Leishmaniose não é sentença de morte para os animais de estimação

Leishmaniose não é sentença de morte para os animais de estimação
Crédito: Fotos: Arquivo pessoal

Complexa, crônica e com múltiplos sinais, a leishmaniose era, até pouco tempo, motivo de desespero para muitos tutores, dada a sua gravidade. Com possibilidades remotas de tratamentos, a orientação era, quase sempre, optar pela eutanásia. Atualmente, as possibilidades de o animal infectado viver bem são consideráveis e, para além dos cuidados posteriores ao diagnóstico positivo, há também maior conscientização sobre a prevenção da doença, proposta da campanha Agosto Verde.

Por se tratar de uma infecção parasitária que pode ser transmitida de animais para pessoas e vice-versa, merece alerta redobrado das autoridades e especialistas. Segundo dados do Ministério da Saúde, a leishmaniose afeta mais de 3.500 pessoas anualmente e, para cada humano afetado, a estimativa é que haja 200 cães infectados. Existem diferentes manifestações clínicas: a sistêmica, a cutânea e a mucocutânea. A leishmaniose sistêmica ou visceral, além de acometer diversos órgãos, também pode ter apresentação cutânea e é transmitida pelo mosquito palha.

Mais comuns nos cães, o tipo visceral apresenta, inicialmente, sintomas inespecíficos e que podem levar meses ou anos para se manifestarem — 70% dos animais infectados podem ser assintomáticos e manterem-se assim por até sete anos. Os outros 30% poderão manifestar múltiplos sinais: doenças na pele, alteração oftalmológica, emagrecimento, apatia, prostração, claudicação (quando começa a mancar), anemia e aumento das unhas, do baço e dos linfonodos. A insuficiência renal, que também pode ocorrer, é a complicação que mais mata cachorros com a doença.

Conforme explica o veterinário Paulo Tabanez, especializado em doenças infecciosas e diretor da clínica veterinária Tabanez, o diagnóstico da leishmaniose se dá a partir da história clínica do paciente e das alterações laboratoriais, confirmadas por meio de testes moleculares, parasitológicos e sorológicos. Este último, inclusive, quando qualitativo, não é totalmente específico, apesar de ser recomendado na rede pública de saúde, e abre margem a falsos positivos, tópico que traz a tona à discussão do quanto a opção pela eutanásia pode ser equivocada. Diagnósticos fechados somente com testes quantitativos e com coleta de material para análise parasitológica e ou molecular.

Quanto às opções de tratamentos, recomenda-se administrar medicamentos que visam melhorar a resposta imune e diminuir a inflamação, juntamente àquele específico para tratar a infecção. Hoje, a única droga leishmanicida autorizada no Brasil para o uso em cães é a miltefosina. “Trata-se de um recurso caro e bastante complexo, que demanda a realização de vários diagnósticos para fazer o monitoramento desse animal. Ademais, não é possível eliminar o parasito totalmente; este é apenas reduzido ao ponto de diminuir os sintomas clínicos”, explica Lucas Edel, professor, veterinário e mestre em doenças infecciosas e parasitárias.

Daí a máxima de que é melhor prevenir do que remediar. As medidas de prevenção existentes e atestadas cientificamente, mesmo com certa limitação, devem ser recomendadas. São elas: as coleiras repelentes e os produtos típicos, que apresentam maior efetividade frente às demais ações de controle; a vacinação específica para a doença; e, coletivamente, o manejo do ambiente, com o fim de manter a limpeza em dia, realizando a poda de árvores e evitando o acúmulo de matéria orgânica, onde o vetor se multiplica.

Para os tutores com cãezinhos diagnosticados com a doença, Tabanez deixa o recado: “É absolutamente possível dar qualidade de vida ao animal, que deve ser tratado e bem amparado. O que o responsável precisa fazer é escolher profissionais que sejam capacitados para acompanhar esse paciente, porque é uma infecção para o resto da vida, sendo importante reconhecer e conhecer as recaídas para que as intervenções sejam rápidas e eficientes”.

Edel completa que a avaliação do veterinário levará em conta a situação em que o animal está. “Se ele chega com a doença muito avançada, com lesões renais, por exemplo, o prognóstico é mais reservado. Ainda assim, a ideia é postergar a vida dele em meses ou anos, dado que o tratamento tem como único objetivo o bem-estar animal”, analisa. Os especialistas Tabanez e Edel foram palestrantes no WorldLeish7, maior evento do mundo a respeito da leishmaniose.

Tratamento bem sucedido, vida prolongada

Quando a servidora pública Elisa Salomon resgatou Dora das ruas, a peluda estava em pele e osso, e as avaliações iniciais não foram positivas para leishmaniose. Desconfiada, a tutora entrou em contato com membros de um grupo de proteção a animais, do qual fazia parte, e pediu o contato de um veterinário especialista. Na época, há 16 anos, além do assunto ser um certo tabu, era proibido tratar a doença, de forma que a orientação era sacrificar os animais infectados. Mas com Dora a história foi diferente.

Dora viveu bons 12 anos, mesmo com a doença (foto: Arquivo pessoal)
Dora viveu bons 12 anos, mesmo com a doença  (Foto: Arquivo pessoal)

Com os medicamentos adequados, importados, a cadela viveu cerca de 12 anos, muito bem, por sinal. Quando faleceu, há quatro anos, ainda estava em tratamento e, curiosamente, a causa da morte não teve relação alguma com a doença. Elisa se recorda que o fato de a peluda não engordar e de suas unhas serem enormes era o que mais a chamava a atenção, entre os sintomas da infecção.

