Lisboa, o improvável santuário da vida selvagem

Lisboa, o improvável santuário da vida selvagem

Ao longo das últimas décadas, Lisboa tornou-se mais ecológica e amiga da natureza e isso é visível na biodiversidade animal e vegetal da cidade.

Por Pedro Sousa Tavares

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Estamos no meio de um parque florestal com 900 hectares, numa pequena reserva de 16 hectares, vedada e interdita a visitantes não autorizados. E, dentro desta, acabámos de entrar num Centro de Recuperação de Animais Silvestres, onde estão hospedados grifos – uma espécie de abutre -, águias, falcões, raposas, fuinhas, ouriços e mais uma série de outras espécies de aves, mamíferos e répteis.

Parece impossível mas estamos mesmo em Lisboa, capital portuguesa. Em pleno coração da cidade. Ou em pleno pulmão, para sermos mais rigorosos. E dentro daquela caixa de cartão, que acaba de chegar ao Centro de Interpretação de Monsanto, pelas mãos de um casal preocupado, está mesmo uma coruja. Tem uma fratura exposta numa asa, com necrose, e o olhar preocupado de Manuela Leite Mira, a veterinária sénior da pequena equipa do centro, deixa perceber que chegou em mau estado: “O prognóstico é grave”, sentencia. “Vamos fazer o que podemos para a estabilizar e depois chamamos um especialista, para operar.”

A “clínica” – como é descrita pelo pequeno staff residente e pelos muitos voluntários – não é mais do que uma cabana prefabricada, do tamanho de uma cozinha. Mas é ali que são diariamente admitidos os animais silvestres, vindos de todo o país , que o centro acolhe.

“No ano passado entraram aqui 1200. Neste ano, pelo ritmo a que vamos, deverão chegar aos 1500”, estima a bióloga Verónica Bugalho. “Não há propriamente um mês mais intenso. Existe a época de reprodução, com muitas crias de aves que caem dos ninhos, e depois há outro pico na época das migrações.

Os primeiros cuidados e os tratamentos mais convencionais são assegurados pela equipa. É o caso daquela coruja, entregue às mãos da veterinária Érica, que nos expulsa diplomaticamente da clínica para tratar a paciente com a privacidade e o sossego que esta merece. Quando as patologias exigem atenções mais concretas, entra em cena um batalhão de veterinários especializados. Todos trabalham gratuitamente para o centro, sempre que são chamados: “Tratamos aqui pelo menos 25 especialidades diferentes, de inúmeras espécies. Desde o início do centro, em 1996, já passaram por aqui 248 espécies diferentes”, explica Manuela Mira.

Num centro com um orçamento e instalações limitados – que a Câmara de Lisboa está a tentar melhorar – “a carolice” tem um peso muito grande. “Está a ver este rapaz?”, pergunta a veterinária, apontando para um jovem biólogo que passa por nós, apressado, com uma ave nas mãos. “Tirou um ano sabático para vir trabalhar para cá, como voluntário. Entra todos os dias às nove da manhã e sai às seis da tarde.”

É também com o apoio de voluntários que a equipa consegue manter os parques de espera. Uma espécie de inversão absoluta do conceito de jardim zoológico, onde o principal objetivo é reduzir ao mínimo a exposição dos animais aos seres humanos, pessoal do centro incluído.

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Domesticar um animal silvestre pode ser tão grave como deixá-lo sem qualquer tratamento: “Muitos animais perdem os instintos e, se os libertamos, morrem de fome ou predados. E se for um animal territorial, como uma águia-de-asa-redonda, se passa a encarar o homem como seu igual e o encontra no seu território pode atacar.”

A libertação na natureza é o objetivo final para todas as espécies que ali entram. E é também o que ajuda a ultrapassar os dissabores e as invulgares exigências profissionais, como ser chamado às onze da noite para acudir a uma águia ferida. Chegamos a uma espécie de gaiola em forma de túnel, usada para treinar as aves a recuperarem ou aprenderem a voar. Lá dentro estão três juvenis de bufo-real, a maior coruja do mundo, cuja envergadura de asas pode ultrapassar os dois metros. “Chegaram-nos crias, com uma parasitose muito invulgar e um prognóstico muito complicado”, conta Manuela Mira. “Sobreviveram as três. É um privilégio ser funcionário público aqui.”

