Grupo de criadores reinventa Goya como artista antitaurino

Grupo de criadores reinventa Goya como artista antitaurino

A Real Academia de Belas Artes de San Fernando inaugurou a exposição Otras tauromaquias, uma obra para recuperar e repensar Goya dois séculos depois. Artistas contemporâneos como Forges, El Roto, Niño de Elche e Chus Gutiérrez participaram levando uma visão crítica sobre os festejos taurinos.

Por Sabela Rodríguez Álvarez / Tradução de Marcelo Joazeiro

Espanha goya artista antitaurino

A Real Academia de Belas Artes de San Fernando recebe, desde 26 de abril até o dia 25 de maio, a exposição Otras tauromaquias, uma obra comissariada pelo historiador Rafael Doctor e projetada pela Capital Animal, associação em defesa dos animais, em que vinte artistas contemporâneos mostram suas obras antitaurinas em um diálogo com as gravuras originais de Goya sobre a tauromaquia.

Assim explicou o próprio Rafael Doctor, fundador da Capital Animal, durante a apresentação da obra, que qualificou como um “corajoso passo” para dar outro enfoque a algo que “todo mundo dava como fato”, a defesa taurina do pintor Francisco de Goya. O ativista não teve dúvida em afirmar que “se Goya estivesse vivo hoje, seria o máximo defensor contra esta barbárie” que “80% da população deste país não quer que continuemos”.

Doctor enfatizou a vontade de sua associação de enfrentar a violência através do diálogo e da arte. Deste modo, a exposição não apenas recorre às obras pertencentes à série sobre a tauromaquia – cuja primeira edição vem à luz pela primeira vez –, mas também mostra cerca de 25 diálogos entre artistas antitaurinos como Forges, El Roto, Niño de Elche e Chus Gutiérrez em um percurso por modalidades que vão desde a ilustração até a fotografia, vídeo documental, escultura e pintura.

Por seu lado, o escultor e acadêmico da Real Academia de Belas Artes de San Fernando, Juan Bordes, sustentou que esta é “uma exposição que devíamos a Goya”, sobre quem afirma que mostrou “uma atitude de dúvida” em sua obra sobre a tauromaquia, que completou duas décadas, até que finalmente “se decantou claramente” posicionando-se contra.

Para esta análise, o especialista acentuou a importância da última obra do autor no marco da série sobre a tauromaquia, que são quatro pinturas batizadas como Los toros de Burdeos, que mostram “o touro como o único inocente”, frente aos rostos do público e dos toureiros, que são representados de forma “monstruosa”, como a personificação de “quem quer se alimentar de sangue”.

Arte contra a “barbárie”

A exposição intercala a obra de Goya com a de artistas contemporâneos que se somaram para denunciar a continuidade dos festejos taurinos na Espanha. Entre a mostra se encontram ilustrações de El Roto, que “há anos grita contra esta barbárie”, como destacou Rafael Doctor. Também estão expostas as obras de Forges, Paco Catalán e do ilustrador Malagón.

Da mesma forma, nomes como o da artista basca Eider Agüero ou Manuel León têm eco na exposição, assim como Marina Vargas, autora do grande busto taurino banhado em vermelho sangue que preside a sala do museu madrilenho.

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Entre a obra exposta também se encontra material gráfico e documental. Destacam-se nesta categoria as imagens de Eva Máñez, fotógrafa que captura os rostos do público que assiste às corridas e de seus defensores, ou os vídeos de José Antonio e Chus Gutiérrez, esta última é a autora de um curta-metragem interpretado pelo cantautor Niño de Elche, que protagoniza um encontro cara a cara com um touro “para pedir-lhe perdão em nome de todos nós”.

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Há também espaço para o cinema em Otras tauromaquias. Por um lado, a exposição apresenta o cartaz do filme Santa Fiesta, dirigido por Miguel Ángel Rolland, que estreia agora no mês de maio. Trata-se de um documentário que aponta a religião como motivo que se esconde por trás da celebração de grande parte dos festejos taurinos na Espanha. Por outro lado, a artista Ruth Montiel expõe um altar em homenagem aos nove touros que morreram durante as rodagens do popular filme espanhol Blancanieves. Montiel apresenta também a documentação e as provas do juízo celebrado contra a produtora, que finalmente resultou em uma sanção por maus-tratos aos animais. 

A exposição se encerra com um vídeo de Jaime Alekos juntamente com a cantora La Ruina, da série Animaladas, na qual retrata o sofrimento animal em espetáculos circenses, zoológicos e em festejos taurinos. O estarrecedor curta-metragem mostra, em poucos minutos, a agonia dos touros ao entrarem na arena e as dores que sofrem desde a primeira até a última e fatal estocada.

Fonte: Info Libre

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