Funcionários de empresa que criava beagles para experimentação são condenados pela Justiça italiana

Funcionários de empresa que criava beagles para experimentação são condenados pela Justiça italiana

Por Laura Margottini / Tradução de Alda Lima

ITALIA si-dogs

Três funcionários da Green Hill, empresa que cria cachorros da raça beagle para testes com animais, foram considerados culpados de assassinato injustificado e maus-tratos aos cães. A sentença foi decretada pelo Tribunal de Brescia, Itália, nessa sexta-feira (23/01). Ghislaine Rondot, gerente executiva da Green Hill, e Renzo Graziosi, veterinário da empresa, foram condenados a 18 meses de prisão; O diretor da Green Hill, Roberto Bravi, recebeu uma sentença de um ano. Um quarto réu foi inocentado de todas as acusações.

A Green Hill é uma subsidiária da empresa Marshall BioResources, uma das maiores fornecedoras de cães para pesquisa na Europa. Em junho de 2012, dois grupos de direitos animais apresentaram uma queixa junto ao Ministério Público contra a empresa. Um mês depois, o Tribunal de Brescia ordenou o fechamento temporário das instalações e a apreensão de todos os animais. A Legambiente e LAV (Lega Anti Vivisezione), que fizeram as acusações, assumiram a custódia de mais de 3000 cães, que foram posteriormente colocados em lares adotivos por toda a Itália. O julgamento contra os funcionários da Green Hill começou em junho de 2014.

Enrico Moriconi, veterinário que atuou como consultor para o Ministério Público e revisou as provas recolhidas pela polícia, disse que 6.023 cães morreram no local entre 2008 e 2012 – em comparação com um número de 98, no período de dois anos que se seguiram a apreensão dos animais, em 2012. Em 44 casos, o tribunal foi capaz de estabelecer que os cães foram submetidos à eutanásia, embora fossem portadores de doenças curáveis e leves, diz Moriconi. Alguns dos beagles foram eutanasiados com Tanax-a, droga que causa insuficiência cardiorrespiratória, sem anestesia prévia, o que é amplamente considerada uma forma ‘nada ética’ de induzir o animal à morte.

Quanto às acusações de abuso, os cães não foram espancados ou de outra forma prejudicados fisicamente, salienta Moriconi. “É a sua etologia que não foi respeitada”, afirmou. Os cães nunca saíam em áreas ao ar livre e não tinham uma área comum, onde poderiam se socializar e se movimentar livremente, “fatores-chave para o bem-estar.” Os animais também foram expostos à luz artificial dia e noite em espaços que não eram devidamente limpos e eram muito quentes durante o verão, alega Moriconi. Além disso, os cães doentes ficavam sem assistência médica ou supervisão das 18:00 até as 07:00.

Moriconi disse que a Green Hill domesticava os cães, suspendendo-os em um dispositivo como uma rede. A falta de contato com o solo fazia os animais se contorcerem freneticamente e, eventualmente, tornarem-se imóveis de medo, um estado chamado de congelamento. “Eu não sei muito sobre essa técnica, mas garanto que se os cães perdem o contato com o solo, consequentemente, o seu equilíbrio é afetado. Isso é muito perturbador para eles”, pontuou Angelo Gazzano, etólogo na Universidade de Pisa, na Itália, que trabalhou na reabilitação comportamental de beagles usados em pesquisa animal.

“O Ministério Público apresentou [ao tribunal] quilos de provas”, segundo o presidente da LAV, Gianluca Felicetti. Mas Gaetano Di Chiara, farmacologista da Universidade de Cagliari, na Itália, e um militante em prol dos testes em animais, afirmaram que, embora não tivessem conhecimento de todas as provas por abusos apresentadas no tribunal, eles não estavam impressionados com o que leram na mídia; “O tribunal deveria ter rejeitado essa acusação”, enfatizou Di Chiara.

A Pro-Test Itália, um grupo italiano que apoia a experimentação animal, disse em sua página no Facebook que prefere não comentar o caso até que a explicação por trás do veredicto seja liberada. O comunicado acrescenta que “a sentença monocrática sobre essa sentença nos deixa perplexos”, e acrescentou que as penalidades são leves e “mais simbólicas do que qualquer outra coisa”.

A European Animal Research Association (EARA) – Associação Europeia de Pesquisa Animal – condenou veementemente os veredictos. “Essas sentenças chocantes são sem precedentes na Europa”, disse o diretor executivo da EARA, Kirk Leech, em comunicado distribuído pelo United Kingdom’s Science Media Centre. “Eles são uma farsa jurídica e parte de uma campanha politicamente motivada para acabar com a pesquisa animal na Itália. O setor das ciências da vida da Europa devia condenar essa ‘decisão enganosa”, acrescentou Leech.

A imprensa italiana informou que os funcionários de Green Hill planejam recorrer; o juiz do caso, Roberto Gurini, suspendeu suas sentenças até o veredicto final. Os três também foram impedidos de criar cães durante dois anos.

Fonte: Science

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