'Tim' foi o nome escolhido para o pequeno tamanduá-bandeira — Foto: Divulgação TamanduASAS

Filhote de tamanduá órfão passa por reabilitação para voltar à vida livre

Hipotérmico, apático, estressado, desnutrido e com pouco mais de um quilo. Foi assim que a equipe da Polícia Militar do Meio Ambiente de Uberlândia encontrou o filhote de tamanduá-bandeira, sozinho, em uma fazenda, no dia 5 de julho.

Com o resgate e o encaminhamento do animal ao Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF), veterinários e biólogos passaram a escrever uma nova história para o tamanduá, apelidado de Tim.

Como em um roteiro de filme, a torcida é para que o final seja feliz, mas o caminho até a reabilitação e soltura é longo e cheio de desafios. “Os tamanduás são animais com uma fisiologia muito particular, dieta muito específica e cuidado maternal que pode chegar até a um ano. Estes fatores fazem com que todas as fases de desenvolvimento de um filhote órfão sejam muito delicadas”, explica a médica veterinária, Juliana Macedo Magnino.

A coordenadora do Projeto TamanduASAS, que recebe e reabilita filhotes órfãos, destaca questões importantes que desafiam o trabalho da equipe. “Os desafios para um filhote de menos de 30 dias chegar à idade de desmame e passar por todas as adaptações no recinto de reabilitação são inúmeros. Por exemplo: a adaptação ao bico da mamadeira, ao leite, às mudanças da dieta, ao desmame, à mudança do centro de apoio para o recinto, dentre outros”, conta.

No período de reabilitação, Tim deve ganhar peso e precisa aprender a se alimentar sozinho. — Foto: Divulgação/TamanduASAS

Cuidados com o Tim

Para minimizar todos essas dificuldades e possibilitar a reabilitação do mais novo mascote do Projeto, os especialistas encaram uma ‘força tarefa’.

Na lista de afazeres dos pesquisadores consta alimentação a cada três horas, avaliações constantes do desenvolvimento e ganho de peso, manutenção das camas, caixas de transporte, cobertores e mamadeiras, além da limpeza dos materiais.

“Tim é alimentado com leite de cabra batido com ração de gato e ovos cozidos. Até atingir cinco quilos, passará por exames clínicos e de fezes. Depois desse peso, será feita a coleta de sangue para realizarmos exames mais detalhados”, explica a veterinária, que destaca outras etapas importantes no processo de reabilitação.

“A primeira fase é a adaptação do animal à ausência da mãe, ficar sozinho no recinto e aceitar a dieta, que gradativamente vai ficando mais grossa. A próxima etapa do Tim será o desmame”, diz.

Há quase dois meses o filhote é tratado pela equipe de especialistas. — Foto: Divulgação TamanduASAS

Para suprir a necessidade de colo, o filhote está sendo aquecido. Depois que começar a andar e explorar o ambiente, Tim será levado para um cercado em área externa durante o dia, para começar a adaptação.

“Caso ele responda bem ao desmame, comece a se alimentar sozinho e atinja pelo menos 15 quilos, ele irá para um recinto de reabilitação ganhar mais peso e se adaptar ao local da soltura”, completa.

Desafios da reabilitação

Para voltar à vida livre, os tamanduás precisam estar saudáveis, bem alimentados, ter pelo menos 25 quilos e, principalmente, se mostrar independentes dos cuidados humanos. Tarefa essa, que deve ser trabalhada desde a captura do filhote.

Depois que começar a andar, Tim será levado para um cercado em área externa. — Foto: Divulgação/TamanduASAS

“O nosso primeiro e maior desafio é criar os bebês com o menor vínculo humano possível, mesmo com a necessidade de mamadeiras frequentes. Isso porque, alguns deles ficam muito dependentes dos humanos, não aprendem a se alimentar e desenvolvem comportamentos que não condizem à espécie em vida livre”, comenta Juliana.

No nosso projeto, aprendemos que a reabilitação começa no dia da chegada do filhote                                                                                               

— Juliana Macedo Magnino, médica veterinária

De acordo com a médica veterinária, o desafio persiste no recinto de reabilitação, onde os tratadores não devem manusear ou interagir com os animais. “É delicado alimentá-los com mamadeira por meses e depois não querer que eles associem os humanos à alimentação”, conclui.

Outra etapa importante a ser vencida é a adaptação do animal à alimentação correta, custosa para qualquer projeto de reabilitação. “Como os tamanduás se alimentam de formigas e cupins, e esses alimentos são fundamentais neste período, precisamos encontrar, retirar e transportá-los para os recintos, o que demanda tempo, veículos apropriados e equipe técnica”, explica.