Atualmente, convive com Frederico — Fred, para os íntimos —, que também tem leishmaniose e é paciente do mesmo veterinário que tratou Dora. Assim como sua “irmã”, foi resgatado das ruas e está com a família há cinco anos. Por não ter apresentado sintomas para a doença, só foi diagnosticado após uma bateria de exames. Inicialmente, o tratamento escolhido foi intravenoso, mas os resultados não foram bem sucedidos, fazendo-os partir para a medicação oral.

Fred também foi resgado com leishmaniose (foto: Arquivo pessoal)
Fred também foi resgado com leishmaniose. (Foto: Arquivo pessoal)

Felizmente, Fred respondeu bem e está ótimo! Os remédios são diários e os exames de controle, regulares. “Não acho que seja caso de se assustar com o diagnóstico. Leishmaniose tem tratamento, que exige, no entanto, sério comprometimento do tutor, pois é para toda a vida do animal”, aconselha.

Quem também passou por uma situação semelhante foi a enfermeira Nayane Nogueira, tutora do vira-lata Chico, de 5 anos, encontrado no estacionamento de seu trabalho e resgatado. Como estava bastante debilitado, o resultado positivo para algumas doenças já era esperado. O peludo chegou a ficar internado por cerca de 20 dias, período em que foi diagnosticado com a leishmaniose e mais uma série de patologias, como a doença do carrapato e a sarna. Nayane sentiu medo de perdê-lo.

Nesse primeiro momento, iniciaram um tratamento com medicação via oral, ainda na primeira clínica, mais em conta. O cão reagiu bem, mas as lesões permaneceram e, então, buscaram um acompanhamento mais especializado. Em relação aos sintomas, perceberam lesões no nariz, nas orelhas, nas patinhas e algumas manchas pelo corpo; as unhas estavam em formato de garras grandes e os linfonodos, inchados.

Hoje, Chico vive muito bem, é ativo, brincalhão, não é prostrado nem tem a aparência de um animal doente. “Come bem e dá trabalho como qualquer outro cachorro”, conta Nayane. Às vezes, as lesões voltam, já que a doença não tem cura, mas é normal e a tutora consegue controlar bem. “Quando fazemos a adoção de um cachorro de rua, precisamos estar abertos a todos os riscos que isso pode vir a ter, não só em relação aos cuidados, mas às doenças que ele poderia ter”, alerta.

Para os tutores que estão lidando com o problema, Nayane recomenda que busquem informações e profissionais especializados. Ela se recorda de precisar lidar com veterinários desatualizados, que não sabiam como tratar corretamente e chegaram a recomendar a eutanásia. “Fiquem calmos e procurem o melhor tratamento para o seu bichinho. Chico está conosco há mais de três anos e nunca precisou ficar internado; faz uso das medicações diárias e não pode ficar sem elas. Tudo vale a pena quando recebemos o carinho dele que, por ter vindo da rua, também é muito carente de carinhos e cuidados.”

Para tirar as dúvidas de vez

É possível falar em cura?

Não há cura parasitológica, que é não ter mais o parasito. Mesmo com o animal em tratamento, a carga parasitária ainda estará circulante, daí a importância do acompanhamento prolongado. A cura clínica, em contrapartida, que é não ter alteração clínico-patológica, é extremamente aceitável e alcançável, assim como a cura epidemiológica, que é não ser infectante. Vale lembrar que o tratamento tem uma validade; após certo tempo, pode não ter mais resultados.

A vacina contra a leishmaniose canina é eficaz? Como ela funciona?

Só existe uma vacina no Brasil, administrada a partir dos quatro meses de idade. São três doses com intervalo de 21 dias entre elas e, depois, uma dose anual pelo resto da vida. Protege contra a doença e a infectividade, mas não contra a infecção, já que não irá prevenir a picada do mosquito palha. O animal, porém, terá menos chance de ficar doente, ser infectante ou mesmo apresentar sinais clínicos. Para evitar a infecção, o ideal é usar repelentes e inseticidas.

Cães infectados, mas em tratamento, podem transmitir a doença a outros animais?

O cão com ou sem tratamento precisa utilizar os repelentes para evitar o contato vetor-cão. Porém, machos podem infectar a fêmea pelo coito e a fêmea pode infectar os filhotes pela placenta, caracterizando-se como uma doença sexualmente transmissível. De forma geral, os animais podem conviver sem nenhum problema, desde que usem os repelentes adequados. Em relação ao contato com humanos, a recomendação é semelhante, ou seja, com os devidos cuidados, não há motivo para preocupação.

Com informações dos veterinários Paulo Tabanez e Lucas Edel

Por Letícia Mouhamad (sob a supervisão de Sibele Negromonte)

Fonte: Correio Braziliense


Nota do Olhar Animal: O que se evita não é a “eutanásia” e sim o EXTERMÍNIO de um cão, ação promovida comumente pelas prefeituras, tecnicamente equivocada e eticamente indefensável, e que é bem diferente da eutanásia. A eutanásia é um ato de caráter misericordioso e que deve atender aos interesses de quem o sofre, e não aos interesses de quem o pratica. Só pode ser chamado de “eutanásia” o ato de abreviar a vida de um animal com doença incurável e em estado irreversível de sofrimento. Os órgãos públicos de saúde disseminaram o entendimento errado do termo “eutanásia” a fim de tentar minimizar a IMORALIDADE de suas ações de extermínio. Infelizmente, até mesmo protetores usam erradamente esta terminologia.

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