Ilha Maurício carrega memória do dodo, a ave extinta mais carismática do mundo

Ilha Maurício carrega memória do dodo, a ave extinta mais carismática do mundo
Dodo de gesso e pintado alegoricamente em frente à fachada do Museu de História Natural de Maurício, na capital Port Louis. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Banhada por águas turquesas e com praias de areia branca, a Ilha Maurício, localizada no Oceano Índico, aproxima-se da imagem do paraíso perdido. Mesmo que sua beleza natural ainda exista, nada se compara aos relatos de como era no passado.

Há 8 milhões de anos, uma massiva erupção vulcânica deu origem à Ilha Maurício, provocando ondas enormes por toda a superfície do mar. Acredita-se que os cágados tenham sido as primeiras criaturas residentes da ilha, transformando-se em seres gigantes, reinando sobre o habitat. Ao longo dos séculos, uma flora exuberante foi se desenvolvendo, adaptando-se às peculiaridades do solo.

Diferentes espécies de aves migratórias também encontraram na ilha um lugar seguro para procriar ou descansar de suas longas jornadas. Papagaios, uma pomba-rosa e outras aves raras fizeram dali um novo refúgio onde podiam viver sem medo de ser atacados por predadores.

Pintura retrata dodos em seu habitat, no Museu de História Natural de Maurício. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Uma ave que circulava livremente pela ilha era o dodo (Raphus cuculatus), um grande pássaro de asas curtas que já não voava quando foi descoberto. Seu bico longo e forte era capaz de quebrar as amêndoas mais duras que existiam na região, possivelmente um de seus alimentos favoritos.

Não se sabe a origem do nome, simples e engraçado. Alguns acreditam que a palavra tenha origem em “dodoor” (preguiçoso), pois era assim que os holandeses, primeiros navegadores que chegaram a Maurício, o chamavam. Outros acreditam que o nome tenha relação com a palavra “dodaars”, que ainda em holandês significa traseiro gordo ou nó no traseiro. Ambas as características combinavam bem com a ave, que não precisava voar para se deslocar, alimentar ou se proteger.

Uma escultura ao ar livre de um dodo na Ilha das Garças, uma das 49 ilhotas ao redor de Maurício. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

O certo é que, ao desembarcarem na ilha em 1598, os navegadores holandeses, que vasculhavam os mares em busca de preciosidades, como a madeira ébano, mudaram para sempre o destino do animal.

Sem demonstrar medo ou desconfiança, os dodos foram facilmente capturados pelos holandeses. O exotismo do dodo tornou a ave um presente perfeito para os reis e imperadores da época. Há notícias de que as aves teriam sido enviadas ainda vivas à corte do imperador Rodolfo II, em Praga, e ao soberano Jahangir Khan (1605-1627), na Índia. Os dodos teriam sido levados até o Japão e foram vistos durante exibições em Londres. Como a voga de presentear dodos deu certo, há relatos de que centenas deles não sobreviveram à longa jornada do Índico até a Europa, presos em caixas de madeira.

Depois da chegada dos holandeses, a população de dodos em Maurício começou a diminuir espantosamente. No entanto, o pior ainda estava por vir. Com os navios europeus, chegavam também ratos e macacos. Esses animais exóticos introduzidos na ilha logo se tornaram uma peste e passaram a representar uma grande ameaça ao dodo por devorar seus ovos.

O dodo não apenas foi capturado pelos humanos, como também seus ovos foram devorados por espécies invasoras, como ratos. Museu de História Natural de Maurício. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Assim, apesar de uma população abundante antes da chegada dos seres humanos, em pouco tempo o dodo foi extinto, desaparecendo para sempre da face terrestre. O último animal foi visto em 1668, na região hoje conhecida como Port Louis.

Hoje, tudo que sobrou da ave em Maurício está no Museu de História Natural, que abriga pinturas e algumas reconstruções ósseas, tentando manter viva a lembrança do animal. A extinção do dodo é um dos maiores símbolos da ignorância humana e desrespeito com outras espécies.

