Jovem baleia se automutila no Aquário de Vancouver, no Canadá

Jovem baleia se automutila no Aquário de Vancouver, no Canadá

Por Samantha Lipman / Tradução Alice Wehrle Gomide

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Uma jovem baleia foi observada com feridas atribuídas ao comportamento de automutilação. A biologista marinha Dra. Ingrid Visser, fundadora e principal cientista do Orca Research Trust, recentemente observou o indivíduo, conhecido como Chester, e documentou uma ferida em seu queixo causada por esse comportamento. Chester, uma falsa orca, atualmente mora em um tanque no Aquário de Vancouver no Canadá.

Preocupação por Chester

Apesar das observações e evidências fotográficas de Visser, Dr. Robin Baird, um pesquisador de falsas orcas e biologista do Cascadia Research Collective, se opôs à preocupação de Visser pelo bem estar de Chester, dizendo que ele é simplesmente jovem e desajeitado. Em uma entrevista ao One Green Planet, Baird disse, “O que eu vi nas fotos foi uma abrasão no maxilar inferior de Chester e eu diria que é uma pequena abrasão. Eu pessoalmente não chamaria isso de automutilação. Ele é uma baleia de um ano de idade, que foi separado de sua mãe quando tinha apenas algumas semanas de vida, e é difícil não imaginar que um animal nesta situação não terá dificuldade em se adaptar às novas circunstâncias”.

Ele continuou, “Eu penso que o Chester está provavelmente se sentindo sozinho, e ao mesmo tempo ele está crescendo e explorando as coisas em sua nova piscina. Não me surpreende que ele possa interagir e se esfregar nas coisas. A questão é como você interpreta o porquê de ele estar fazendo isso. É porque ele está neurótico por estar em cativeiro e se automutilando, ou é porque ele foi separado de sua mãe com apenas algumas semanas de vida e efetivamente ainda é um bebê nesse estágio?”

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A porta-voz do Aquário de Vancouver, Deana Lancaster, respondeu ao email que solicitou informações sobre o bem estar de Chester e sua ferida. Ela disse que “não havia ninguém disponível para providenciar as respostas”. Coincidentemente, depois de 24 horas do envio do email, o Aquário de Vancouver publicou um blog em uma aparente tentativa de desviar as perguntas dirigidas a eles. No blog, o próprio veterinário do aquário, Dr. Martin Haulena, admitiu que Chester está apresentando um comportamento “para chamar atenção”, o que resultou na abrasão.

Uma consequência do cativeiro

Chester foi supostamente considerado não adequado para ser solto por uma banca de especialistas convocado pelo Departamento de Pesca e Oceanos do governo canadense, embora as evidências agora sugiram que a decisão de manter Chester permanentemente em cativeiro foi feita antes de a banca ser formada. Mesmo assim, esta banca também aconselhou que Chester ficasse com membros de sua própria espécie, já que as falsas orcas são conhecidas por formarem laços sociais fortes e permanentes. Entretanto, não há no momento nenhuma outra falsa orca em cativeiro no continente norte americano. Apesar desta recomendação, Chester está mantido em um tanque com uma fêmea de golfinho conhecida como Helen. O Aquário de Vancouver adquiriu Helen do Enoshima Aquarium no Japão. Juntos, Chester e Helen fazem shows diários para a platéia pagante.

Visser explica que a decisão de manter Chester em um tanque de concreto tem um custo elevado para sua qualidade de vida e, portanto, seu bem estar. “Eu já passei muitas horas observando cetáceos (baleias, golfinhos e botos) na natureza e em cativeiro, mas é somente em cativeiro que você vê comportamentos anormais e repetitivos, que são denominados de estereotipais”. Ela diz, “As necessidades biológicas dos animais ficam comprometidas e eles lidam com isso de formas diferentes. Alguns mastigam concreto e, no caso de Chester, ele está batendo seu queixo, aparentemente em uma janela. Estes comportamentos estereotipais podem levar à automutilação”.

