Informar-se e aprender

É desnecessário enfatizar que vivemos um momento no qual praticamente todas as informações obtidas pelos mais diversos métodos são disponibilizadas na rede virtual. Isso quer dizer que basta nos interessarmos por algum assunto, clicar nos meios de busca on-line e lá está, na tela, o que outros já sabem, e nós ainda não sabíamos. Lemos e sentimos aquele prazer, ou desprazer, que acompanham inevitavelmente a atividade mental pela qual obtemos o que buscamos, não importa se o objeto é intelectual ou sensual.

Esse momento trouxe consigo uma grande ilusão. Ao ficarmos sabendo das coisas que nos despertam algum interesse, temos a impressão de que aprendemos algo com essa informação. A ilusão é justamente esta: achar que, por clicar e passar os olhos rapidamente sobre um texto que nos é oferecido, sem que sequer saibamos algo sobre a autoridade que nos oferece essa informação, já é ter aprendido algo.

Na ética, só nos damos por aprendizes de alguma prática quando ela é adotada em nossas vidas. Mas, para adotar-se uma nova prática é preciso abrir espaço nos hábitos cultivados até então. Temos sempre um grande problema com isso. Nosso organismo e mente são formados para nos manter em equilíbrio contínuo, uma hipótese sem a qual não conseguiríamos entender como é que conseguimos sobreviver. O equilíbrio que nos permite sobreviver, no entanto, não tem qualquer juízo de valor. Práticas arraigadas em nossa vida cotidiana já criaram uma crosta em nossas mentes, e uma certa rotina química ou metabólica em nossos cérebros, que nos dão essa ilusão de que tudo está bem, porque conseguimos “funcionar” normalmente. É certo que nem todos esses hábitos mecânicos e metabólicos representam um bem para nossa saúde ou para nossa interação na condição humana. Mas, na maioria das vezes, as pessoas só se dão conta de que alimentaram hábitos ou fomentaram práticas nocivas a si e aos demais quando as sequelas disso aparecem na forma de doenças físicas ou psíquicas, ou nas diversas formas pelas quais a violência se expressa.

Saber de algo por meio das informações disponibilizadas pela internet ainda não está próximo de se ter aprendido algo com isso. Para que se tenha aprendido, é preciso que a informação passe por esses sistemas, cerebral, mental e físico, quer dizer, é preciso que a nova informação seja compreendida, e que o sujeito que a compreendeu tenha a disposição de revisar suas práticas ou hábitos no sentido de erradicar ou abolir o que até então havia sido mantido por inércia. Tal disposição, na ética, chama-se boa vontade, que se opõe à vontade interesseira ou oportunista que caracteriza a moralidade instrumental, essa que julga que a única forma de ser racional é calcular sempre o melhor modo de obter vantagens para si usando outros como meios.

Enfim, para se poder ser ético, precisamos estar informados sobre a natureza dos seres que são afetados por nossas práticas ou hábitos cotidianos. Em segundo lugar, é preciso canalizar energia mental para a área da vontade, de modo que aquelas informações obtidas mecanicamente pelas consultas que fazemos, à internet ou aos livros, e pela audiência a conferências e palestras do nosso interesse, possam ser admitidas como visitantes que nos deslocarão do lugar que costumamos ocupar. E, por fim, é preciso que esse deslocamento seja encarado como mais um passo no processo de transformação do nosso ser ególatra, racista, sexista e especista, em um ser cuja mente compreende a interação infinita com todos os demais seres vivos e a responsabilidade pelo bem, ou pelo mal, que nosso modo de vida representa para eles.

Poderíamos agora nos perguntar: se tudo isso está acessível aos humanos, por que temos tanta barbárie à volta, contra humanos, contra animais e contra os demais ecossistemas naturais?

Para mim, a resposta é: porque estamos envoltos num véu de ilusão que nos faz pensar que clicar sobre uma nova informação é o ato mais gigantesco que se pode esperar de nós, e que somos tão firmes em nossa estruturação cognitiva e moral que nenhuma informação que nos cai sob os olhos tem força suficiente para nos demover de nossa inércia moral e estilo de vida. Desse modo, por mais que passemos horas diante do computador a consultar páginas com textos que nos interessam, no momento em que desligamos a máquina nada se altera em nosso cérebro, pois as informações continuaram lá, fora de nós. Para que elas façam parte de nós, é preciso a disposição da vontade de mudar o rumo do próprio projeto de vida.

As informações sobre o sistema cruel no qual são criados e abatidos animais para servir propósitos humanos que não beneficiam a saúde e a moralidade humana, mas dão muito lucro aos empresários que o mantêm, estão aí. É preciso que, após inteirar-se da crueldade praticada contra as vacas e as galinhas para extração de excreções e secreções de seus sistemas reprodutivos, leite e ovos, por exemplo, tenha-se a disposição da própria vontade em não assinar mais embaixo desse contrato, cujas cláusulas jamais foram publicamente expostas para que os consumidores pudessem fazer suas escolhas. E, para que tal disposição não seja vã, é preciso que os hábitos de ingestão de quaisquer alimentos que contenham ingredientes produzidos às custas do sofrimento de vacas e galinhas, por exemplo, sejam abolidos da vida diária daqueles que fizeram o primeiro movimento, o de buscar essas informações, e o segundo movimento, o de disponibilizar sua vontade para desassinar tal contrato.

Informar-se é uma coisa. Aprender, outra. Esta, requer mudança na vida. A primeira, não.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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