Gravidez humana e os animais

Por Leonardo Maciel 

Fato comum em um consultório veterinário é um casal recém-casado com um filhote de cão ou gato. Este ser é tratado como um filho humano, nos carinhos, na alimentação, nos cuidados com as vacinas e o bem estar. Geralmente acompanha um enxoval com roupinhas, brinquedos e frequentemente o veterinário é chamado carinhosamente de ‘o pediatra’ do filho peludo.

Observo que o animal muitas vezes é um treinamento para a futura maternidade da mulher. O casal recém-formado aprende a cuidar juntos de uma vida, dividem as responsabilidades, choram juntos com as doenças e montam painéis com muitas fotos da família feliz. Os três.

Esta lua de mel acaba normalmente quando a mulher apresenta um teste positivo de gravidez. O animal passa a ser então uma ameaça à saúde do bebê ainda por vir e muitos são abandonados, colocados para “adoção” ou são excluídos do convívio passando a viver em um quintal ou canil, amargando solidão e abandono sem ter noção do que aconteceu. Frequentemente estes animais desenvolvem auto mutilação de fundo emocional e comportamento agressivo ou depressivo.

A sacralização da gravidez humana, uma faceta de nosso antropocentrismo cego, leva a perda de uma excelente oportunidade de crescimento e saúde mental e física para as novas gerações. Mulheres grávidas e bebês humanos não são incompatíveis, muito pelo contrário. A maioria esmagadora das doenças contraídas por crianças são adquiridas dos próprios pais, parentes e amigos das creches ou escolas, porque a maioria dos agentes causadores de doenças na infância são espécie-específicos , ou seja, são bactérias e vírus que se desenvolveram e se adaptaram a crescer em determinada espécie. Dizendo de outra forma, a maioria das doenças de cães são doenças de cães e a maioria das doenças de humanos são doenças de humanos. Isto não é uma lei da biologia, pois existem doenças comuns a várias espécies.

Muitos médicos competentes, por não terem informação suficiente sobre zoonoses, preferem pecar por excesso e excluir o animal da família.

O convívio pacífico e saudável de humanas grávidas com animais é possível e salutar, principalmente se a pessoa tem bons hábitos de higiene pessoal. Mulheres grávidas devem evitar limpar caixas de filhotes de gatos, principalmente nos primeiros quatro meses de gestação pelo risco de contrair toxoplasmose, se bem que o contágio geralmente ocorre pela ingestão de frutas, verduras e legumes mal lavados e nas atividades de jardinagem sem luvas.

Outro mito é que criança que têm contato com gatos desenvolverá asma e que os gatos têm normalmente esta doença. Gatos não têm asma. Nenhum bebê se tornará asmático por contato com animais, mas se esta criança já for asmática (que é uma reação imunológica com a qual ela já nasceu) pode desenvolver os sinais ao ter contato com pelos ou secreções dos animais da família. Esta condição geralmente cessa com a idade e o amadurecimento do sistema imunológico, salvo casos especiais.

Dentre as doenças comuns entre espécies, que podem acometer bebês humanos, temos alguns problemas de pele como micoses, sarnas e parasitoses intestinais. Basta um bom exame clínico feito por um profissional atento e a manutenção da saúde do animal que participa da família, como já deveria ser de hábito e responsabilidade. O cão e o gato saudáveis não são uma ameaça para gestantes ou recém-nascidos.

A questão comportamental do animal após a chegada do recém-nascido pode demandar alguns cuidados pois são comuns as demonstrações de ciúmes que os pais podem interpretar como uma ameaça. Ora, se o cão foi tratado como bebê e centro das atenções, é de se esperar que ele estranhe e tenha ciúmes do novo ser que veio lhe tomar o lugar. A pior coisa a fazer é chamar a atenção de forma agressiva quando o cão se aproxima do bebê, porque este cão vai associar o bebê ao fato de ser rejeitado. Ele vai interpretar: todas as vezes que chego perto daquele ser, sou repreendido e rejeitado, então este pequeno humano não é bom para mim. Aja então naturalmente, sem palavras ou gestos agressivos, deixe que o cão se aproxime e sinta o cheiro do bebê e depois o afaste carinhosamente sem fazer alarde. Naturalmente. Nada mais emocionante do que uma criança interagindo com o animal que faz parte da família de forma feliz e saudável. Uma experiência que os próprios pais não podem proporcionar por si sós.

Os cães não substituem filhos e filhos não substituem cães porque não se ama um mais do que outro. Os amores são diferentes, os espaços que ocupam em nossos corações são diferentes. Todos temos um grande vazio interno a ser preenchido, uma parte por amigos, uma parte por filhos para quem os tem, uma parte por animais, uma parte por namorados e uma parte não será preenchida em nosso interior pela inquietação própria de nossa espécie.

Há quem diga que os animais são uma oportunidade de estabilidade emocional para nós. As relações que temos com nossos familiares, amigos e parceiros sempre tem chance de ser uma relação de amor e ódio. Com certeza alguém de nosso convívio já nos magoou causando dor e decepção. Nós também já magoamos alguém que amamos. Nossos cães e gatos porém nunca nos causaram mágoa. É uma relação estável em nosso dia a dia conturbado. Seu cão pode ter provocado momentos de raiva porque comeu seu sapato ou o controle da TV, mas ele nunca te magoou, por isto é uma ilha de estabilidade em nossos relacionamentos e que nos dá força para suportar outras interações tumultuadas. É o amor livre de mágoa. Raiva passa, mas mágoa marca mais e é mais difícil de trabalhar internamente. Ao proporcionar convívio saudável de animais e crianças, estaremos dando a elas a chance de uma estabilidade emocional que não podemos oferecer por mais que tentemos, pois não somos perfeitos.

Para um convívio saudável, feliz e proveitoso para todas as espécies, às vezes basta lavar as mãos com água e sabão, pena que o preconceito e a desinformação não possam ser lavados da mesma forma.


{article 957}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.