Golfinhos eram mantidos prisioneiros em piscina de hotel para ‘sessões terapêuticas’

Golfinhos eram mantidos prisioneiros em piscina de hotel para ‘sessões terapêuticas’
Foto: North Downs Picture Agency

No dia 27 de fevereiro de 2018, o jornal britânico MailOnline denunciou a existência de um delfinário em uma piscina no subsolo de um hotel na Armênia. Os animais, que eram mantidos em condições deploráveis, eram usados em “sessões terapêuticas” para clientes do hotel. A organização beneficente Marine Connection foi ao resgate dos pobres mamíferos.

Foto: North Downs Picture Agency

Mantidos em cativeiro no subsolo do hotel, próximo ao Best Western Hotel Dilijian, não muito distante da capital armênia Erevan, os golfinhos eram usados em sessões terapêuticas chamadas de “Terapia Assistida por Golfinhos (TAG)”, destinadas a crianças com problemas comportamentais.

Golfinhos possuem qualidades terapêuticas

De acordo com os responsáveis pelo programa, estar com os golfinhos e nadar com eles favorece a melhora da saúde mental e física da criança. Crianças autistas, hiperativas e mesmo pacientes em tratamento de câncer costumam visitá-los. O folheto usado para divulgar essa atividade descreve os seguintes benefícios:

“Durante as sessões de delfinoterapia, a produção de endorfinas aumenta consideravelmente. Por si só, isso ajuda a harmonizar o sistema nervoso, bem como oferece uma visão positiva e ativa do mundo.”

Embora esses supostos benefícios sejam sustentados pelos responsáveis pelo programa, que alegam amenizar diversas patologias, do autismo ao câncer, especialistas concordam que nada disso foi comprovado.

Uma forma de terapia contestada por especialistas

Especialistas consideram os benefícios dessa atividade “duvidosos”, e afirmam que brincar com um filhote de cachorro teria exatamente os mesmos efeitos. Conforme Lori Marino, neurocientista da Universidade de Emory, em Atlanta, na Georgia, que estuda golfinhos e baleias há 25 anos:

“Golfinhos não são médicos, mas sim predadores inteligentes e sociáveis que não deveriam ser usados para “curar” os enfermos. Milhares de famílias visitam unidades de delfinoterapia e não conseguem nada que não teriam obtido ao interagir com um filhote de cachorro”.

Na melhor das hipóteses, a interação com golfinhos poderia ser benéfica em curto prazo, estando em um ambiente novo e com expectativas positivas para o efeito placebo.

Foto: Roger Allen

Para além desse ponto, é a saúde dos golfinhos que é largamente questionada por defensores dos animais.

Condições alarmantes de vida com sérias consequências

Proibidos no Reino Unido há 20 anos, os delfinários são contestados amplamente por defensores dos direitos dos animais devido à qualidade de vida oferecida a esses mamíferos marinhos. A organização beneficente Marine Connection, que luta pela proteção dos golfinhos e baleias em todo o mundo, desempenhou um papel essencial no fechamento desses estabelecimentos. Agora, estão fazendo o mesmo na Armênia.

Foto: Facebook/Liana Davoyan

Golfinhos que vivem em cativeiro sofrem um nível considerável de estresse ao longo da vida, isso devido ao ambiente, que é fisicamente, socialmente e psicologicamente inadequado. Piscinas construídas para humanos, nas quais eles são forçados a interagir com humanos, são apenas um dos fatores que contribuem para aumentar o estresse, quando na verdade eles pertencem à natureza.

Situada no subsolo, a piscina raramente vê a luz do dia. As condições de vida são alarmantes e têm graves consequências. Como disse Lori Marino:

“Os resultados são devastadores. O estresse leva à disfunção do sistema imunológico. Com frequência, morrem devido a úlceras gástricas, infecções e outras doenças ligadas ao estresse a ao sistema imunológico, agravadas pelos laxantes e antidepressivos que às vezes são dados junto com a comida”.

A diretora Margaux Dodds, que liderou a campanha para fechar as unidades do Reino Unido, ficou chocada ao ver as fotos e vídeos dos golfinhos, que vieram da Rússia sob circunstâncias duvidosas.

“Esses são mamíferos marinhos selvagens, não animais de estimação. Não existem benefícios para crianças ou outras pessoas decorrentes do nado com eles. Golfinhos cativos têm vidas mais curtas e mais tristes”.

Os golfinhos resgatados serão realocados para um aquário na Rússia após o fechamento da piscina.

No mês passado, o parque aquático japonês Inbubasaka fechou suas portas devido ao declínio acentuado no número de visitantes.

Por Emilie Blanc / Tradução de Camila Uemura

Fonte: Holidog Times 

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