Exploração: Golfinhos serão enviados para o deserto do Arizona para que as pessoas possam nadar com eles

Exploração: Golfinhos serão enviados para o deserto do Arizona para que as pessoas possam nadar com eles

Por Rhona Melsky / Tradução de Alice Wehrle Gomide

No mês passado, o Aquário Nacional em Baltimore, Maryland, nos EUA, anunciou que iria retornar seus golfinhos cativos para o oceano para que eles possam viver o resto de suas vidas em um santuário marinho. Mas o Arizona está dando um enorme passo para trás com a construção do Dolphinaris Arizona, um parque de entretenimento que contará com 12 golfinhos cativos em ”experiências interativas” como a oportunidade de nadar com golfinhos (sigla em inglês SWTD).

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“Eu acho que isso será um pesadelo para os golfinhos”, Courtney Vail, gerente de campanhas e programas da Whale and Dolphin Conservation (WDC – Conservação de Baleias e Golfinhos), disse ao The Dodo. “Você pode controlar o clima em qualquer lugar, e qualquer cela de prisão pode ser adaptada para garantir que esses golfinhos sobrevivam, mas isso não significa que eles irão prosperar”.

A Dolphinaris é uma companhia baseada no México com filiais em cinco localidades. A instalação no Arizona será a primeira nos Estados Unidos. Ela será vizinha do OdySea Aquarium, também em construção, na Comunidade Indígena Salt River Pima-Maricopa em Scottsdale no final do verão de 2016, apesar da crescente oposição pública a lugares como o SeaWorld.

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O parque oferecerá “uma oportunidade para visitantes interagirem com os golfinhos, aprenderem sobre esta incrível espécie, e ser uma parte dos esforços de conservação do oceano”, de acordo com seu website.

Mas membros do público – e incontáveis grupos ativistas do bem-estar dos animais – não estão acreditando nisso.

No mês passado, mais de 200 pessoas se reuniram em um protesto contra a Dolphinaris, que foi organizado pelo movimento Empty the Tanks. Um desses manifestantes era Anna Kiley, uma ex-treinadora de golfinhos do SeaWorld San Diego.

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“Eu estou horrorizada que a Dolphinaris esteja trazendo golfinhos para o Arizona”, Kiley disse ao The Dodo. “Nosso clima aqui é extremo – acima de 40 graus no verão e com temperaturas congelantes no inverno, poluição da rodovia, tempestades de areia e tempestades da época de chuvas, ar seco, etc.”.

Dra. Heather Rally, uma veterinária de mamíferos marinhos que atualmente trabalha com a Fundação PETA, endossa as preocupações de Kiley. Ela disse ao The Dodo que está cada vez mais aparente que os programas com golfinhos cativos têm um peso enorme na saúde e na felicidade dos animais envolvidos.

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“O que aprendemos ao longo de décadas mantendo estes animais em cativeiro é que nós não conseguimos satisfazer suas necessidades em tanques de concreto”, Rally disse. “Isto inclui animais capturados na natureza e nascidos em cativeiro que possuem as mesmas necessidades básicas e geneticamente enraizadas”.

Grey Stafford, gerente geral da Dolphinaris, se negou a comentar. A companhia, ao invés disso, enviou uma ficha técnica ao The Dodo descrevendo a Dolphinaris como “um empreendimento multinacional e multicultural trazendo empregos e uma atração familiar para o Vale”.

Rally disse que está particularmente preocupada com os golfinhos que serão mantidos no deserto do Arizona, um dos lugares mais quentes e ensolarados no planeta, o que representa um conjunto único de desafios.

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Apesar da instalação dizer que irá regular a temperatura da água nas piscinas dos golfinhos, ainda não está claro se há planos para fornecer abrigo adequado e proteção contra a radiação dos raios UV, de acordo com Rally. “A menos que um abrigo adequado seja fornecido, estes golfinhos estarão confinados em piscinas muito rasas em água limpa, o que não é natural, expondo-os aos danos do sol todos os dias sem nenhum lugar para se esconder”, ela disse.

Enquanto baleias e golfinhos selvagens passam a maior parte do seu tempo mergulhando, o que os protege do sol, cetáceos cativos frequentemente não escapam da radiação UV de suas pequenas piscinas. As orcas no SeaWorld, por exemplo, foram vistas com sérias queimaduras de sol.

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Um ambiente quente de deserto também apresenta grandes riscos para os golfinhos, incluindo infecções respiratórias devido ao excesso de poeira. A febre do Vale pode ser contraída por mamíferos marinhos, assim como por humanos e outros animais, de acordo com Vail.

Rally disse que o Arizona é o lar de uma variedade de patógenos terrestres aos quais os golfinhos são suscetíveis, especialmente fungos encontrados no solo. Quando há vento, esses esporos podem facilmente se mexer e ficar suspensos em cima das piscinas. “Os golfinhos possuem uma fisiologia respiratória única, o que os torna particularmente suscetíveis à pneumonia fúngica”, ela disse.

