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Fica na tua e me deixa em paz com a minha carne

Por Juliano Zabka

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As brevíssimas considerações que farei abaixo não são exatamente de minha autoria, pois a ideia de tratar o assunto na forma que farei aqui é originada de outras fontes – não recuperei as referências, mas é tema já tratado com exaustão e com muita competência por diversos autores. Ainda assim, creio que repetições e releituras são sempre enriquecedoras.

“Fica na tua e me deixa em paz com a minha carne” é, provavelmente, um tipo de frase muito proferida por aqueles que acreditam que comer animais é uma mera escolha pessoal ou um direito. O raciocínio seria mais ou menos esse: você escolhe não comer carne e eu escolho comer; não me meto na sua escolha e você não se mete na minha. Por trás desse pensamento nitidamente prejudicado pelo preconceito do especismo [1], está acoplada ainda uma avaliação equivocada sobre imposições, o que impede muitos de nós de compreendermos a existência de imposições justas e imposições injustas [2].

Num nível descritivo ou ilustrativo, podemos mesmo afirmar que comer animais é uma escolha pessoal, do mesmo modo que matar e ingerir uma idosa indefesa ou um bebê [3] é igualmente uma escolha pessoal: o observador descreve a escolha de alguém que está a praticar um ato imoral.

Já no nível da moralidade, de forma alguma tais escolhas podem ser assim tão facilmente justificadas – se é que podem. Dizer “eu escolho pela morte e ingestão do corpo do outro”, definitivamente não é uma frase encantada que dá permissão ao objetivo de comer alguém. Essa mágica não existe. Verbalizar isso não tem poder algum de tornar o ato algo minimamente decente e justo. Do mesmo modo, em nada se assemelha com uma inocente escolha pessoal como a de escolher a cor da escova de dentes.

“Me deixa em paz com a minha carne” é uma sentença que faz parecer que a carne em discussão seria a carne de propriedade de quem está a falar. Obviamente, tem algo muito atrapalhado nisso. Aquela carne não pertence a quem fala. É roubada. É roubada da pior maneira que podemos conceber um roubo, pois um animal, um ser capaz de experienciar o sofrimento e o desfrute de modo tão relevante quanto nós experienciamos, foi assassinado, seguramente após ter amargado uma vida miserável [4]. Teve seu corpo literalmente vampirizado por quem ainda se julga no direito de sugar a energia que pertencia ao portador do corpo e subjetividade – ou alma – que ali vivia, experienciava e se expressava.

Sou levado a pensar que mesmo se a carne fosse extraída do próprio corpo de quem nele vive, – como a imagem lá no topo ilustra –  desse modo fazendo ter sentido o slogan “me deixa em paz com a minha carne”, uma vez que esse alguém estaria a cortar ou amputar a “sua carne” e partes do seu próprio corpo para ingestão, teríamos fortes razões para impedir esse ato que arrisco a categorizar como gravemente patológico.

Se descarnar o nosso próprio corpo é coisa quase impossível de não julgar como uma séria patologia, desse modo, desde uma postura ética que nossa condição humana nos permite e exige, podemos constatar o quão doentio é o nosso contexto em que é quase regra requerer com contaminada exaltação até mesmo a carne que não nos pertence.

Referências:

[1]: O que é especismo?  Disponível em: https://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/luciano-carlos-cunha/616-o-que-e-especismo

[2]: A acusação de imposição. Disponível em: https://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/luciano-carlos-cunha/669-a-acusacao-de-imposicao

[3]: O caso do bebê eterno. Disponível em: https://www.olharanimal.org/pensata-animal/autores/juliano-zabka/759-o-caso-do-bebe-eterno

[4]: http://www.pecuaria.info/


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