Jamais visite zoológicos de beira de estrada. Aqui está o porquê.

Jamais visite zoológicos de beira de estrada. Aqui está o porquê.

Por Christina M. Russo / Tradução de Alda Lima

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Situado em algum lugar entre Boston e Berkshires, na cidade de Ludlow, Massachusetts, existe uma decadente instalação de beira de estrada cheirando a urina chamada Lupa Zoo.

O Lupa Zoo poderia razoavelmente ser descrito como um jardim zoológico conturbado. Ele foi inspecionado pelo menos 15 vezes pela USDA (encarregada de supervisionar zoológicos licenciados no país) desde 2005, e em apenas um dos casos, segundo o que o site The Dodo seguiu encontrar, não recebeu nenhuma citação da USDA. O zoológico – que O The Dodo visitou sem aviso prévio – foi repreendido por um número de razões, incluindo a não prestação de cuidados veterinários adequados, não fornecer recipientes para água potável e para sanitários e por deixar a alimentação dos animais endurecer em meio à lama. Ele foi citado por ter pontas de metal, pregos e fibra de vidro dentro ou expostos nos recintos dos animais e por não manter registros médicos, de nascimento ou de morte atualizados sobre os animais. Só de 2012 até hoje, de fato, o Lupa Zoo foi citado por 13 violações de não conformidades.

Mas isso não se traduz necessariamente na ação que alguns defensores preferem ver acontecer: o fechamento do zoológico.

Richard Farinato, ex-especialista em animais selvagens em cativeiro da The Humane Society dos Estados Unidos (HSUS), e um defensor de décadas que já viajou para zoológicos ao redor do mundo, diz que o Zoo Lupa é “pior que qualquer coisa que já vi em todos os anos que venho fazendo este trabalho”.

Mas, ele sustenta, as leis e regulamentos federais no país, incluindo a Lei de Bem-Estar Animal (Animal Welfare Act, ou AWA), são demasiado fracos para proteger eficazmente os animais do jardim zoológico. “O verdadeiro problema é que não temos regulamentação federal especifica. É muito generalizada. E raramente aplicada”, diz ele.

Assim, o Lupa Zoo permanece aberto ao público.

Isto não é nenhuma surpresa para Lisa Wathne, atual especialista em animais selvagens em cativeiro na HSUS. “O Lupa Zoo se parece com centenas de outros zoológicos de beira de estrada em todo o país – basicamente uma coleção de animais em jaulas pequenas, muitas vezes sujas, em ambientes completamente não naturais”, diz. “Eu gostaria de poder dizer que isto é incomum, mas simplesmente não é.”

Wathne recorda que nos termos da Lei da Bem-Estar Animal (AWA), as condições de vida dos animais em jardins zoológicos regulados pela USDA são fixadas a um mínimo: “As leis que existem para proteger os animais ou para regular zoológicos como este são tão fracas que, basicamente, oficializam a crueldade animal. A AWA é incrivelmente fraca. Ele basicamente só exige que os animais tenham comida suficiente e água para se manter vivos e espaço suficiente, basicamente, para virarem de lado, levantarem e deitarem “.

Recentemente, o The Dodo fez fotos e vídeos dos animais no Lupa Zoo e os enviou para Wathne e Farinato para análise. Algumas dessas fotos – e comentários – estão abaixo:

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Arctitus Binturong

Wathne: “. Este binturong está à procura de água. Obviamente sua água está imunda. Sua boca está aberta. Parece que ele está olhando para você, o que me faz pensar que ele está acostumado a implorar por comida. É uma triste foto….”

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Urso negro asiático (De acordo com o USDA, o Jardim Zoológico Lupa tinha três ursos negros asiáticos em 2014, mas apenas um foi visto na visita do The Dodo).

Wathne: “Isto é de partir o coração. Pelo que vejo nesta foto, obviamente a água da piscina parece imunda. É difícil dizer com certeza, mas eu especularia que o urso está obeso. Além disso, é uma área muito pequena para um urso, muito menos três. Ursos são uma espécie que sofre horrivelmente em cativeiro — até mesmo jardins zoológicos conceituados com equipe experiente e orçamentos têm dificuldade em propiciar o ambiente e os cuidados de que os ursos precisam a fim de manter a sanidade “. Além disso, ela observa que os ursos asiáticos precisam e querem água para tomar banho e se refrescarem: “Esta piscina parece ser insuficiente para beber ou tomar banho uma vez que é tão suja e pequena”.

