Frangos a morrer de frio e fervidos vivos. Investigação expõe condições de abate nos EUA

Frangos a morrer de frio e fervidos vivos. Investigação expõe condições de abate nos EUA
Foto: Getty Images

O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação mergulhou em centenas de relatórios de inspeção do Departamento norte-americano da Agricultura e encontrou relatos de “incidentes”, no mínimo, impressionantes, relativos a vários centros de abate espalhados pelo país.


Frangos que sufocaram até à morte sob o peso de outros frangos num tapete rolante que parou devido a uma falha mecânica; Frangos mergulhados em água a ferver ainda vivos e conscientes; Frangos (milhares) que morreram ou de frio ou de calor dentro de camiões. E os exemplos continuam, nos numerosos relatórios do organismo que supervisiona a atividade pecuária dos EUA e a que o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação teve acesso.

Nos registos, divulgados esta segunda-feira, os inspetores alertam repetidamente que os aviários não providenciam aos animais proteção adequada às condições meteorológicas, com enormes grupos de aves, frangos e perus, a morrerem de frio ou, pelo contrário, a não resistirem às temperaturas elevadas.

Estas práticas foram testemunhadas pelos inspetores do Departamento norte-americano da Agricultura(USDA) entre 2014 e 2018 em alguns dos maiores centros de processamento de carne de aves dos Estados Unidos. Até agora, os registos mantiveram-se só do conhecimento do serviço, mas foram pedidos pelo Animal Welfare Institute (Instituto do Bem-Estar Animal) ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação.

Nos EUA, as regras que se aplicam ao gado são diferentes das que dizem respeito à criação de aves, para o que existem apenas “boas práticas comerciais”, com cumprimento voluntário. Perante grande parte das situações descritas, o USDA não tem de fazer mais nada do que elaborar um relatório.

“Soubemos que os incidentes que resultam em maior sofrimento são os relacionados com negligência ou abandono de aves durante o transporte e espera no matadouro”, explica Dena Jones, diretora do Farm Animal Program do Animal Welfare Institute. “Nenhum destes incidentes é abrangido pelos regulamentos atuais do USDA.”

No entanto, quando as aves morrem de formas diferentes das aprovadas – como é o caso de morrerem de frio – são consideradas adulteradas e não podem ser vendidas para consumo humano. Por outro lado, se se provar que entraram conscientes para o tanque onde são escaldadas, isso já pode ser alvo de um relatório de não conformidade, que obriga os responsáveis a resolver o problema, ou, caso não consigam, enfrentar uma de duas punições: ou o encerramento da unidade abate ou a proibição de venda do produto.

Mas fontes ouvidas pelo britânico The Guardian, que integra o consórcio de investigação, duvidam da eficácia dos relatórios. Uma inspetora, que falou sob anonimato, conta que, por diversas vezes, levou o tema ao seu supervisor, sem qualquer efeito. “É um documento, apenas isso”, resume.

Nos EUA, a indústria aviária mata cerca de 9 mil milhões de aves por ano, um número que a Administração Trump se propõe aumentar, autorizando, desde setembro passado, os produtores a aumentar a velocidade de abate de 140 para 175 aves por minuto.

O The Guardian lembra que a União Europeia não importa carne de aves dos EUA há mais de duas décadas, mas que um acordo comercial pós-Brexit pode abrir a porta a frangos com esta origem. E uma vez que o mercado britânico esteja inundado de carne mais barata, lembra Richard Griffiths, do British Poultry Council, ou os produtores nacionais baixam os padrões de qualidade para competirem ao mesmo nível, ou perdem produção.

Por Clara Cardoso

Fonte: Visão / mantida a grafia lusitana original


Nota do Olhar Animal: A forma como os animais explorados para consumo são tratados são um terrível agravante em relação ao problema fundamental, que é o abate em si e a injustiça que ele representa ao abreviar a vida de um ser senciente.

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