Literatura animal: pesquisadora analisa o papel do bichos em grandes livros

Literatura animal: pesquisadora analisa o papel do bichos em grandes livros

Por Rodrigo Casarin

Baleia, de “Vidas Secas”, Ulisses, de “Quase de Verdade”, a barata de “A Metamorfose”, o Jaguar que dá nome ao famoso poema de Ted Hugues e os bois de Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade estão entre os animais de “estimação” de Maria Esther Maciel. Professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na Universidade Federal de Minas Gerais, ela analisa em “Literatura e Animalidade” a maneira com que os bichos vêm sendo retratados na literatura nos últimos dois séculos.

Partindo de ideias como a do filósofo Michel de Montaigne, que no século 16 já colocava em xeque a suposta superioridade dos seres humanos sobre os bichos, Maria Esther debruçou-se sobre escritos do século 20 e 21, nos quais animais aparecem como personagens. Autores como Franz Kafka, Jorge Luis Borges, J. M. Coetzee, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade também a ajudaram a entender a questão da animalidade na arte.

Em conversa com o UOL, a acadêmica que integra a programação da Flip deste ano explica que esses escritos retratam o “salto da história natural para as questões éticas e políticas que envolvem os animais”, diz ela que, nos estudos, percebeu uma grande ocorrência de cachorros, gatos, bois, onças, tigres e falcões nas obras analisadas.

Para Maria Esther, essa presença do animal na literatura contribui para o debate a respeito da ética animal por conta da sensibilidade atrelada à arte. “O Guimarães Rosa dizia: ‘amar os animais é um aprendizado de humanidade”. Para mim ele é o maior escritor animalista, não faz discurso militante a respeito dos bichos, mas os representa de uma forma que ensina muito sobre eles. Infantilizar os animais, aliás, é algo horrível, é desrespeitar a própria animalidade, não reconhecer a singularidade e as capacidades dos próprios bichos”.

E se, para Rosa, amar os animais era um aprendizado de humanidade, foi no contato com os bichos que a autora se apaixonou por eles. Quando criança, viveu por um tempo na fazenda do pai e lá conviveu com bois, porcos, cães, galinhas, passarinhos… E com Zeca, um porquinho-da-índia de estimação que vivia solto pelo lugar, sempre a seguindo por onde ia. “Eu tinha uma relação até de cumplicidade com esses animais, gostava muito mesmo de estar entre eles”.

O que levou Maria Esther a aprofundar seus estudos na área foi a curiosidade com relação aos bichos. “Sempre quis entender o enigma que é o animal, que é um sujeito que pensa, sente, tem medo e até mesmo sonhos. O que me moveu foi mesmo o afeto”. E justamente quando estava prestes a lançar a obra, perdeu a sua última companheira canina. “A Lalinha morreu bem no dia em que o livro saiu da gráfica”, lamenta a pesquisadora.

Apesar desse relacionamento com os bichos, Maria Esther rejeita o título de militante das causas animais. Diz-se parcialmente vegetariana – como peixe e frango caipira, que não passa pela vida sob tortura dos frangos de grandes granjas – e acredita que o mais importante é discutir a responsabilidade e a ética relacionada às criaturas.

Além de “Literatura e Animalidade”, a autora já havia passado pelo assunto ao organizar o livro “Pensar/Escrever o Animal: Ensaios de Zoopoética”. A pedido do UOL, Maria Esther faz, abaixo, uma breve análise de alguns dos bichos mais famosos da literatura nacional e universal, com ilustrações criadas especialmente pelo quadrinista Fernando Gonsales.

A vira-lata Baleia, de “Vidas Secas”

Literatura pesquisadora analisa papel bichos livros2

“É uma personagem consistente, que exerce um papel central dentro da família de retirantes e, por extensão, na própria narrativa. Por isso mesmo, a crítica tende a considerá-la um animal humanizado. Minha visão é outra, pois não creio que as qualidades apresentadas por ela sejam atributos exclusivos dos humanos e, portanto, impróprias quando usadas para descrever um animal. Baleia é um sujeito animal, com sua maneira própria de sentir, agir, sonhar e até pensar. É certo que, em relação aos personagens do romance, a humanidade de um se confunde com a animalidade do outro, independentemente da espécie a que pertencem. Mas Graciliano Ramos, ao construir a personagem, mostrou que conhecia muito bem os cachorros.”

Os bois de Guimarães e Drummond

Literatura pesquisadora analisa papel bichos livros3

“Os bois de Guimarães Rosa compõem com os homens uma espécie de comunidade híbrida. Humanos e animais convivem numa troca de experiências, afetos, conflitos e interesses. Os bois, nos seus livros, têm um saber próprio sobre a vida que eles compartilham com a espécie humana. Carlos Drummond de Andrade também dá ao boi, no poema “Um boi vê os homens”, um papel de sujeito capaz de pensar o mundo e ter uma visão própria sobre os humanos.”

A barata de Kafka

Literatura pesquisadora analisa papel bichos livros4

“A barata de “A Metamorfose”, de Franz Kafka, é um marco da “zooliteratura” do século 20. Já não se trata mais da metamorfose clássica: Gregor Samsa se transforma numa barata, mas não deixa de se manter homem. Ele vive a condição paradoxal de humano e não humano, ao mesmo tempo. E é essa situação absurda que revela a dimensão animal do humano e evidencia as formas híbridas de existência.”

Ulisses, de Clarice

Literatura pesquisadora analisa papel bichos livros5

“Ulisses foi o cão de Clarice Lispector e aparece como personagem/narrador do livro infantil “Quase de Verdade”. Ele “late” a história em primeira pessoa e a escritora “traduz” os latidos em linguagem humana. É um recurso muito inventivo, que torna possível a “fala” canina, sem que ela seja totalmente humanizada. Nesse sentido, ela não se rende ao antropomorfismo que predomina na ‘literatura animal’.”

O Jaguar, de Ted Hughes

Literatura pesquisadora analisa papel bichos livros6

“No poema “O jaguar”, de Ted Hugues, o jaguar enjaulado não está ali para representar todos os jaguares enjaulados do mundo, mas sustenta sua perturbadora singularidade enquanto fera que desafia o nosso poder de compreensão.”

Fonte: UOL

Mais notícias

{module [427]}

{module [425]}

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.