E é claro, também há os problemas usuais em manter os golfinhos em tanques. Esses animais ficam entediados em cativeiro, onde eles são impedidos de engajar em alguns dos seus comportamentos naturais mais básicos, de acordo com Rally. Eles são colocados em tanques que são uma fração do tamanho da sua amplitude natural, frequentemente em grupos sociais incompatíveis.

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Isto causa estresse indevido e resulta no desenvolvimento de comportamentos anormais e aumento da agressividade para com outros golfinhos, o que pode ser extremamente danoso para sua saúde geral e para a saúde do grupo.

Como resultado, golfinhos em cativeiro frequentemente morrem muito antes de sua expectativa de vida na natureza, Rally disse.

E os programas SWTD (nado com golfinhos) somente aumentam esse estressse, Rally disse. Golfinhos muitas vezes se tornam cada vez mais agitados quando na água com humanos, o que leva a problemas comportamentais que podem até incluir agressão. Esses programas já resultaram em inúmeros incidentes de lesões em pessoas, que vão desde arranhões até esfoladuras e fraturas. Também há uma probabilidade aumentada de transmissão de doenças zoonóticas, que podem ser passadas dos animais para os humanos. “Do ponto de vista do bem-estar e da saúde dos animais, até os problemas de saúde e segurança pública, não há nenhuma razão para que isto seja juridicamente legal”, Rally disse.

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E como as regulamentações do SWTD foram suspensas em 1999 sob o Ato pelo Bem-Estar Animal, não houve nenhum registro de acidentes ocorrendo entre golfinhos cativos, ou entre golfinhos e humanos, nos últimos 15 anos, de acordo com Vail. Mas já ocorreram sérios incidentes que incluem golfinhos colidindo e morrendo em um programa no parque Discovery Cove do SeaWorld na Flórida, durante interações SWTD. Em outros exemplos, golfinhos pularam para fora das piscinas, enquanto outros morreram com a ingestão de objetos estranhos, disse Vail, que citou relatos da imprensa e os relatórios do Inventário Mamífero Marinho federal.

Existem cerca de 622 baleias e golfinhos cativos nos EUA e no Canadá, contabilizados até 20 de abril de 2016, de acordo com Ceta-Base. Desses, 480 são golfinhos nariz-de-garrafa. Mas a inauguração planejada do Dolphinaris vem em uma época onde instituições similares estão tentando reduzir o número e não aumentá-lo – seja acabando com a reprodução ou eliminando programas.

“As atitudes de um público mais consciente estão acabando com a exploração de golfinhos e baleias cativos para nosso entretenimento”, Vail disse. “De forma simples, estes mamíferos selvagens, sencientes e inteligentes merecem algo muito melhor de nós”.

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“Eles são animais altamente evoluídos, inteligentes e sociais”, Rally disse. “Eles possuem vidas emocionalmente complexas. Graças ao trabalho do Dr. Lori Marino, nós sabemos que seus cérebros parecem mais desenvolvidos em certas regiões que são associadas com memória, consciência social e a capacidade de sentir emoção”.

Mas todos esses atributos são sufocados nos confinamentos de um tanque de concreto, onde golfinhos com diferentes origens culturais são frequentemente colocados juntos.

“Como grandes predadores em seu ambiente, os golfinhos selvagens caçam cooperativamente como um grupo, o que requer comunicação complexa, laços sociais e a habilidade de ver e navegar soberbamente no ambiente marinho”, Rally acrescenta. “Eles vivem em grupos que consistem de vários indivíduos e se agrupam em mais de 100 indivíduos em algumas espécies, e eles frequentemente irão viajar juntos, percorrendo vastas distâncias. Todas essas coisas, desde sua história natural complexa até suas capacidades cognitivas, fazem com que seja muito difícil de proporcionar seu bem-estar em cativeiro”.

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Eles até mesmo possuem sons únicos para identificar cada indivíduo, que são similares aos nomes humanos, em adição às linguagens e dialetos únicos que diferentes grupos compartilham, Rally disse. Eles também formam laços emocionais muito fortes uns com os outros e possuem vidas sociais íntimas.

Mas nada disso parece ser importante para a Dolphinaris, que parece determinada a seguir em frente com seus planos para o programa interativo, o qual Vail chama de “regresso”.

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“Nós não podemos racionalizar o cativeiro dessas criaturas magnificentes por causa do nosso desejo egoísta de estar perto delas, que é o que realmente está acontecendo aqui”, Vail disse. “Mas, na realidade, há grande risco para os golfinhos e para os humanos”.

“O público ainda não entendeu a visão geral e não é capaz de ver o sofrimento, como eles realmente estão nos bastidores, as infecções e as lesões”, ela acrescentou. “Esse é o nosso trabalho – compartilhar a verdadeira história”.

Quer ajudar a parar a Dolphinaris? Você pode assinar a petição aqui.

Assista a um encontro perigoso durante um programa SWTD:

Fonte: The Dodo

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