguiças sofria com tênias e outros parasitas.

“Eles matam animais”

Apesar dos problemas de saúde e dos ferimentos horríveis que muitas das preguiças tinham, o santuário aparentemente tinha pouco interesse em fornecer atendimento médico. “Eles tiveram uns cinco veterinários em 20 anos, e eles passavam muito tempo sem nenhum veterinário”, disse Dunner.

Ubu foi uma das vítimas de negligência médica. Quando Dunner e Pastor chegaram, eles o encontraram parcialmente paralisado. Ele estava coberto em escaras pela falta de escaladas, era incapaz de controlar sua urina e provavelmente tinha uma infecção. Ele tinha começado a mastigar suas próprias pernas traseiras porque ele não conseguia senti-las. Dunner e Pastor não tiveram outra escolha a não ser eutanasiá-lo.

“Ele viveu por seis anos praticamente sem receber atendimento, arrastando seu corpo, causando as escaras ulcerosas… e urinando e defecando nele mesmo”, Dunner disse. “Ele estava deplorável. Demorou muito para que a gente conseguisse fazer Judy entender que mantê-lo vivo era egoísta e antiético”.

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Outra preguiça chamada Lucy desenvolveu escaras graves, Dunner e Pastor disseram, porque ela passava todo dia no mesmo poleiro de madeira devido ao assédio das outras preguiças.

Durante os períodos sem veterinários, Dunner e Pastor contaram, Avey-Arroyo e sua família se acostumaram a tratar eles mesmos dos animais – apesar da completa falta de conhecimento médico. “Eles fazem isso sozinhos”, Dunner notou, explicando que a dona frequentemente iria ignorá-los ou preveni-los de tratar os animais, levando à doença e até mesmo morte.

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Dunner disse que houve múltiplos casos onde Avey-Arroyo dava o medicamento errado ou uma dose em excesso a uma preguiça. “Eles davam 10 vezes a dose para um animal bebê”, ela disse. “Eles estavam brincando de médico”.

Em outros casos, parecia que os donos do santuário recusavam cuidado veterinário para alguns animais. Em um dos primeiros dias de Dunner no trabalho, ela disse, ela e seu marido realizaram uma necropsia em uma preguiça que eles encontraram morta em uma caixa de papelão – a eles foi dito que Avey-Arroyo tinha se recusado a levá-lo a um veterinário após ele ter começado a ter convulsões alguns dias antes, e disse para um dos funcionários simplesmente deixá-lo na caixa, onde ele aparentemente morreu.

“Nós realizamos a necropsia e descobrimos um trauma na cabeça que ninguém conseguiu explicar”, Dunner disse.

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Dunner disse que ela e seu marido foram incapazes de recuperar os anos de negligência apesar de seus esforços. “Neste ano, nós dois não conseguimos checar todos os residentes porque você precisa ficar em dia com todas as emergências, os bebês e a alimentação”, ela explicou. “Eles têm tantos animais que eles não conseguem cuidar de todos”.

Algumas preguiças ficavam até seis anos sem receber qualquer tratamento veterinário, Dunner acrescentou.

“Se você sabe que não tem condições de pagar por veterinários extras para cuidar dos 200 animais, você não deveria ter 200 animais”, ela disse. “A solução que Judy dá para isso é simplesmente construir mais gaiolas”.

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“Nada daquele dinheiro vai para as preguiças”

É claro, a preocupação pelo bem-estar dos animais era a prioridade para os veterinários. Mas eles estavam preocupados com outros aspectos do santuário também, como as visitas.

“Estes animais são criados virtualmente como animais de estimação, com muito contato físico (abraços e beijos em seus rostos, como você pode ver em vídeos na internet), práticas não higiênicas e passando uma mensagem contraditória”, Dunner explicou. “É impossível educar o público sobre respeito por um animal selvagem se eles são tratados como um cachorrinho, o que também promove o comércio ilegal dessas espécies como mascotes.”

Dunner disse que o santuário também dizia aos visitantes mentiras grotescas sobre a biologia das preguiças, incluindo que eles tinham uma biologia reptiliana, que eles podem regenerar seus membros e que as preguiças jovens não podem ser criadas para serem soltas na natureza.

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Mas há uma coisa que Dunner disse que o santuário faz muito bem: arrecadar fundos.

