Hong Kong: as vacas selvagens desta ilha estão a passar fome. A culpa é do comportamento dos visitantes

Hong Kong: as vacas selvagens desta ilha estão a passar fome. A culpa é do comportamento dos visitantes
Até bem pouco tempo, a chamada Tap Mun ou Grass Island (ilha de relva) era conhecida pelos vastos prados, um cenário idílico para o gado que pastava pacificamente. Peter PARKS / AFP

Muitos esperam que o Ano do Boi traga abundância, mas começou mal para as vacas selvagens numa pequena ilha de Hong Kong. Os animais estão a passar fome pois os visitantes, em busca de refúgio em tempos de pandemia, invadem o seu habitat e pisam nas pastagens. 

Até bem pouco tempo, a chamada Tap Mun ou Grass Island (ilha de relva) era conhecida pelos vastos prados, um cenário idílico para o gado que pastava pacificamente.

Agora, os animais dificilmente encontram alimento porque as pastagens se transformaram em terras áridas. Hong Kong não é apenas feita de arranha-céus cada vez mais altos, mas também de um vasto território de campos e parques naturais.

A região possui uma fauna rica com cobras, javalis, macacos e cacatuas. E muitas vacas selvagens soltas na natureza. Algumas vivem em Tap Mun, uma ilha no extremo-nordeste, geograficamente mais perto da China continental do que dos arranha-céus no coração financeiro de Hong Kong.

Para chegar a essa ilha, onde vivem dezenas de famílias de pescadores, é preciso viajar uma hora de autocarro pelo parque Sai Kung e depois numa pequena embarcação (kai-to), que passa três vezes por dia, no máximo.

Uma odisseia até então realizada apenas por expedicionários e entusiastas de acampamentos mais rústicos. Isso foi antes de a pandemia pressionar os residentes de Hong Kong, que optaram por explorar os seus tesouros históricos.

Há um ano, transeuntes invadem parques remotos, trilhos e ilhas. E foi assim que as vacas selvagens de Tap Mun ficaram sem sustento.

É UMA CATÁSTROFE DO PONTO DE VISTA ECOLÓGICO

“De repente, multidões começaram a calcar a relva”, lamenta Ho Loy, que dirige a Lantau Buffalo Association, que luta pela proteção de vacas selvagens e búfalos.

Por toda a ilha, crescem trilhos antes inexistentes, destruindo o que antes era uma espessa camada de relva. O terreno do campo, onde as vacas costumavam pastar, transformou-se na área de terra batida e lama.

“A área foi pisoteada demais”, explica Ho. “O problema não se limita à relva que desapareceu. A camada superficial do solo onde a relva crescia também desapareceu. É uma catástrofe do ponto de vista ecológico”. Já existem associações a fornecer alimento para os animais.

Todos os meses, Ho oferece um workshop para ensinar voluntários a colher feno. Recentemente, acompanhou-os até uma localidade em Hong Kong para ensiná-los a manejar a foice. Assim que voltaram para Grass Island, os rebanhos cercaram-nos em busca de comida.

Devido à falta de pasto, o gado volta-se para as pessoas em busca de comida, ou vasculha no lixo deixado pelos visitantes. “Vimos vacas a vasculhar o lixo”, disse Jennifer Wai, que participou no workshop com o marido.

“Nós vimo-las a tentar comer guloseimas que estavam dentro de uma caixa. Eles engoliram a caixa. Foi triste ver”. Ho também quer sensibilizar os visitantes que alimentam esses animais. “Pode ser perigoso”, avisa. “Algumas vacas têm um estômago estranho, como se estivesse inchado. Isso significa que elas têm muito plástico no sistema digestivo”.

Por Yan ZHAO 

Fonte: Sapo / mantida a grafia lusitana original 

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.