Grandes carnívoros, como o lobo, estão de volta à Europa

Grandes carnívoros, como o lobo, estão de volta à Europa

Por Lúcia Müzell

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Lobos, ursos, linces e glutões estavam à beira da extinção na Europa no século passado, afetados pela urbanização crescente e a caça. Agora, a população dos principais carnívoros de grande porte do continente não para de aumentar. O fenômeno demonstra que a coexistência entre os homens e os líderes da cadeia alimentar é possível.

Um amplo estudo publicado na revista cientifica Science constata que os lobos são os mais preparados para se desenvolver, apesar da interferência humana e das mudanças climáticas em seu habitat. Eles dependem menos das baixas temperaturas e são capazes de revirar lixos para sobreviver, se não encontram presas naturais pelo caminho.

A situação pode causar desconforto para os humanos, que precisam encontrar um equilíbrio com os predadores. Segundo Guillaume Chapron, coordenador do estudo e professor da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, os animais não precisam estar em uma área isolada das pessoas para sobreviver.

“O que devemos ter claro é que coexistência não significa ausência de conflito. Os grandes carnívoros são, quase sempre, aqueles vizinhos que podem causar prejuízos e com os quais não é muito fácil conviver”, afirma.

O retorno dos grandes carnívoros aconteceu nos últimos 20 anos. Cerca de um terço da Europa possui alguma espécie de predador de grande porte. Os ursos pardos são encontrados em 22 países, linces em 23 e os lobos em 28.

Resistência

O caso do lobo é o mais emblemático, já que o animal não se beneficiou de nenhuma reinserção na natureza, ao contrário dos linces e ursos. Pouco a pouco, eles foram se reproduzindo e voltando a povoar regiões que sempre ocuparam, como os Alpes.

A situação obriga as localidades a se prepararem para esse retorno, muitas vezes assustador. Mas Chapron garante que a melhor proteção é o respeito do espaço dos animais – um predador alimentado e em paz jamais vai atacar o homem.

“Tem mais mortes de homens por ataques de abelhas do que por grandes carnívoros. É preciso fazer a diferença entre o risco real e a sensação de risco”, destaca. “O risco real é muito fraco, a tal ponto que é impossível estimá-lo. Mas a sensação de risco é elevada, porque todo mundo tem medo do lobo mau. No entanto, se olharmos os números, o lobo mau vive a sua vida e não vai querer atacar os homens.”

Agricultores preocupados

Os lobos retornaram aos Pirineus franceses, onde atacam rebanhos e provocam a ira dos produtores rurais. No ano passado, uma autorização excepcional para a caça do animal foi autorizada na região.

“A coexistência é mais difícil nos lugares onde eles tinham desaparecido. Na França, há 30 anos não tinha mais lobos. Agora, ele está voltando, mas as pessoas desaprenderam a conviver com o lobo. Da Romênia, ele jamais sumiu, portanto o conflito é bem menos violento”, explica.

A legislação europeia rigorosa sobre a preservação e a caça dos predadores teve um papel fundamental na recuperação “estável ou em aumento” das populações. A Convenção de Berna de conservação da vida selvagem, assinada em 1979, e a diretiva Habitat, de 1992, são os principais textos que permitiram aos grandes carnívoros voltar a se espalhar no continente europeu.

Fonte: RFI 

Nota do Olhar Animal: Se você estivesse prestes a ser devorado por um leão, 1) gostaria que alguém interviesse e o salvasse, 2) enfrentaria o felino com os recursos que a natureza lhe deu, 3) ou, convencido de que não se deve intervir em processos naturais, se entregaria em sacrifício à alimentação do outro animal? Se sua resposta for a opção 1, por que pensar que os animais não humanos também não querem ser poupados? Afinal, o que importa é o sofrimento em si ou é quem o provoca? A discussão sobre a intervenção na natureza vêm acontecendo cada vez com maior intensidade, intervenção que aliás ocorre cotidianamente. Quando tomamos medicamentos estamos intervindo em processos naturais. Quando colocamos próteses em animais não humanos, estamos intervindo. Quando se reinsere espécies, como ursos e linces, está se intervindo. Quando esterilizamos pombos ou cães, estamos intervindo. Não faltam exemplos. Normalmente, quando a intervenção visa propósitos humanos (ou ecologistas, que na verdade também focam no homem), não é muito questionada. Quando o objetivo é beneficiar animais, por exemplo os bilhões que morrem de inanição ou predados, é comum que pessoas abdiquem até de discutir o tema, tomando a natureza como um ente sagrado e intocável, e excluindo dela a espécie humana. Não será esta uma postura especista? O problema é a intervenção em si ou o seu propósito? É possível intervir sem causar danos? Um texto que trata especificamente da questão da reintrodução de animais carnívoros na natureza está disponível em:

Outros que abordam a questão da intervenção na natureza podem ser vistos em:

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