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Tigelas de água e comida

Farinato: “Não há desculpa para isso. Estão cheias de algas, sujeira e espuma acumulada — e se você as inclinasse encontraria uma camada viscosa”.

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Portas dos recintos

Farinato: “Parece uma masmorra: Uma corrente e cadeado. Não há nenhuma preocupação com as necessidades dos animais ou necessidades das pessoas que trabalham nesses cercados”.

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Camelo

Farinato: “A pata traseira deste camelo está manchada de fezes muito moles ou diarreia. Poderia estar lá há dias ou uma semana”.

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Sinalização

Wathne: “Isso é tão comum… a condição destes sinais é uma clara indicação de que não são nada comprometidos com educação ou conservação”.

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Iaque

Wathne: “A pele do iaque parece muito problemática. Isso não é normal. Está grossa em sua garupa. Tem crostas. Este iaque também está sozinho, e estes são animais de rebanho…..”

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Girafa

Wathne: “A coisa que sempre me deixa mais triste sobre girafas em zoológicos de beira de estrada é que elas muitas vezes estão sozinhas. Girafas são animais que vivem em grupo, de modo que manter uma girafa solitária é muito difícil. Mais e mais zoológicos de beira de estrada estão aderindo à última moda, que é deixar que o público alimente as girafas. ” (O Lupa Zoo permite que o público alimente a girafa, de acordo com o site do USDA, em 2014, apenas uma girafa foi de propriedade do Lupa Zoo.)

O The Dodo também pediu que outros especialistas analisassem vídeos de um porco-espinho norte-americano e uma avestruz no jardim zoológico de Lupa:

Uldis Roze, Ph.D., professor emérito da Queens College em CUNY e autor de “Porcupines: The Animal Answer Guide (Porcos-espinhos: O Guia de Resposta Animal)”: “O comportamento do porco-espinho me parece incomum por causa do modo nervoso de andar para lá e para cá. Os porcos-espinhos selvagens que já vi tipicamente reagem ao que os irrita virando as costas e eriçando os espinhos. Eles não andam de um lado para o outro. “

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Dr. Mark Pokras é um veterinário de vida silvestre na Escola Cummings de Medicina Veterinária da Universidade de Tufts. Pokras disse que achou a respiração do avestruz macho “preocupante”: “Ele tem uma espécie de boca aberta, respiração muito profunda na maioria das vezes, e sua traqueia está bem aberta.” Pokras também diz que está surpreso pela ave ter continuado sentada em seu esterno, mesmo quando o repórter se aproximou do animal. Pokras salienta que não sabe a história médica do animal e não tem certeza se as costas nuas do avestruz são devido à muda (Farinato sustenta que o animal não está na muda e suas costas nuas são devido a uma lesão).

O Dodo pediu ao Zoo Lupa que comentasse e respondesse as perguntas sobre as condições de seus animais, mas não obteve retorno até o momento da publicação.

Inspecionando zoológicos de beira de estrada – e depois?

O Lupa Zoo – como todos os jardins zoológicos de beira de estrada licenciados nos EUA – é regulado pelo USDA. O USDA é encarregado de fazer cumprir a Lei Federal do Bem-Estar Animal.

De acordo com Lyndsay Cole, diretora-assistente de assuntos públicos do Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal do USDA (USDA’s Animal and Plant Health Inspection Service, ou APHIS), existem 2.577 expositores licenciados pela USDA no país. Esse número inclui circos, exposições educativas, performances com animais, fazendas, parques de vida selvagem e zoológicos.

O USDA não tem mandato para inspecionar estes zoológicos anualmente.