É também um privilégio dos lisboetas viver numa capital onde não só se acolhem e resgatam espécies de todo o país mas também se tem assistido nas últimas décadas a uma explosão da biodiversidade, entre os regressos de espécies que há muito não passavam por aqui, como as raposas e algumas aves de rapina, às benignas invasões e introduções de visitantes mais exóticos, como os periquitos-rabijuncos e os esquilos-vermelhos.

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Não esquecendo a flora: a capital tem mais de 600 mil árvores, o que equivale a dizer que estas ultrapassam a população humana residente em perto de 100 mil. Acácias, azinheiras, choupos, espinheiros, eucaliptos, olaias, oliveiras, palmeiras, plátanos, sobreiros, são apenas uma amostra das espécies que podem encontrar-se.

A revolução verde…

Parte da explicação para a proximidade de Lisboa com o mundo silvestre passa pela localização geográfica invulgar da capital portuguesa, entre dois importantes santuários: a Reserva Natural do Estuário do Tejo e o Parque Natural de Sintra-Cascais.

Mas para compreender o motivo pelo qual Lisboa parece estar a tornar-se, ela própria, um habitat aceitável para muitas espécies, é preciso recuar no tempo mais de uma década, até ao momento em que começou a concretizar-se o aparentemente utópico sonho de um arquiteto paisagista chamado Gonçalo Ribeiro Telles.

Pouco a pouco, o sonho de ligar os jardins, bosques, áreas rurais de Lisboa através de “corredores verdes”tem vindo a ganhar forma. E se estes são cada vez mais utilizados pelos lisboetas, para fugir ao frenesim da metrópole, são também cada vez mais as espécies animais e vegetais que os usam para se espalharem a novos territórios.

“Há continuidade do espaço e isso permite essa circulação”, diz ao DN José Sá Fernandes, vereador da Câmara de Lisboa com o pelouro do Ambiente. “De facto, Ribeiro Telles tinha essa visão, que julgo que no ano que vem teremos concretizada: todos os corredores verdes, não apenas a ligação de Monsanto ao Parque Eduardo VI I mas também Monsanto até ao rio, passando pela cidade, pela Avenida Duque de Ávila, e depois por todo aquele percurso extraordinário: Casal Vistoso, Belavista, Fundão, Quinta das Flores, rio.”

… e a revolução azul

O rio que banha a cidade é obviamente um elemento fundamental da sua sustentabilidade ambiental. E também deste ponto de vista as últimas décadas têm trazido boas notícias, com uma progressiva melhoria da qualidade da água. Na chamada Linha do Estoril, na zona entre Oeiras e Alcântara, esse progresso começou na década de 1980. Hoje, várias praias da linha têm a bandeira azul. Outras que antes eram desaconselhadas a banhistas, como a praia de Paço de Arcos, passaram a ser espaços concessionados e aprovados. Em Portugal há mais de 500 praias onde a qualidade da água é considerada má. Mas entre Caxias e Cascais não existe uma única que tenha menos de “bom” na classificação.

E algumas estão a atingir níveis surpreendentes. A chamada Plataforma Interdital das Avencas, entre as praias da Parede, Avencas e Bafureira, tem recuperado a riqueza da sua biodiversidade – potenciada pelas características plataformas de rocha que entram pelo mar dentro – e serve hoje de viveiro de várias espécies marinhas, desde moluscos a algas, anémonas e peixes. Ainda neste ano, deverá ser formalizada como a primeira reserva marinha de gestão local do país.

Mais a montante, junto à cidade de Lisboa, também há sinais animadores. Antes da Expo”98, o Trancão – um dos principais afluentes do Tejo – era um rio extremamente poluído, reconhecido pelo seu mau cheiro. Hoje, após quase duas décadas de tratamentos de águas residuais e de fiscalização mais apertada sobre a indústria que o utilizava para as suas descargas, a qualidade da água melhorou substancialmente. Na cidade, depois da construção de uma conduta entre o Terreiro do Paço e a ETAR de Alcântara, finalizada em 2011, os esgotos urbanos deixaram finalmente de ser descarregados no Tejo.

Nos últimos anos têm-se tornado frequentes as notícias de avistamentos de grupos de golfinhos no Tejo. Ainda não existem evidências científicas de que estes avistamentos possam indicar um regresso à capital deste mamífero, que há décadas não tem aqui populações estáveis. Mas pelo menos algumas das espécies que lhe servem de alimento, como as corvinas, já estão de regresso.

Fonte: DN Portugal

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