O Sloth Sanctuary tem uma presença ativa na mídia social e frequentemente usa as preguiças para conseguir dinheiro. “Eles se gabavam de terem conseguido $10.000”, Dunner disse. “Eles vinham até a gente e diziam, ‘Ah, nós temos tanto dinheiro’. Mas nenhum dinheiro vai para as preguiças”.

“Eles usam o dinheiro para outras coisas”, ela acrescentou, ressaltando que ela acredita que o santuário é gerenciado para gerar um lucro empresarial para a família. “Nenhum deles [os animais] recebem uma dieta apropriada, nenhum deles tem uma área adequada – nós tivemos que eutanasiar, é demais para eles”.

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Esta não é a primeira vez que o Sloth Sanctuary foi acusado de problemas de bem-estar dos animais. Uma mulher que diz ser uma antiga voluntária acusou o santuário de negligência em uma postagem em seu blog pessoal em 2012, que desde então foi eliminado. Ela espelhou muitas das preocupações de Dunner e Pastor, dizendo que o santuário não soltava as preguiças e que muitos deles tinham parasitas. Ela também mencionou a preguiça chamada Ubu e a descreveu como em sofrimento e paralisada – três anos inteiros antes de Dunner e Pastor o terem eutanasiado.

“Uma mentira grotesca”

Como uma condição para aceitarem o trabalho, Dunner e Pastor exigiram que o santuário soltasse algumas das preguiças de volta à floresta. Os donos concordaram.

Mas Dunner disse que nenhuma foi realmente solta. “As postagens do Facebook são uma mentira grotesca”, Dunner disse. “Nenhum dos recém-nascidos exibidos no Facebook… será libertado, a não ser que as autoridades da Costa Rica assumam”.

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O próprio website do Sloth Sanctuary confirma muitas das alegações de Dunner e Pastor. Apesar de mencionar esforços para uma soltura próxima na mídia social e nas campanhas de arrecadação de fundos, o Sloth Sanctuary disse diversas vezes em seu website que as preguiças que eles pegam não podem ser soltas na natureza – uma alegação que Avey-Arroyo frequentemente usava para justificar manter os animais em cativeiro, disseram Dunner e Pastor.

Mas essa alegação é imensamente falsa, de acordo com Plese, a especialista em preguiças. Além de trabalhar como reabilitadora, Plese também é membro da Comissão pela Sobrevivência das Espécies da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN/SSC), Grupo Especialista em Tamanduá, Preguiça e Tatu.

Plese disse ao The Dodo que, assim como quase todos os outros animais selvagens, preguiças resgatadas, até mesmo bebês, podem ser reabilitadas e retornadas à natureza se forem cuidadas por profissionais.

“Se um centro de resgate consegue cuidá-los apropriadamente… então eles podem passar por um processo de reabilitação de acordo com sua idade: recém-nascido, jovem, adolescente, adulto, adultos recentemente tirados da floresta ou adultos que passaram muito tempo em cativeiro”, ela disse.

Entretanto, quando as preguiças são tratadas como animais de estimação ou são incapazes de seguirem seus comportamentos naturais – como é o caso no Sloth Sanctuary – elas são impedidas de desenvolverem a independência que elas precisam para sobreviver. “Se você as mantém em gaiolas, corta a comida para elas, oferece qualquer tipo de comida sem respeitar sua biologia e ecologia, você não conseguirá reabilitá-las com sucesso”, ela disse.

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Plese também disse que ela já teve seu conflito com Avey-Arroyo. Durante a gravação da Meet the Sloths, a série de 2013 que mostrou pesadamente o Sloth Sanctuary, Plese foi entrevistada sobre seu histórico de reabilitações e solturas com sucesso de algumas preguiças resgatas, perante as câmeras. Suas cenas foram cortadas do show, ela disse, e mais tarde ela ouviu que Avey-Arroyo tinha bloqueado sua inclusão no show, aparentemente porque essas cenas iriam contra a narrativa do Sloth Sanctuary sobre a impossibilidade de retornar suas preguiças para a natureza.

Plese disse que ela ouviu histórias de horror de antigos voluntários e funcionários que entraram em contato com ela depois de verem as condições do Sloth Sanctuary. “Quase todo mundo tem as mesmas preocupações: exploração animal… maltrato animal, total desrespeito para com as preguiças, manipulação do público em geral e usar a ignorância das pessoas em relação à fauna selvagem para seu próprio benefício”, ela disse.

Quando perguntada sobre sua opinião profissional sobre o Sloth Sanctuary, Plese foi direta. “Uma resposta bem direta”, ela disse. “Eu fecharia a instalação neste exato momento e colocaria Avey-Arroyo na cadeia”.

