Fotos mostram leões morrendo de fome em fazenda de criação de pesadelos

Fotos mostram leões morrendo de fome em fazenda de criação de pesadelos

Por Zainab Akande / Tradução de Alda Lima

Fotos recentes revelam uma cena surpreendente: leões definhando, com costelas salientes e ossos do quadril proeminentes.

Os leões em cativeiro estão entre um grupo de 250 que vivem no  Ingogo Safaris, uma fazenda de criação na província de Limpopo, África do Sul, de propriedade de um homem chamado Walter Slippers.

Os leões são mais vítimas da indústria da caça confinada da África do Sul — um negócio onde turistas ricos pagam quantias absurdas de dinheiro para “caçar” animais criados por humanos, que são, então, colocados em lugares cercados para que esses turistas atirem e conquistem seus troféus fáceis.

As fotos dos leões em cativeiro, que parecem estar sofrendo de extrema desnutrição e emagrecimento, foram enviadas na semana passada para Drew Abrahamson, diretor executivo da Captured in Africa Foundation (Fundação Capturados na África).

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“Um vizinho em uma propriedade adjacente tirou as fotos”, disse Abrahamson ao The Dodo, observando que os leões têm sido supostamente negligenciados há anos.

“Algumas imagens vieram à tona cerca de dois anos atrás, quando ele tinha voluntários em sua propriedade”, contou Abrahamson. “Havia dois leões nas imagens bebendo água, eles também estavam extremamente abaixo do peso, então acho que é um caso de negligência como um todo. Você não espera que leões em cativeiro sejam tão magros a ponto de seus ossos do quadril sobressaírem”.

Slippers, alegadamente, disse que as fotos são antigas, mas Abrahamson argumenta o contrário, afirmando que elas são recentes — o National Council of SPCAs (NSPCA) – Conselho Nacional das Sociedades de Prevenção à Crueldade Animal da África do Sul confirmou, e o site de notícias Traveller 24 reportou.

Isabel Wentzel, gerente da Unidade de Proteção da Vida Selvagem da NSPCA, disse ao Traveller 24 que, quando a NSPCA foi verificar a situação depois de as fotos se tornarem virais no início do mês, o grupo encontrou no local alguns leões abaixo do peso.

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“Independentemente de quantos anos [as fotos] têm, leões não devem ter essa aparência”, disse Abrahamson. “É negligência clara.”

Slippers disse ao Traveller 24 que, por causa de problemas de saúde que o deixaram hospitalizado desde novembro do ano passado, ele tem sido incapaz de alimentar adequadamente seus leões e não tinha meios de assistência — deixando os leões sofrendo praticamente sozinhos e lutando entre si para sobreviver.

Após a inspeção, que constatou que nem todos os leões estavam tão esqueléticos quanto os das fotos, Slippers foi dispensado com uma advertência oficial.

Wentzel observou que levaria tempo para os leões emaciados recuperarem-se e ganharem de volta os quilos saudáveis; e o NSPCA tenciona acompanhar Slippers após os arquivos do veterinário para todos os leões serem recebidos, acrescentando que, se esses arquivos não forem recebidos, queixas de crueldade animal podem potencialmente ser prestadas.

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Infelizmente, estes leões são apenas uma pequena fração dos milhares que são mortos a cada ano pela indústria da caça confinada a leões, muitos dos quais enfrentando condições semelhantes — ou piores — àquelas na fazenda de criação.

Masha Kalinina, uma especialista internacional em política de comércio junto com a Humane Society International, disseram ao The Dodo que existem cerca de 200 reprodutores de leões na África do Sul, muitos dos quais, se não todos, envolvidos na indústria da caça confinada. Entre 6.000 e 8.000 leões vivem atualmente em cativeiro de instalações de reprodução como a de Slippers, restando menos de 20.000 leões africanos selvagens no mundo.

As vidas dos leões são frequentemente ciclos de abuso. Quando filhotes, eles são arrancados de suas mães — que procriam constantemente — e muitas vezes são alugados para instalações turísticas para que visitantes façam carinho ou apareçam em suas selfies.

À medida que crescem, eles se tornam adereços para atrações como a “caminhada com leão”, que permite que turistas passeiem com os felinos adolescentes criados em cativeiro em seus habitats supostamente naturais.