Um esqueleto incompleto do dodo em sala do Museu de História Natural de Maurício. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Um livreto do artista plástico Khalil Muthy, nascido na capital Port Louis, tenta recuperar a história da ave. Muthy teve a preocupação de pesquisar e registrar com suas pinturas as paisagens da ilha antes da chegada dos europeus. Uma de suas paixões foi também estudar a fauna e a flora da ilha com a esperança de que essas informações pudessem conscientizar as pessoas.

Depois de extinta, a ave tornou-se símbolo da Ilha de Maurício. Além de virar nome de pousadas, hotéis, restaurantes e estabelecimentos para atrair turistas, sua figura aparece em muitos documentos oficiais do país, inclusive nos bilhetes de 25 rupias da moeda local. O dodo também virou personagem do livro Alice no País das Maravilhas, publicado em 1865 por Lewis Carroll. No capítulo 3, a ave convence Alice e outros animais a realizar uma corrida em círculo, sem vencedores.

Nota de 25 rupias com desenho transparente do perfil do dodo no lado direito. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)
Alice e dodo conversam, ilustração do livro Alice no País das Maravilhas. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

As iniciativas para encontrar evidências sobre o comportamento da ave começaram apenas em 1828 no Museu Ashmolean da Universidade de Oxford. O trabalho resultou na obra científica publicada em 1848 por Strickland e Melville, que buscaram separar mitos e a realidade de uma das aves extintas mais carismáticas do mundo.

Logo depois, uma grande descoberta aconteceu em 1865 em Maurício, quando o professor britânico George Clark encontrou uma grande quantidade de ossos do dodo na localidade de Mare aux Songes, um brejo no sul do país. Os ossos foram enviados imediatamente a Oxford. Em 1900, outro episódio interessante aconteceu: um morador de origem francesa deparou com dois esqueletos completos do dodo na região das montanhas da capital do país. E, recentemente, em 2005, no mesmo brejo Mare aux Songes, cerca de 8 mil pedaços de ossos de dodo e outros animais contemporâneos foram encontrados e datados de quatro milênios.

Um frango-d’água, uma pequena avestruz e um parente do abutre… Assim, o dodo foi descrito pelos primeiros cientistas. Até então, as pinturas retratavam o dodo como um animal com corpo grande e arredondado, um pouco desproporcional considerando sua cabeça pequena, e com um bico longo, quase grotesco.

Com o desenvolvimento da ornitologia e graças aos ossos encontrados, os biólogos estudiosos passaram a questionar a verdadeira anatomia da ave, assim como seus hábitos. Sem considerar os princípios básicos de anatomia, as pinturas do século XVII retratam o dodo com formas desproporcionais, com asas, pernas e olhos muitas vezes localizados de maneira incorreta e com dimensões mais imaginárias que reais.

Uma pintura a óleo do dodo datando de 1626, quando a ave ainda existia em Maurício. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

O dodo tornou-se uma lenda, um emblema da luta contra a extinção das espécies. Mas, como o dodo, outras 320 espécies de vertebrados que habitavam nosso planeta foram extintas desde o ano 1500. Segundo o cientista mexicano Rodolfo Dirzo, da Universidade Stanford, coautor do artigo Defaunação no antropoceno (revista Science, julho de 2014), a defaunação dos últimos 500 anos é tão grande que pode ser comparada com as outras cinco extinções em massa que o planeta já conheceu. As principais causas reconhecidas são o aquecimento global e a perda de habitat.

O neologismo “defaunação” significa a perda de espécies ou a diminuição na abundância de populações selvagens. A palavra remete ao conceito do desmatamento, um termo mais conhecido, para que as pessoas entendam que, assim como as florestas, a fauna também está desaparecendo.

Apesar de ser um símbolo alegórico para atrair turistas à bela Ilha Maurício, o recado deixado por dodo é bem mais profundo: que sua extinção sirva como exemplo a não ser seguido pelas ações predadoras do homem.

Uma escultura em pedra renascença, do artista plástico chinês Nampeng Zhuang, em Morne Brabant, Maurício. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)
A autora Giselle Paulino com uma estátua do dodo no gramado do Museu de História Natural. (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Por Giselle Paulino e Haroldo Castro

Fonte: Época

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