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Um relacionamento próximo

A presença de Gerald Richardson no santuário é mais do que somente ao acaso. De acordo com os veterinários, ele também é o irmão de Daryl Richardson, dono do aquário Dallas World Aquarium (DWA), no Texas, EUA, que vem sendo criticado por ser dirigido mais como um zoológico pessoal de animais ameaçados de extinção, em muitos casos capturados da natureza, do que uma instalação com objetivo de conservação.

O DWA possui uma parceria com o Sloth Sanctuary por anos – uma parceria que parece ter gerado um relacionamento simbiótico estranho entre os dois grupos.

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Daryl Richardson até mesmo importou algumas das preguiças “resgatadas” do santuário para complementar sua coleção no DWA, ao invés de facilitar sua soltura na natureza.

Um artigo de 2015 no New Republic diz que o DWA importou seis preguiças do santuário – três ainda viviam no DWA quando o artigo foi publicado, e Richardson se recusou a comentar sobre o paradeiro das outras.

Dunner disse que ela encontrou registros de pelo menos nove preguiças que foram dadas ao DWA desde 1998. Nenhum dos arquivos tinha a documentação necessária como informações de saúde e autorizações de exportação, Dunner disse, e ela não tem certeza se o santuário possui isso em algum outro lugar. Ela disse que acredita que algumas das preguiças não sobreviveram à viagem.

O Sloth Sanctuary também auxiliou na expedição extremamente controversa de Daryl Richardson ao Panamá em 2013, quando ele capturou da natureza seis preguiças pigmeus altamente ameaçadas de extinção e, com Avey-Arroyo ao seu lado, tentou voar com elas de volta ao Texas.

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Ele foi impedido por uma multidão no aeroporto, que interviu alegadamente para proteger as preguiças de Richardson e seu time – não está claro se a documentação do DWA era válida, e a tentativa foi criticada pelos conservacionistas e zoologistas ao redor do mundo. Conservacionistas mais tarde retornaram as preguiças sequestradas à natureza.

“É simplesmente desumano”

Assistir ao sofrimento finalmente se tornou muito pesado para Dunner e Pastor, e eles decidiram deixar o santuário vários meses atrás após apresentarem um plano para soltar as preguiças – um plano que a gerência ignorou.

Eles deram vários meses de aviso prévio. Entretanto, durante o processo de demissão, eles perceberam que o santuário e o DWA copiaram sua proposta de soltura e postaram na internet sem dar créditos a eles – ao invés disso atribuindo ao DWA.

Dunner e Pastor descreveram essa atitude como “vender ao público” – em outras palavras, usar a proposta para arrecadar fundos e continuar a narrativa de conservação e soltura do santuário sem realmente fazer isso.

Quando os veterinários entraram em contato com a gerência para discutir o uso da proposta, Richardson informou a eles que aquele era seu último dia no santuário e que eles estavam sendo expulsos de sua casa, a qual ficava dentro do santuário. Eles foram impedidos de terminar a pesquisa que Avey-Arroyo tinha solicitado, disseram Dunner e Pastor, e enfrentaram uma série de ameaças e ataques pessoais.

Apesar de Dunner e Pastor terem estado falando com The Dodo por mais de um mês, eles pediram para que sua história não fosse publicada até que eles pudessem sair em segurança do país devido às ameaças que eles receberam.

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A história deles não parece ser a única. Apesar de haver outros relatos de voluntários, ex-funcionários e visitantes que tiveram experiências similares com o Sloth Sanctuary, o The Dodo foi incapaz de encontrar alguém para falar oficialmente, devido ao medo de retaliação.

Agora Dunner e Pastor, que também enviaram seu relato ao MINAE, ficam se perguntando o que mais eles poderiam ter feito para as preguiças sob seus cuidados, e têm esperança que sua história possa inspirar o público a não apoiar santuários onde “sentimentalismo… e negócios são prioridade, ao invés do bem-estar dos animais”.

“Nós viemos aqui com a expectativa de ficar por 10 anos, talvez por toda nossa vida, porque eles nos deram esperanças falsas”, Dunner disse, depois acrescentando: “Nós podemos dizer com toda certeza que o Sloth Sanctuary da Costa Rica não está fazendo nenhum esforço real de conservação”.

“É simplesmente desumano”, ela disse.

Fonte: The Dodo

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