Fukushima, dieta animalizada e biocidas

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe

A contaminação nuclear mata quem está no epicentro da catástrofe no momento do acidente, e lesa de morte quem está mais distante dele, mas receberá a radiação pelo resto de sua vida. Sim. Leva uns 500 anos para ser eliminada depois de liberada. E ninguém viverá para ter os níveis diminuídos de seu corpo. Pelo contrário, alimentando-se de ‘peixes e frutos do mar’, já acumulamos mais e mais a radiação em nosso organismo.

No médio prazo, o primeiro órgão do corpo a sofrer as consequências da radiação nuclear assentada nos alimentos e nas águas é a tireoide. Também a medula produz suas células de modo anômalo e causa leucemia. Foi assim em Chernobyl. Está e será assim em Fukushima.

Desde que aconteceu o acidente, há três anos, nunca mais comi algas marinhas. Peixes eu já não comia fazia uns 12 anos, por ter me tornado vegana antes da virada do milênio.

Sabia, por conhecer o desastre de Chernobyl, que as águas dos oceanos estariam todas contaminadas. E ficaram. Já no ano seguinte ao da explosão nuclear das usinas de Fukushima, a contaminação havia dado a volta ao mundo através das águas oceânicas, o gesto mais abrangente, menos discriminador que o planeta já presenciou. Ninguém é discriminado numa catástrofe nuclear. E Fukushima supera Hiroshima e Nagasaki.

E todo mundo, aqui em nosso país, comendo peixes e “frutos do mar”, comendo “meu peixinho”, “minha ostrinha” e embalando sua consciência nesse bem-estarismo infantilizado. Todo mundo não querendo crescer, não querendo amadurecer, não querendo tomar decisão alguma que mexa nesse conforto miserável que o mercado de alimentos animalizados oferece.

E os japoneses não têm saída. Assim foi com o desastre de Chernobyl. Os russos não tiveram saída. Eu estava havia quatro meses no sul da Alemanha, em Konstanz, uma pequena cidade às margens do Bodensee, conhecido como Lago de Constança, para meu doutorado.

Vivi a contaminação de Chernobyl no corpo. No dia da explosão eu estava passeando com meu companheiro em Meersburg e era dia 26 de abril, um mês de primavera, o que lá não é nada em termos de calor. E eu falei para ele: “Notaste como hoje o ar está quente de forma estranha?” Ele não havia notado. Tenho uma sensibilidade térmica muito acentuada.

Quando chegamos em casa o alarme na TV. Explodira o reator. Alertas gerais por toda a Europa. Eu estava a uns cinco mil km de distância de Chernobyl e senti o calor no ar. Nos próximos dias a Universidade instalou um medidor de radiação no hall de entrada e não podíamos adentrar o prédio a não ser depois de subir no aparelho que parecia uma balança dessas de farmácia.

No meu corpo não havia contaminação, porque, seguindo a orientação do governo veiculada pelas TV’s, rádios e jornais (à época não havia internet), eu estivera em casa lendo e não me expusera ao ar externo a não ser para pegar o ônibus. Mas eu tinha uma aliança no dedo e ela estava contaminada com mais de 60 becquerels. Perguntei ao senhor vestido feito astronauta que controlava a medição quanto era tolerável e ele respondeu: Null. Zero. Tive que tirar o anel. Ele pediu que lavasse minhas mãos em água corrente por alguns minutos antes de entrar na biblioteca, para não tocar os livros com aquela radiação que estaria ali, agora passados 28 anos!

Colegas meus que haviam caminhado de casa até a universidade tinham nos tênis mais de 800 becquerels. Precisaram deixar seus calçados num saco impermeável e calçar tênis que a Universidade já havia providenciado. E muitos tinham as roupas contaminadas por essa coisa que leva 500 anos para desaparecer. Idem. Todo mundo se despindo e se despedindo de suas roupas.

E então, os médicos foram à TV e avisaram: não procurem os hospitais. Se algo maior acontecer, nós médicos estaremos tão contaminados quanto qualquer outra pessoa, porque não há antídoto, não há remédios, não há salvação. E foi com essa declaração dos médicos que o governo alemão tomou a decisão de fechar a usina nuclear que estavam construindo em Wackersdorf, na Baviera. Havia dezenas de alemães presos por lutarem contra a construção dessa nova usina nuclear na Alemanha. Foi decretada a soltura de todos eles. E aqui no Brasil, certamente, ninguém noticiou tal coisa. Estavam muito ocupados comprando leite em pó e toneladas de carnes contaminadas por Chernobyl, exportadas para cá. E milhares de pessoas perderam sua tireoide por extração devido ao câncer e doenças autoimunes, aqui no Brasil, nos últimos 15 anos. E quem se lembra que comeu carnes e leites contaminados com a radiação de Chernobyl? Os que sabem, calaram-se.

Hoje, tudo o que comem, produzido lá no Japão, ou já está ou estará contaminado.

E o mundo, em vez de produzir comida limpa para oferecer aos humanos, mata a vida ainda mais, produzindo com biocidas os grãos e cereais transgênicos que serão dados aos animais que serão comidos pelos humanos.

E o mundo não reage à Fukushima, porque todos estão de “orelha em pé”, porque uma fissão nuclear desencadeia outras e aqueles barris de água contaminada acumulados nesses três anos em Fukushima vão se rasgar não demora muito, pela fissão nuclear que mal e mal poderia ser contida caso os toneis fossem de chumbo.

Mas haja chumbo para milhões de toneis que seriam necessários para deter a fissão nos próximos 500 anos. Haja chumbo! Acabou a inocência e vai faltar perdão!


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