Fogos de artifício em festas preocupam em Piracicaba, SP

Fogos de artifício em festas preocupam em Piracicaba, SP

Piracicabanos questionam a real necessidade do uso desses artefatos.

Por Adriana Ferezim

Os fogos de artifício podem causar estresse e prejudicar a saúde dos animais silvestres e domésticos, dizem especialistas. O uso desse material na 190ª Festa do Divino levou a leitora Helena Gonçalves a se manifestar por meio de um artigo, publicado na Gazeta na terça-feira (12). Ela questiona a real necessidade do uso desses artefatos no evento. A reflexão pode ser ampliada também para outros acontecimentos, como jogos de futebol e Réveillon.

Ela revelou que toda a emoção que sentiu pela tradição e fé no Encontro das Bandeiras foi suprimida ao ver o desespero das aves e das capivaras que estavam nas margens do rio e o nervosismo dos cães que estavam com seus tutores no evento. Tudo causado pelo barulho dos rojões.

O encontro foi sábado (9). O repórter-fotográfico da Gazeta, Antonio Trivelin, viu de perto a situação. “Eu estava aguardando o início da celebração, sozinho na margem direita do rio, no Engenho. Com os primeiros estrondos, mais fortes (lembrando trabucos) e espaçados, as capivaras se reuniram de repente. Quando o estouro dos fogos aumentou, elas se desesperaram e correram para a água”, contou.

A professora de Ecologia da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), Silvia Gobbo, afirmou que, em uma fuga por estresse, pode haver a perda dos filhotes. “O barulho estressa os animais e ele pode, sim, causar problemas de saúde neles. Há alguns muito sensíveis, como rãs, que morrem de susto apenas com a buzina de um carro”, afirma.

Ela disse que é possível promover e manter a tradição dos eventos e optar pelo uso de fogos de artifício com mais efeito visual e menos sonoro, porque é uma cultura que, além do estresse nos animais, incomoda também bebês e idosos. “Antigamente, sem facilidade de comunicação, os fogos avisavam sobre a festa. Hoje, o acesso à informação é mais fácil e o barulho pode ser evitado”, acredita.

Equilíbrio

O biólogo piracicabano, Luccas Longo, ressaltou que o Brasil ainda carece de estudos científicos que avaliem o impacto do ruído dos fogos na fauna silvestre. Mas é comprovado que o barulho alto estressa os animais.

“O animal não sabe de onde vem o som e o barulho é uma ameaça para ele. Isso acelera o batimento cardíaco e ele foge desorientado. As aves correm risco de colidir com carros, vidraças e muros. Os animais, como cães, gatos e capivaras, correm e podem ser atropelados. Há animais que podem ficar desorientados por dias”, afirmou.

Ele disse que experiências com fogos sem ruído já estão ocorrendo na Europa e no Brasil. “Não sou contra a festa do Divino. Deve ser encontrado um equilíbrio entre a tradição o cuidado com os animais”, sugere.

A presidente em exercício da Sociedade Piracicabana Protetora dos Animais (SPPA), Cristiane Filletti, comenta que nos dias da festa – que teve show pirotécnico na sexta-feira (8) -, recebeu a denúncia de 10 cães que fugiram de casa por causa do barulho. “Poucos foram encontrados”, afirmou.

O professor de Artes Marciais, Tiago Gutierrez, tem quatro cães da raça Shih Tzu e a fêmea sofre mais com o barulho dos rojões. “A Dalila fica desesperada e, mesmo abraçando, ela fica ofegante, com o coração disparado e não para de raspar as patas”, afirmou.

Fogos

O comerciante de uma loja de fogos, Márcio Ribeiro, afirmou que todo artefato tem um estampido, mas alguns coloridos têm gramas menores de pólvora e fazem menos barulho. “Na Festa do Divino, foi promovido show pirotécnico no dia 8, por 10 minutos, e utilizados fogos potentes.

“No Réveillon, a cidade inteira tem fogos por cerca de 30 minutos. Há clientes que já solicitam fogos com menos barulho, preocupados com os seus animais. Há quem pede mais barulhentos e nós orientamos que soltem em áreas afastadas”, disse.

A secretária municipal de Turismo, Rose Massarutto, informou que a Festa do Divino faz parte do calendário de eventos turísticos da Setur, possui 190 anos de história e pode ser considerada um patrimônio imaterial da cultura da cidade.

“O evento mescla a utilização de fogos de artifícios com show pirotécnico de luzes, justamente para minimizar este tipo de impacto. Acredito que todas as mudanças precisam ser pensadas, inclusive através da realização de um estudo técnico, que leve em consideração o impacto ambiental, cultural, histórico e social que a mudança pode causar. A Cultura não é imutável. Diversas formas de manifestação podem ser repensadas, porém, é preciso ter consciência que alterações no ritual do evento podem trazer consequências, que levem a perda da identidade e das tradições culturais desta festa centenária, que acontece uma vez por ano, durante sete dias”, afirmou.

Fonte: Gazeta de Piracicaba

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