Em vez disso, Cole explica, a APHIS usa um sistema baseado em risco para determinar exigências mínimas de controle, e estas inspeções são muitas vezes alimentadas por denúncias públicas: “Além de realizar inspeções não anunciadas de conformidade das instalações licenciadas e registadas, funcionários do Cuidado Animal (AC) também realizam inspeções em resposta às preocupações legítimas e queixas recebidas do público “, diz o site do USDA.

O Lupa foi inspecionado em 12 de maio – quatro dias depois da visita do The Dodo, em resposta às preocupações descritas pelo repórter. O relatório de inspeção da USDA só fica disponível para o público 21 dias depois de ser finalizado.

O Lupa foi inspecionado, em alguns casos, mais de uma vez por ano desde 2005 – o que não significa que tenha se transformado em um lar apropriado para animais selvagens. Ele também nunca foi multado pelo USDA por nenhuma de suas violações.

Enquanto zoológicos de beira de estrada fornecerem as necessidades mínimas exigidas pela AWA para os animais, eles podem continuar a operar, diz Wathne: “O Lupa Zoo tem sido citado por muitos anos por muitas violações da AWA mas infelizmente nada resultou disso. Em dessa vez disso, o que acontece é que o USDA apenas inspeciona o zoológico, anota suas violações, determina um lugar que precisa de conserto e vai embora. E se aquilo não for corrigido, eles simplesmente anotam tudo novamente. “

Wathne diz que este ciclo acontece ano após ano nas instalações: animais continuam a sofrer já que essas repetidas violações não resultam em nenhuma ação significativa.

E mesmo que o USDA feche um jardim zoológico, explica Wathne, isso não necessariamente significa uma “nova” vida para o animal em cativeiro. “Nos poucos casos em que o USDA realmente completou o processo de fechamento de um jardim zoológico – o que pode levar anos – eles não confiscaram os animais”, explica ela. Em vez disso, os animais definham como animais de estimação privados dos proprietários ou são dados para outros zoológicos de beira de estrada. Para rever a história da revogação da licença em zoológicos de beira de estrada por parte do USDA, clique aqui http://www.dm.usda.gov/oaljdecisions/.

Tanya Espinosa, especialista em assuntos públicos no USDA-APHIS, explica o protocolo ainda mais: “Se uma licença for revogada, isso não significa que os animais sejam confiscados; os animais ainda pertencem ao proprietário. Isso significa que o proprietário não pode conduzir. uma atividade regulada. O proprietário pode continuar a manter os animais como animais de estimação privados se o seu estado permite que os façam, ou podem vender / transferi-los para outro local sob uma autoridade especial”. Espinosa ressalta que o USDA não pode decidir o que o proprietário fará com os animais que não está mais autorizado a exibir.

Farinato acredita que como não há um local estabelecido para onde esses animais devem ser enviados caso um zoológico for fechado, o USDA raramente fecha instalações: “Se eles entrassem nesses lugares e dissessem: ‘Estamos fechando vocês’, há poucas opções. E a eutanásia não é uma opção porque o público ficaria irado, mesmo que seja o melhor para essas pobres criaturas”.

Na verdade, os animais, diz Farinato, quase nunca saem do ciclo de zoológico de beira de estrada: “Simplesmente não há final feliz para esses animais”.

Inspeção do MSPCA do Lupa Zoo

Fotos do Lupa Zoo tiradas pelo The Dodo também foram enviadas para a Sociedade de Massachusetts para a Prevenção da Crueldade contra os Animais (Massachusetts Society for the Prevention of Cruelty to Animals , ou MSPCA) para revisão. Em resposta, Christine Allenberg, oficial da lei para a MSPCA, realizou uma investigação em 12 de maio em conjunto com os inspetores da USDA.

Allenberg contou ao The Dodo que já visitou o Lupa Zoo para fiscalização em inúmeras ocasiões ao longo de muitos anos. O papel do MSPCA, explica ela, difere da do USDA: “O nosso único papel no que diz respeito aos jardins zoológicos é investigar denúncias de crueldade, quando as recebemos, pertinentes ao estatuto de crueldade animal do estado, “o que, no que diz respeito aos jardins zoológicos, só nos permite abordar violações relacionadas a abrigo insuficiente ou a retenção de cuidados médicos necessários – que é limitada ao tratamento de lesões físicas, mas não inclui estresse ou comportamentos emocionais”.