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Quando amadurecem totalmente e se tornam leões adultos, se não voltam para o ciclo de reprodução, eles já estão tão bem preparados para aceitar seres humanos que se tornam alvos perfeitos — assassinados bem no espaço que conheceram como lar por todas suas vidas.

“O leão é liberado por um dia de sua vida, e depois a perde para um caçador de troféus”, disse Kalinina, acrescentando que a maioria dos caçadores de troféus defende incorretamente a prática da caça confinada e a procriação de leões como um esforço de conservação. No entanto, Kalinina observou, isso não é verdade, uma vez que nenhum dos leões jamais pode retornar à vida selvagem, considerando que não podem desenvolver as habilidades necessárias para sobreviver no seu habitat natural.

“Eles são criados exclusivamente para fins financeiros”, disse ela.

E por mais que leões para caça sejam, pelo menos, mantidos com uma aparência saudável para que possam trazer mais dinheiro como troféus “atraentes”, os leões de reprodução são muitas vezes negligenciados, permanecendo nos bastidores, onde ninguém pode vê-los.

Mas, por mais chocantes que as fotos dos leões de Slippers possam ser, a questão é que manter leões em cativeiro por um negócio como esse é perfeitamente legal na África do Sul e se encaixa com as noções culturais de propriedade. Os leões não são apenas seres vivos — eles são propriedade de Slippers.

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“Existe essa mentalidade de que você pode fazer o que quiser com a sua propriedade”, explica Kalinina. “Todos os animais são de quem detém a propriedade, a menos que seja um parque nacional”.

A caça confinada — e caçadores de troféus, por extensão — não são problemas limitados à África do Sul. Muitos dos animais de caça confinada são mortos por turistas norte-americanos que viajam para a África do Sul e outros países africanos.

E a caça confinada nos EUA é ilegal em apenas nove estados, com apenas proibições parciais em outros 17, disse ao The Dodo Samantha Hagio, diretora de proteção dos animais selvagens da Humane Society dos Estados Unidos.

“A Humane Society dos Estados Unidos estima que existam cerca de 1.000 instalações de caça confinada neste país, com cerca de metade deles no Texas”, disse Hagio. “No Texas, os clientes de caça confinada podem disparar em quase qualquer coisa — de um antílope Africano em perigo a uma zebra — pelo preço certo.”

Mas existem pequenos sinais de que a maré está mudando. Pouco depois da morte infame do leão Cecil, um leão selvagem que foi ilegalmente morto no ano passado depois de ser atraído para fora de um parque nacional protegido no Zimbabwe, o Fish and Wildlife Service dos Estados Unidos (FWS) fez com que fosse ainda mais difícil importar troféus de duas subespécies em particular de leões africanos ao país sob a Lei de Espécies Ameaçadas.

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Esta nova lei entrou oficialmente em vigor em Janeiro de 2016. Embora a lei aumente os atalhos que caçadores têm que percorrer a fim de trazer os seus prêmios de volta para os EUA, ela ainda não bane a prática de imediato, deixando leões como os que Slippers possui, e muitos mais, ainda em perigo.

“Precisamos eliminar a demanda por esses leões para que não haja incentivo financeiro para eles continuarem sendo criados nessas instalações”, disse Kalinina. Uma maneira de fazer isso, explicou ela, é simplesmente educando os outros sobre a indústria de caça confinada.

Outra maneira é se manifestando. Em uma postagem no Facebook, Abrahamson forneceu informações de contato para o departamento de Conservação da Natureza de Limpopo na África do Sul, incitando as pessoas a entrarem em contato com funcionários e pedir para que parem de dar licenças para instalações de reprodução em cativeiro, como Slippers.

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“É hora de voltar a atenção para os criadores e caçadores individualmente, de modo que eles não possam mais se esconder atrás de uma indústria como um todo”, escreveu Abrahamson. “É hora de eles enfrentarem as consequências no que diz respeito à sua exploração.”

Para evitar apoiar a indústria de caça confinada, certifique-se de ficar longe de quaisquer instalações que reproduzam leões ou permitam interagir com filhotes.

Fonte: The Dodo

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