Identificando automutilação

Automutilação é um termo que descreve dano físico auto infligido, e é uma subcategoria de estereotipia, embora não pareça haver nenhuma definição aceita. A ênfase do comportamento de automutilação não parece ser focada muito no por que um animal apresenta tal comportamento ou qual é esse comportamento exatamente, mas no fato de que o comportamento nasce das necessidades frustradas, que é um comportamento tipicamente repetitivo sem uma função real aparente, e que isso causa dano físico ao animal. O comportamento de Chester para “chamar atenção” parece se encaixar nesta descrição, pelo menos parcialmente, já que nasceu do resultado de necessidades frustradas. Entretanto, é incerto neste caso se o comportamento é repetitivo e neurótico.

Em adição aos cetáceos, a automutilação também foi observada em aves, tartarugas e primatas cativos, assim como em humanos e cavalos domésticos, isso citando somente algumas espécies. Dependendo da espécie, a automutilação pode se manifestar em comportamentos diferentes, incluindo arrancar penas, bater a cabeça, se esfregar, mastigar concreto e morder uma barra de ferro.

“Este tipo de comportamento já foi bem documentado em uma variedade de animais cativos e domesticados, e ele tipicamente escala até que você vê feridas como as que eu fotografei”, Visser diz, explicando que ela fotografou automutilação em vários indivíduos, incluindo uma jovem orca fêmea conhecida como Morgan. Assim como Chester, Morgan também foi resgatada e agora está permanentemente em cativeiro, mas no Loro Parque, na Espanha. Descrevendo o comportamento de automutilação de Morgan, Visser diz, “Morgan mastiga concreto tão frequentemente que ela já gastou alguns dentes até chegar nas gengivas, e ela bate seu queixo, o que frequentemente faz com que a pele se rompa, resultando em feridas abertas. Isto já aconteceu tantas vezes que ela agora danificou o tecido permanentemente; nas fotos isto é visto como uma área mais escura no pigmento branco. Não é possível ver se Chester possui um dano similar por causa do pigmento já escuro em seu queixo”.

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Referindo-se às orcas, Baird concorda que é “praticamente impossível” recriar o ambiente que uma espécie tão complexa precisa para prosperar. A banca especialista que decidiu o destino a longo prazo de Chester também identificou que as falsas orcas possuem necessidades complexas similares, como exibido nas recomendações para a habitação a longo prazo de Chester.

A delicada linha entre resgate e cativeiro

Visser ainda diz, “Estou achando cada vez mais difícil continuar pensando nesses ‘resgates’ como resgates. Eu acho que temos que ser mais realistas e nos referirmos eles como ‘salvamentos’. Um verdadeiro resgate retornaria os animais à natureza, enquanto que um ‘salvamento’ pega algo que está salvo da destruição e o coloca para uso futuro. Nestes casos, ambos Chester e Morgan são usados para shows comerciais para uma plateia pagante. Eles agora estão sendo usados em circos aquáticos e isso não é um resgate”.

Stephen Marsh, gerente operacional do British Divers Marine Life Rescue, diz, “Uma crescente massa de pessoas está cética sobre as reais intenções dos delfinários, que pretendem fazer resgates de baleias e golfinhos e ter programas de reabilitação. Há um real conflito de interesse aqui, já que os resgates de baleias e golfinhos pela indústria de cativeiro podem ser por razões além do bem estar do animal”.

As preocupações sobre o bem estar de um cetáceo não somem simplesmente porque o animal é resgatado. Tais indivíduos ainda podem sofrer das mesmas formas que os outros indivíduos sofrem em um ambiente cativo, quando suas necessidades físicas e sociais não são providas. Visser apoia faz tempo os “santuários de cetáceos”, feitos no mar e em baías como uma alternativa para os cetáceos resgatados. Ela diz, “Nós colocamos um homem na lua, então certamente podemos construir uma instalação que possa atender melhor as necessidades básicas destes animais. Uma instalação que possa tratá-los com a dignidade e o respeito que eles merecem, ao invés de explorá-los porque eles estavam precisando de ajuda”.

Fonte: One Green Planet 

Nota do Olhar Animal: Aquários, assim como zoológicos, tem que ser banidos. Submeter animais ao confinamento para que sejam explorados comercialmente é indecente, causa sérios danos a estes seres. A atividades científicas executadas no interesse dos animais podem muito bem realizadas por santuários. Saiba um pouco sobre a vida dos animais em aquários assistindo ao documentário Blackfish (clique aqui). 

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