“Nós não definimos”, diz Allenberg, “nem podemos impor, quaisquer orientações relacionadas ao enriquecimento emocional ou exames de bem-estar em curso de animais em jardins zoológicos”. Isso, diz ela, é domínio exclusivo do USDA.

Allenberg disse que não encontrou quaisquer violações ao estatuto de crueldade no Lupa Zoo em sua recente visita.

“Nós não encontramos nenhuma violação flagrante da lei. tentamos educar as pessoas (proprietários). Nós lhes dizemos: “Você pode fazer isso para tornar isso melhor”, ou “eu mudaria isso ou sugiro que acrescente aquilo” diz Allenberg. “O Lupa Zoo sempre foi receptivo a isso”.

Fotografias analisadas pelo MSPCA incluíam algumas das fotos também enviadas para Farinato e Wathne, incluindo o cercado do urso, bem como o da lontra do zoológico:

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Allenberg não ficou preocupada com a água da piscina da lontra ou o cercado do urso. “Não havia algas na água. Eu não vi isso”, disse, com base em sua visita. “Algumas dessas piscinas têm uma matiz porque são piscinas verde azuladas e isso mancha um pouco.”

Quanto à agitação do porco-espinho, Allenberg diz que comportamento estereotipado é comum em animais enjaulados, mas não dá razão para confiscar o animal.

Allenberg diz a cada temporada, o MSPCA recebe cerca de cinco ou seis queixas do público sobre o Lupa Zoo. Mas, continua ela, “isso não é muito”.

Quando perguntada por que pode haver um desacordo entre suas observações e as de Wathne e Farinato da HSUS, Allenberg diz: “Meu foco é investigar denúncias de crueldade e determinar se, baseado no que eu vejo, há uma violação que pode ser processada. No caso do Lupa Zoo a maioria dos animais são mais velhos e não estão sendo mantidos no tipo de recintos que você e eu poderíamos achar serem os mais apropriados para animais selvagens que vivem em jardins zoológicos. E é muito provável que suas condições de vida estejam contribuindo para o tipo de comportamento emocional e baseado em estresse que os visitantes têm testemunhado “.

“Mas”, continua ela, “isso não é algo que possamos processar, de acordo com a lei.” Ela acrescentou que falou com o USDA sobre uma ferida que viu na extremidade traseira de um urso e confirmou que ele estava recebendo cuidados médicos no machucado.

O papel do público

Além do USDA, diz Farinato, o público faz a sua parte ao permitir que jardins zoológicos de beira de estrada como o Lupa Zoo mantenham suas portas abertas.

“É tão deprimente,” observa Farinato. “Dois anos atrás eu estava revendo uma série de jardins zoológicos de beira de estrada semelhantes ao Lupa E havia pessoas nesses lugares — Mães com seus bebês — e tudo em que eles pensavam era em se divertirem.” (Mas as atitudes podem estar mudando: Uma nova pesquisa do Gallup diz que 57 por cento dos americanos estão muito ou um pouco preocupados com a forma com que animais de zoológico são tratados atualmente.)

Wathne reforça esse sentimento: “Esses animais passam suas vidas inteiras em privação. E é um mistério para mim como as pessoas passeiam nestes estabelecimentos e não reconhecem o sofrimento que está bem na frente delas”.

Allenberg do MSPCA reconhece este fator também, mas sugere que a questão é ainda mais profunda: “Ninguém diz que gosta de ver um animal em uma jaula. Mas, na verdade, a nossa sociedade permite isso”.

Na verdade, ela continua: “Nós exigimos isso”.

Fonte: The Dodo 

Nota do Olhar Animal: Não visite zoológicos de beira de estrada ou quaisquer outros, pois exploram comercialmente o confinamento dos animais sob pretexto de “conservar espécies” e, pior, o de “educar”, o que seria risível se não fosse tão trágico para os animais. A única coisa que se ensina em zoos é sobre como tornar o animal um objeto para satisfazer a curiosidade danosa do público e sobre como ignorar os interesses próprios destes animais. 

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