Os tamanduás são levados para o recinto de reabilitação após o desmame, que ocorre entre três a cinco meses de idade. Enquanto o animal está mamando, a dependência por cuidados é constante, por isso, os filhotes ficam no centro de apoio ou no centro de triagem – CETAS

Diário da reabilitação de um tamanduá órfão até a vida livre

O Terra da Gente vai acompanhar, mês a mês, o progresso de Tim, um tamanduá-bandeira órfão encontrado muito debilitado pela Polícia Militar do Meio Ambiente de Uberlândia. Agora, ele está sendo reabilitado para poder voltar à natureza. Fique com a gente e confira todos os detalhes dessa história: https://glo.bo/2LhcKQF

Gepostet von Terra da Gente am Mittwoch, 28. August 2019

Ausência da mãe

Juliana destaca a importância de um processo de reabilitação individual, específico para as necessidades de cada um dos tamanduás resgatados. “Os filhotes são diferentes e se adaptam de maneiras distintas. Eles devem ser tratados de acordo com a personalidade, idade e estado de saúde que são encontrados”, diz.

A especialista explica que no caso de órfãos que passaram um período mais extenso com a mãe, por exemplo, há uma dificuldade na adaptação com a nova alimentação. “Um tamanduá que chega muito novinho, porém, pode ter mais problemas de desenvolvimento e na imunidade, por não ter se alimentado do leite materno”, completa.

Filhote foi encontrado desnutrido e muito fragilizado. — Foto: Divulgação TamanduASAS

Diante da estrutura necessária para tentar salvar tamanduás-bandeira, os biólogos e veterinários do projeto se dedicam ao cuidado dos órfãos, que são encontrados em grande escala. “A maioria dos filhotes são encontrados abraçados à mãe morta, após atropelamento. Eles continuam com ela até morrerem. Alguns também se machucam com o trauma do veículo e, nesses casos, poucos sobrevivem”.

No caso do pequeno Tim, não se sabe o motivo do abandono. “Não sabemos se a mãe foi atropelada, caçada, atacada ou se abandonou o filhote por outro motivo. São tantas as ameaças aos tamanduás hoje em dia que, nesse caso, não conseguimos detectar o que aconteceu”, lamenta Juliana.

De volta à vida livre

A equipe do TamanduASAS acumula finais felizes na história do Projeto: três animais foram criados, reabilitados e soltos.

O retorno à natureza aconteceu depois do período de reabilitação nos recintos, que durou aproximadamente seis meses. “Os recintos foram construídos dentro das áreas de soltura dos tamanduás e projetados para que os animais possam desempenhar comportamentos semelhantes ao que terão em vida livre”, comenta a veterinária, que destaca alguns aspectos importantes para determinar a soltura.

Os tamanduás enfrentam muitos desafios para se adaptar ao processo de reabilitação. — Foto: Divulgação TamanduASAS

“A escolha do local depende de onde os animais foram resgatados – para respeitar a genética do animal, do sexo – para alternar machos e fêmeas e evitar brigas, e da disponibilidade do parceiro em receber o animal”, diz.

O cuidado com os indivíduos, batizados de Dumbo, Arya e Capitu, continua após a soltura, com ajuda de coletes de monitoramento. “Precisamos saber quais são as chances de sobrevivência de tamanduás criados em cativeiro desde filhotes. Buscamos respostas sobre a capacidade de acharem alimento e água, dependência do recinto e da suplementação alimentar, interação com humanos e com outros animais, além do deslocamento, busca e estabelecimento de território”, explica.

Esses e outros tópicos que ainda não foram estudados no Brasil servirão de referência para delinear alternativas de destinação de tamanduás-bandeira resgatados
— Juliana Macedo Magnino, médica veterinária

A mãe pode carregar o filhote no dorso por até nove meses. — Foto: Eulâmpio Vianna Neto

Os especialistas também se preocupam com a adaptação dos animais em vida livre, agora sujeitos a ameaças como atropelamentos, destruição de habitat, caça, queimadas e conflitos com animais domésticos. “Se os riscos existem também para os que estão na natureza, por que não proporcionar uma segunda chance, de forma responsável, para estes filhotes que nasceram em vida livre?”, questiona Juliana.

Monitorar não significa intervir no que eles irão fazer em vida livre. Monitorar é acompanhar o deslocamento, observá-los em campo e torcer para que se adaptem e cumpram seu papel ecológico na natureza
— Juliana Macedo Magnino, médica veterinária

O futuro de Tim

Batizado em homenagem a Tim Tetzlaff, diretor do Naples Zoo que financiou os coletes dos animais reabilitados, o filhote também será monitorado após a soltura.

“O Tim já tem seu rastreador GPS garantido graças ao acordo de cooperação técnica do Projeto Bandeiras e Rodovias com o Instituto Estadual de Florestas”, comenta a veterinária.

Para voltar à vida livre, os tamanduás precisam ter pelo menos 25 quilos. — Foto: Divulgação/TamanduASAS

A expectativa é que o retorno à vida livre seja, pelo menos, daqui um ano.

A equipe do Terra da Gente irá acompanhar de perto o processo de reabilitação e atualizar, mensalmente, o desenvolvimento do pequeno tamanduá aqui no site do TG

Além dos esforços da equipe do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais, o processo conta com o apoio financeiro do Ministério Público do Estado – para custear a construção dos recintos, alimentação, medicamentos, exames e materiais, com o auxílio da Polícia Militar do Meio Ambiente – nos recolhimentos dos animais e na segurança das fazendas que possuem os recintos, e com o auxílio de fazendeiros, que cedem o espaço para alimentar e manter o local seguro durante a reabilitação.

Por Giulia Bucheroni

Fonte: G1

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